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Vale a pena esperar tanto por Carlo Ancelotti? Depende muito da qualidade da transição

Ancelotti provou ao longo da carreira que sabe operar no tiro curto, mas a CBF não pode deixar a seleção brasileira abandonada por tanto tempo

A CBF persegue Carlo Ancelotti desde a saída de Tite após a Copa do Mundo do Catar. Houve momentos de otimismo, outros de pessimismo e declarações do técnico italiano que não condiziam com as informações de bastidores, mas parece que agora vai: segundo o UOL, o SporTV e a ESPN Brasil, o tetracampeão europeu aceitou ser o técnico da seleção brasileira a partir de 2024. Quando ele chega? Não se sabe. Salário? Não se sabe. Duração de contrato? Muito menos porque nenhum foi assinado. O presidente Ednaldo Rodrigues trabalha com a premissa de que Ancelotti cumprirá a sua palavra, após reuniões com ele e o Real Madrid durante sua estadia pela Espanha.

Então o negócio ainda é um pouco frágil. Se não há tinta no papel, nenhuma apuração resiste ao cara simplesmente mudar de ideia. Por mais honrado que Ancelotti pareça, sempre pode aparecer uma Arábia Saudita oferecendo o faturamento trimestral do McDonalds para encorpar um pouco mais a liga das estrelas que está construindo. Mas a informação de momento é que o futuro da seleção brasileira inclui até um ano sob o comando de um treinador interino e depois, imagino, pelo menos dois com um dos melhores técnicos de todos os tempos.

E a questão é: vale a pena esperar tanto por Carlo Ancelotti?

Quando o chá de cadeira era de seis meses, a resposta era mais simples. Apenas um punhado de amistosos seriam perdidos, e Ancelotti ainda teria três anos de preparação para a Copa do Mundo. Agora, pelo cenário mais provável, em que ele cumpre contrato com o Real Madrid até o fim da temporada europeia de 2023/24 e assume talvez no fim de maio, talvez em junho, o cronograma ficou um pouco mais apertado, e, principalmente, o período de transição seria maior.

O futebol de seleções é… estranho. É um paradoxo, na verdade, porque a preparação é muito longa e os torneios são muito curtos. Alguns jogadores se aposentam e outros surgem do nada. As oscilações de rendimento ao longo do ciclo são maiores e, no fim, o que importa é como eles jogam durante o mês da Copa do Mundo. O Catar viu sucessos com trabalhos curtos (Marrocos) e longos (Argentina) e fracassos com trabalhos curtos (Alemanha) e longos (Bélgica). Isso não quer dizer que os processos consagrados de formação de time têm que ser ignorados. Que o Brasil nunca tenha sido campeão com um técnico que comandou os quatro anos é uma mera curiosidade. Mas, sem o dia a dia e com sessões de treinamento tão espaçadas, eles são menos eficientes.

Se o único objetivo é conquistar a Copa do Mundo, como parece ser o caso no momento, a pergunta que temos que nos fazer é: o que dá ao Brasil a melhor chance, três anos (ou três e meio) com um treinador menos qualificado, porque quase todos são, ou dois anos (talvez dois e meio) com Carlo Ancelotti? Qual cenário fornece a melhor fundação tática possível para que as individualidades apareçam e conversem entre si? Geralmente, a aposta mais segura é em continuidade e longevidade, mas eu me inclino a favor da segunda hipótese porque um treinador do calibre de Ancelotti raramente está disponível no futebol de seleções.

O seu perfil aumenta o otimismo. É o mais maleável dos grandes treinadores, ao ponto de ser difícil definir qual o seu estilo de jogo favorito. O Milan da famosa árvore de natal (4-3-2-1) era bem diferente do ofensivo Chelsea que deixou todo mundo na Premier League comendo poeira, com uma formação mais parecida com o 4-3-3. Ele finalmente entregou La Décima ao Real Madrid com outro sistema, próximo do 4-2-3-1 porque era Ángel Di María quem fazia a ligação entre ataque e meio campo. Usou duas linhas de quatro no Napoli e no Everton, e o atual Real Madrid não é nem um time de posse de bola e nem de contra-ataque. É mestre na administração dos jogos, com base na experiência de caras como Luka Modric, Toni Kroos e Karim Benzema e na vitalidade de Vinícius Júnior. Às vezes atua com pontas puros, às vezes com Federico Valverde pela direita.

Pep Guardiola ou Jürgen Klopp com certeza teriam sucesso no futebol de seleções, mas com eles talvez o tempo fosse um fator mais importante porque têm estilos de jogo muito característicos, de difícil assimilação e que exigem tempo para serem afinados. Ancelotti é mais o cara que adapta o esquema aos jogadores do que o contrário, e a sua história prova que não precisa de um longo processo para entregar resultados. Conquistou a Champions League pelo Milan em sua primeira temporada completa. A Ligue 1 pelo PSG também. Os títulos europeus do Real Madrid vieram em apenas um ano. Foi campeão inglês e alemão de imediato. Porque, embora conheça tática melhor do que quase todo mundo, o seu ponto forte é administração de grupo. Encontrar a melhor maneira de potencializar os talentos que tem em mãos, passar confiança, como fez com Vinícius Júnior, e isso o torna excepcionalmente bem talhado para o futebol de seleções. No tiro curto, são atributos que às vezes fazem toda a diferença.

Ainda assim, a CBF assumirá um risco alto, e então chegamos à importância do período de transição porque é o fator mais importante para diminuí-lo. Se foi um erro deixar a seleção brasileira abandonada por um semestre, isso simplesmente não pode acontecer durante 18 meses. A CBF precisa ter um bom plano e contratar um profissional qualificado que se dedique exclusivamente ao Brasil. Não dá para passar tanto tempo com o que foi efetivamente Ramon Menezes trabalhando como freelancer, entre o sub-20 e o time principal. O escolhido precisa começar a desenvolver as ideias de Ancelotti e seria ideal que essa comunicação fosse franca e aberta – o que o mundo do futebol provavelmente não permitirá porque, na primeira sequência ruim do Real Madrid, os torcedores e os analistas que não são mais do que torcedores dirão que é porque Ancelotti está com a cabeça no Brasil.

Falando nisso, quando chegar, ele precisa, sim, estar totalmente com a cabeça no Brasil. Haverá uma natural e compreensiva resistência a um técnico estrangeiro, e Ancelotti terá que se esforçar para, em apenas dois anos, mostrar que está investido no projeto e não apenas passando por uma espécie de crise de meia idade na sua carreira, encarando uma aventura exótica porque ficou entediado com o futebol de clubes. Tem que morar aqui, dar as caras no Brasileirão e mergulhar na nossa cultura porque o cargo de técnico da Seleção carrega um forte e importante peso simbólico.

É compreensível concluir que toda essa empreitada foi uma perda de tempo. Que o sábio era ter mirado mais embaixo desde o início e conduzir um ciclo normal de Copa do Mundo. Ednaldo Rodrigues está fazendo uma grande aposta que provavelmente definirá o seu mandato. Uma operação incomum e arriscada para qualquer seleção. Também entendo que a possibilidade de ter um técnico tão importante é extremamente apelativa, e tudo dependerá do que Ancelotti conseguirá fazer em um tempo curto. Pelo menos, há poucos profissionais mais qualificados para esse desafio específico do que ele. Mas a CBF tem que lhe dar as melhores condições possíveis. Não pode permitir que chegue daqui a um ano e encontre apenas uma folha em branco.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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