Eliminatórias da Copa

Além de aproveitamento ruim em 2023, Brasil tem sua pior campanha na história das Eliminatórias

Considerando apenas os jogos após a Copa do Mundo, Brasil está com um aproveitamento melhor que apenas três seleções das 32 que disputaram a última Copa do Mundo

O ano de 2023 certamente ficará marcado como um dos piores anos da história da seleção brasileira. São nove jogos disputados, com cinco derrotas, um empate e três vitórias. A derrota para a Argentina, no Maracanã, fechou o ano da pior maneira possível – e não só por causa do caos que aconteceu nas arquibancadas antes do jogo. E um dado curioso deixa claro que foi um ano terrível mesmo: entre as 32 seleções que disputaram a última Copa do Mundo, o aproveitamento do Brasil é apenas o 29º. Isso é a parte da curiosidade, mas as coisas podem ser piores: o Brasil tem a sua pior campanha na história das Eliminatórias da Copa neste formato de pontos corridos.

O dado de aproveitamento é do Sofascore, site de estatísticas que levantou o aproveitamento de pontos neste ano de 2023, ou seja, depois da Copa do Mundo. Só uma seleção está com 100% de aproveitamento: Portugal, que está em novo comando, de Roberto Martínez. O time teve um grupo muito fácil nas Eliminatórias da Eurocopa, junto a Eslováquia, Luxemburgo, Islândia, Bósnia e Liechtenstein. É um grupo tranquilo e os lusos passaram o carro, vencendo todos os jogos.

O segundo time na lista é a Argentina, com 90% de aproveitamento. E aí temos dois times de jogos que foram disputados. Os primeiros foram amistosos absolutamente festivos contra times que, bem, não fariam mal a ninguém: o time reserva do Panamá a e seleção de Curaçao. Depois, os argentinos ainda venceram a Austrália e a Indonésia em amistosos. Nas Eliminatórias da Copa, aí sim, venceram Equador, Bolívia (em La Paz), Paraguai e Peru, antes de perderem para o Uruguai e se recuperarem vencendo o Brasil.

A terceira da lista é uma seleção que chama a atenção e serve para darmos ainda menos importância a esse tipo de estatística sem um devido contexto: o Irã. O time tem 11 jogos disputados em 2023, com dois empates e nove vitórias. Os adversários não são assim do mais alto nível, mas há alguns jogos importantes no meio, como das Eliminatórias para a Copa do Mundo, com dois jogos, e também amistosos com a Bulgária (hoje, fraquíssima), que venceu, e a Rússia (banida de competições internacionais), com quem empatou.

Depois temos seleções como Inglaterra e Bélgica (87%), França, Japão e Espanha (83%), Uruguai (73%), Dinamarca (73%), Senegal (69%) e por aí vai. São dados que misturam jogos relevantes e outros irrelevantes, então o número em si diz muito pouco. Ainda assim, chama a atenção que precisemos descer até o 29º lugar nesse ranking para chegar ao Brasil, com 37% de aproveitamento de pontos.

O número de derrotas do Brasil, cinco, é algo que contribui muito para esse aproveitamento tão baixo. A Seleção começou o ano sem técnico efetivo, com Ramon Menezes, técnico do time sub-20, como interino. Foram duas derrotas (2 a 1 para Marrocos e 4 a 2 para Senegal), além de uma vitória contra Guiné no meio dos dois jogos (4 a 1).

Veio então a necessidade iminente de um técnico, veio Fernando Diniz, já um improviso no incrível planejamento da CBF, comandada por Ednaldo Rodrigues. Isso com as notícias vazadas na imprensa que Carlo Ancelotti tinha um acerto verbal para ser o técnico. Uma espera que é questionável.

Diniz não foi uma má ideia, mas a má ideia foi o colocar de forma interina, pra mudar tudo (em um ano, para, supostamente, depois mudar tudo com a chegada de Carlo Ancelotti, que a CBF garante que chega). Depois de duas vitórias, contra os dois piores times das Eliminatórias, veio um empate muito ruim contra a Venezuela, com uma atuação horrenda, e uma derrota terrível para o Uruguai, com um time que teve atuação péssima. Vieram então duas derrotas na atual data Fifa, contra Colômbia e Argentina.

O desempenho e os resultados têm sido muito ruins e os questionamentos são naturais. Seria menos problema se ele fosse o técnico escolhido para o ciclo todo, que essas forem dores do crescimento. Só que não é isso. São mais dois jogos, em uma data Fifa, para que Diniz deixe o cargo e Ancelotti chegue para assumir antes da Copa América e começar do zero. Então, para que tudo isso está sendo feito?

Pior campanha do Brasil neste formato de Eliminatórias

A situação é que o Brasil vive a sua pior campanha nas Eliminatórias da Copa depois de seis jogos, considerando este formato atual, de pontos corridos — adotado a partir das Eliminatórias para 1998. Naquela edição, o Brasil não disputou porque, na época, o campeão mundial tinha vaga assegurada na Copa do Mundo seguinte. Essa regra mudaria para 2006.

A atual campanha do Brasil é ruim: são sete pontos em seis jogos. Nunca o Brasil fez tão poucos pontos depois de seis jogos das Eliminatórias. As Eliminatórias para 2002 foram de muita emoção para o Brasil, com um ciclo bastante conturbado. Naquela edição, depois de seis jogos, o Brasil tinha 11 pontos. Aquele ciclo começou com Vanderlei Luxemburgo, passaria por Émerson Leão e terminaria com Luiz Felipe Scolari.

