Entrevista de Endrick mostra que jogar futebol é apenas mais um dos talentos fora do comum do atleta do Palmeiras
Jogador do Palmeiras, que colocou o time na briga pelo título, mostra, na seleção brasileira, maturidade para aguentar a expectativa que recai em seus ombros
Às vésperas de encarar a Argentina de Lionel Messi diante do mundo, assistir a Endrick falando causa quase o mesmo espanto que vê-lo jogando futebol – e nem precisa ser em espanhol ou inglês, idiomas que ele já domina, aos 17 anos de idade.
A entrevista concedida por ele à TV Globo mostrou um jogador que demonstra não ser alienado do mundo que o cerca. Assim como já acontecera na coletiva que ele concedeu no domingo (19).
Que já entende o seu tamanho para o futebol e que é capaz de prever o que poderá vir a ser com o passar do tempo. Mas, que para além disso, sabe o que representa fora dele para aqueles que nele se inspiram. E que não tem medo de deixar claro que ainda tem muito a aprender.
É inevitável compará-lo a um Neymar jovem – ou mesmo ao de hoje, décadas depois de ele ter despontado como o “Menino Ney” que sempre teve uma nação a lhe passar a mão na cabeça a cada mostra de infantilidade. Endrick demonstra uma maturidade que até hoje é difícil enxergar no ex-jogador do Santos.
E como não pensar no condenado por estupro Robinho, que como o diminutivo de seu nome, sempre se portou como menos do que homem que deveria ser? Ou até mesmo em Ronaldo Fenômeno, que foi para a Copa de 1994 com a mesma idade que Endrick tem hoje, e que mal olhava para as câmeras que o procuravam?
Endrick fala sobre racismo e conta experiências traumáticas demonstrando saber a hostilidade do mundo em que vai ser inserido. Uma carapaça fundamental para quem vai jogar no Real Madrid, no país em que o colega de seleção e futuro parceiro de ataque Vini Jr. é sistematicamente atacado pela cor da pele.
– Racismo é uma coisa forte. É difícil para nós falarmos. É triste ver isso. Eu sofri, sim, quando tinha 9 anos em Brasília. Minha tia foi na Polícia, fez boletim (de ocorrência) e não deu em nada – disse Endrick.
– Não vou me abalar com isso, vou seguir de cabeça erguida. Se eles fizerem, eles vão ficar bravos porque eu não vou me irritar, vou ficar tranquilo – afirma.
Conseguir vencer
Até para expor suas dificuldades e imaturidades, normais para a idade, o jogador demonstra ser diferente.
– Um tempo atrás, eu sempre ficava no celular, vendo o que o pessoal falava de mim. Me abalava, mas hoje estou bem tranquilo. As críticas eram fortes, e eu queria fazer as pessoas verem que eu não era aquilo. Quando eu completei 17, eu vi que não era aquilo, eu estava jogando com raiva, com ódio dentro de mim, querendo fazer uma coisa que eu não era. Depois eu larguei tudo, só queria fazer eu e minha família feliz, se o povo gostasse, bem, se não gostasse, não estava nem aí. Estou feliz, estou bem, só quero me divertir em campo, brincar. Foi o que o Diniz falou para mim hoje. Quando ele falou, um peso caiu – garante.
– É muita coisa né, cara? Eu agradeço a Deus por tudo isso que ele me proporciona. Se tudo isso está acontecendo na minha vida é porque eu consigo aguentar, eu vou conseguir vencer. Tem a pressão, tem o fato de já ter sido negociado com o Real Madrid, o fato de eu já estar na Seleção. Muitas coisas que, querendo ou não, causam muita pressão. Mas sei que Deus está comigo, ele vai fazer eu passar por tudo isso. É isso o que quero fazer, quero me tornar um garoto muito forte.
E se na crença dele, é Deus quem vai lhe dar a força para aguentar o peso da expectativa ao seu redor, para quem o assiste de fora está claro que é ele mesmo, Endrick, quem está pavimentando o próprio caminho.



