Copa do Mundo

Protesto à guerra e solidariedade: Futebol fez de Bakambu um porta-voz da RD Congo

Atacante do Betis não nasceu na nação centro-africana, mas se reconectou com suas raízes graças ao esporte e estará na Copa do Mundo de 2026

Em publicação nas redes sociais para celebrar a histórica classificação da República Democrática do Congo à Copa do Mundo de 2026, Cédric Bakambu usou sua voz para mais do que comemorar o resultado esportivo. “Não esqueço a dor e o sofrimento vividos no leste do nosso país, devastado por guerras e conflitos há tantos anos”, escreveu, falando de uma guerra que tem causado uma enorme crise humanitária.

A região leste do país africano, rica em minerais, tem sido marcada por conflitos de grupos rebeldes, como o Movimento 23 de Março (M23), apoiado por Ruanda, e tropas do governo local. Segundo a Organização das Nações Unidas, mais de 6,5 milhões de pessoas tiveram que deixar o território por causa da guerra.

— Cada esforço que fazemos em campo, cada momento de sacrifício, também é por eles. Carregamos suas esperanças conosco, e cada passo rumo à Copa é um passo em direção à esperança para todo o povo congolês — completou o atacante na mensagem.

Bakambu tem se posicionado frequentemente para expor as barbáries do conflito. Seja pelo Betis, seu clube, ou pela seleção congolesa, fez o gesto que reflete a resistência e o protesto para a situação do país, apontando o dedo indicador para a parte lateral da cabeça e tampando a boca com a outra mão.

Bakambu comemora gol do Betis com menção ao conflito na República Democrática do Congo
Bakambu comemora gol do Betis com menção ao conflito na República Democrática do Congo (Foto: IMAGO / Photo Players Images)

— A mão na têmpora representa a morte, e eu faço isso para dizer que estão nos matando por meio dessa guerra. E a mão na boca significa que ninguém fala sobre isso — explicou ao “El País” no ano passado.

O centroavante, que já atuou por Olympique de Marseille, Galatasaray e outros, não nasceu na RD Congo. Seus pais e irmãos fugiram do país por conta da ditadura de Joseph Mobutu. Ele se formou para o futebol no subúrbio de Paris, onde nasceu, e o esporte lhe deu a oportunidade de conhecer sua ancestralidade.

Bakambu não conhecia a RD Congo até ser convocado pela seleção

Após passagens pelas seleções de base da França, o jogador, aos 23 anos, recebeu o chamado da nação de seus pais em 2015, pouco antes de dar o salto para o Villarreal, até ali a maior equipe de sua carreira.

Foi a primeira vez que ele pisou na República Democrática do Congo, estreando em amistoso contra Camarões, 0 a 0, em Kinshasa, capital do país. “O futebol me ajudou a me reconectar com minhas raízes“, assumiu o atacante ao site da Fifa no ano passado.

— Quando cheguei para meu primeiro período com a seleção, fiquei impressionado. Eu tinha visto a repercussão nas redes sociais [a convocação], mas aquilo não foi nada comparado ao que vivi de fato em Kinshasa — completou.

Ao mesmo tempo, porém, Bakambu se surpreendeu negativamente com o contexto social do país, que convive com extrema pobreza causadas pelos conflitos e crises locais.

— Fiquei chocado com as condições de vida deploráveis de inúmeras crianças. Fiquei atônito, física e moralmente devastado, diante de tanta miséria, daquela mendicância inevitável — escreveu ao site da Fifpro, em 2023.

As cenas mexeram tanto com o jogador que o fizeram refletir se poderia ser ele alguma daquelas crianças caso seus pais não tivessem emigrado para a França. A partir disso, decidiu tomar uma atitude.

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Atacante do Betis fundou ONG para ajudar congoleses

Bakambu celebra classificação da RD Congo para a Copa do Mundo de 2026
Bakambu celebra classificação da RD Congo para a Copa do Mundo de 2026 (Foto: IMAGO / Straffon Images)

No fim de 2019, início da crise sanitária da covid-19, surgiu a Fondation Cédric Bakambu em Kinshasa. A ONG do jogador de futebol começou suas primeiras ações locais com foco na saúde pelo contexto do momento. Depois, a fundação se voltou para a área da educação, da preservação da história da República Democrática do Congo e, obviamente, do incentivo à prática esportiva.

Com o avanço do conflito na região leste da RD Congo, a organização também passou a apoiar os arredores de Goma, cidade dominada pelo grupo rebelde M23 desde 2025. A Fondation Cédric Bakambu reforçou a infraestrutura de escolas, criou abrigos para pessoas deslocadas pela guerra e distribuiu alimentos. Eles também abrigam famílias em sua própria sede.

O atacante e sua ONG planejam a construção da Cidade da Esperança (Cité de l’Espoir, em francês), uma vila para a população que foi diretamente impactada pelo conflito.

Bakambu levará mensagem para a Copa do Mundo de 2026

A voz de Bakambu e seus colegas de seleção congolesa chegará ainda mais longe na Copa do Mundo deste ano. O camisa 17 foi decisivo no ciclo, marcando quatro gols e distribuindo duas assistências nas Eliminatórias Africanas.

A trajetória da RD Congo não é uma novidade em Copas do Mundo. Sua história começou lá atrás, em 1974,quando a nação ainda se chamava Zaire — e foi a primeira nação subsaariana a conseguir a classificação ao Mundial. À época, os Leopardos foram duas vezes campeões da Copa Africana de Nações, em 1968 e 1974, consagrando uma geração talentosa do país.

A segunda participação veio apenas meio século depois, uma espera muito longa por um povo apaixonado por futebol. Liderado por Bakambu, os congoleses iniciam sua nova história em 17 de junho, no difícil confronto diante do favorito Portugal, pelo grupo K.

Nos Estados Unidos, o atacante e símbolo de um país precisará só de um gol para igualar o ídolo Dieumerci Mbokani e se tornar o maior artilheiro da história dos Leopardos com 22 gols.

O selecionado africano ainda enfrenta Colômbia (23 de junho) e Uzbequistão (27) e, quem sabe, pode sonhar com uma vaga no mata-mata, afinal, os oito melhores terceiros colocados se classificam.

Mais do que o resultado, a seleção congolesa quer que, enfim, o mundo reconheça e tome atitude para que seus compatriotas deixem de ser mortos em um conflito que dura mais de três décadas e vitimou milhões.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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