Curiosamente, naquela sexta rodada, o Brasil enfrentou também a Argentina, no que provavelmente foi o melhor jogo sob o comando de Vanderlei Luxemburgo: 3 a 1 na Argentina de Marcelo Bielsa no Morumbi, com dois gols de Vampeta e um de Alex. Naquele momento, o Brasil tinha 11 pontos, quatro a menos que a então líder Argentina. Estava tranquilo na sua posição. As complicações viriam depois.

Para 2006, o ciclo inteiro foi comandado por Carlos Alberto Parreira, em um retorno que a CBF sempre gostou de fazer, independente de quem seja o presidente. O campeão de 1994 voltou e comandava o Brasil que não tinha problemas. Ao final da sexta rodada, venceu a Argentina por 3 a 1, com três de Ronaldo, e liderava as Eliminatórias com 12 pontos.

Após o vexame na Alemanha, com uma campanha que ficou muito aquém do que se imaginava que aquele time era capaz, veio a primeira era Dunga. Contratado para ser o pulso firme uqe a CBF achava que faltava, ele viveu um péssimo momento inicial.

Em uma época que só se classificavam quatro times, o Brasil terminou a sexta rodada em quinto lugar, com nove pontos, depois de um empate por 0 a 0 com a Argentina no Mineirão em que a torcida entoou o cântico “Adeus, Dunga”. O time acabaria se classificando ao final até com alguma tranquilidade, um ponto à frente de Chile e Paraguai e seis à frente da Argentina.

Como país-sede em 2014, o Brasil não disputou as Eliminatórias. O ciclo para 2018 começou com uma volta ao passado com o retorno de Dunga. Em seis rodadas, o Brasil somou apenas nove pontos, curiosamente, a mesma pontuação que tinha na primeira passagem de Dunga.

Desta vez, porém, ele não teve a Copa América para salvar, foi o contrário: uma eliminação na fase de grupos do torneio levou à sua demissão. Com Tite no comando, o Brasil se classificou com tranquilidade. Seria parecido no ciclo para 2022: a sexta rodada foi aquela do confronto que não aconteceu com a Argentina, mas o time já somava 13 pontos em seis jogos. Quase o dobro da pontuação atual, com um jogo a menos (com seis jogos, o time teria 16 pontos, mais do que o dobro).

A campanha atual claramente tem problemas, embora a classificação não esteja exatamente em risco. Como seis seleções se classificam diretamente à Copa e uma sétima ainda irá para a repescagem mundial, há poucas razões para se preocupar efetivamente com a classificação., mesmo que o Brasil esteja apenas em sexto. Só que há outras questões que são bem preocupantes.

O desempenho é a primeira grande preocupação. O time tem sofrido demais e ainda não parecer ter um rumo. Também não há um caminho claro quando se fala em renovação e do quanto é realmente necessário renovar radicalmente — no Brasil, há sempre uma demanda por uma renovação intensa, o que nem sempre é tão necessário assim. Mas o pior de tudo: ninguém sabe quem será o técnico em junho de 2024.

É claro que a CBF insiste em dizer que Ancelotti irá assumir. Há, porém, razões para se desconfiar. A seleção americana feminina, por exemplo, vive uma situação parecida com a masculina brasileira. Em processo de reformulação, a US Soccer já anunciou que a técnica que vai assumir em maio de 2024 será Emma Hayes, atual treinadora do Chelsea. Ela só chega depois do fim da temporada europeia. Tudo acertado e anunciado. Por que com Ancelotti não é assim?

Seria possível ter um acordo com o Real Madrid, se a CBF realmente quisesse. Se fala que existe nos bastidores, mas o que se fala nos bastidores também é que há negociações para a renovação de contrato de Ancelotti com os merengues. Então, é de se desconfiar se há realmente algo acertado. Ainda mais quando o presidente da CBF vai a público dizer que tá tudo certo, mas Ancelotti continue dizendo que isso são rumores.

Pelo histórico da CBF e do próprio Ednaldo Rodrigues, há muitos motivos para se desconfiar se essa contratação vai mesmo acontecer. E se Ancelotti não vier, como as coisas ficam? Se Diniz fosse o técnico escolhido para o ciclo, estaria sob uma intensa pressão, como outros técnicos já estiveram, mas haveria um olhar para o que vem pela frente.

A Copa América seria certamente um divisor de águas: se o time mostrasse a evolução que se espera, ele poderia continuar. Só que, na teoria, Ancelotti é quem irá assumir. E provavelmente ainda sem toda preparação necessária. Um desempenho ruim, o que seria até compreensível nessa situação, poderia já trazer complicações ao trabalho do treinador.

O Brasil termina 2023 com uma campanha horrível nas Eliminatórias, com o técnico interino questionado e sem ter certeza que terá outro técnico em junho, como prometido pela CBF. Ou seja: termina o ano bem pior do que começou, quando poderia só escolher um técnico e começar a efetivamente ter um trabalho.

O que temos agora é meio ano de trabalho que pode ser jogado fora em meados de 2024 se vier outro técnico. Ou um técnico que entrará 2024 muito pressionado e precisando desesperadamente de uma grande campanha na Copa América, com a corda já no pescoço. Um ano longuíssimo para a Seleção (e para tantos de nós também).

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
Botão Voltar ao topo