Copa do Mundo

De Fuerte Apache para o mundo: Almada repete passos de Tévez para se consagrar na Argentina

Bairro histórico de Buenos Aires vê surgir outro protagonista da Argentina no maior torneio de seleções

Thiago Almada não fazia parte, inicialmente, do elenco campeão da Argentina na Copa do Mundo de 2022. Mas o futebol, com seu roteiro imprevisível, tratou de mudar seu destino — e de forma inesquecível.

Ele foi convocado de última hora pelo técnico Lionel Scaloni. O jogador substituiu Joaquin Corrêa, que se lesionou e precisou ser cortado da lista da seleção. Mal sabia ele que aquela vaga permitiria que ele ostentasse o título de campeão do mundo e pudesse mostrar seu futebol no maior palco do planeta.

Nascido em Fuerte Apache, na periferia de Buenos Aires, o garoto que cresceu entre sonhos difíceis transformou oportunidade em história de vida. Mais do que levantar a taça, ele seguiu se apresentando — a si e suas origens — ao planeta.

Hoje, Almada não é mais uma surpresa ou um nome de última hora. Ele deixou para trás o rótulo de aposta e se consolidou na seleção argentina. Desde que agarrou sua chance em 2022, não soltou mais.

Thiago Almada pelo Atlético de Madrid
Thiago Almada pelo Atlético de Madrid. IMAGO / Pressinphoto

De Fuerte Apache para o mundo

Nascido em 2001, Thiago Almada começou a trajetória no futebol nas categorias de base do Santa Clara, um time de bairro localizado em um campo de terra cercado pelos edifícios de Fuerte Apache. Um lugar marcado por dificuldades sociais e que, poucos meses antes do nascimento do jogador, havia passado por remoções de famílias e demolições na região.

O bairro surgiu no começo dos anos 1970 como um conjunto habitacional, criado para receber os moradores de vilas carentes que ficavam perto do centro de Buenos Aires. Naquele período, a Argentina vivia sob uma forte e repressiva ditadura militar.

Inclusive, o nome oficial de Fuerte Apache é Exército de Los Andes e raramente aparecia no noticiário nacional por notícias positivas. Os constantes tiroteios na região marcavam os jornais da época. O conjunto habitacional cresceu, virou um bairro e, hoje, se estima que cerca de 60 mil pessoas vivem na região.

A história de Almada pode ser traçada em paralelo com a de outro grande nome do futebol argentino: Carlos Tévez. Ambos nasceram em Fuerte Apache cresceram em um ambiente cercado por desafios e deram os primeiros chutes na bola no mesmo clube de bairro.

Thiago Almada: espelho para o Bairro Fuerte Apache, em Buenos Aires
Thiago Almada: espelho para o Bairro Fuerte Apache, em Buenos Aires (Foto: Gabriel Rodriges/Trivela)

Foi justamente quando Tévez começou a ganhar projeção nacional, ainda nas categorias de base do All Boys, que o jornalista José de Zer popularizou o apelido “Fuerte Apache” ao relatar um tiroteio ocorrido na região, em referência ao filme homônimo de faroeste americano lançado em 1948.

Assim como Tévez, Almada enfrentou uma infância difícil, mas encontrou no futebol um caminho para transformar a própria vida. Os dois compartilham a mesma origem, trajetória e a capacidade de converter adversidade em oportunidade.

Se Tévez construiu uma carreira vitoriosa e se tornou ídolo dentro e fora da Argentina, Almada começa a trilhar rota semelhante, consolidando seu espaço no cenário internacional e carregando consigo a representatividade de onde veio.

O sucesso no futebol internacional logo fez Almada virar um dos orgulhos do Fuerte Apache.

Hoje, por onde se anda no bairro, é possível ver referências ao jogador em grafites, murais e pichações. Em uma delas, embaixo do prédio em que cresceu, o tamanho do feito do garoto: “Almada – de Fuerte Apache al Mundo”.

Inclusive, os grafites e murais de Almada por Fuerte Apache dividem espaços com imagens de Tévez, Maradona e do Almagro, clube profissional que fica no bairro ao lado e que hoje disputa a segunda divisão argentina. Mas não há dúvida de que Almada tem ganhado cada vez mais espaço entre as referências do local, ao lado dos grandes ídolos.

Como forma de agradecimento ao bairro em que foi criado, Almada abriu um restaurante popular entre os blocos que formam o conjunto habitacional. Chamado de “Comedor El Guayo”, o local serve refeições sem custos para os moradores da região, principalmente crianças.

Além do restaurante, Thiago também ajuda constantemente o Club Santa Clara. O jogador já doou materiais esportivos e materiais para fazer reformas nas instalações do clube, que hoje conta com cerca de 250 crianças de 4 a 17 anos.

Thiago Almada abriu um restaurante popular no Fuerte Apache (Foto: Gabriel Rodrigues/Trivela)
Thiago Almada abriu um restaurante popular no Fuerte Apache (Foto: Gabriel Rodrigues/Trivela)

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Início no Vélez e mais coincidências com Tévez

Desde os quatro anos, Thiago Almada já chamava atenção. Segundo o jornalista argentino Juan Stanisci, diversos clubes grandes monitoravam o garoto, então apenas uma criança, para levá-lo às categorias de base.

— Conheço ele desde os 7, quando cheguei ao clube. Ele sempre jogou aqui, foi campeão algumas vezes. Jogou o “baby fútbol” até os 13 anos aqui. Ele jogava no Vélez no futebol de campo e, aqui, no “baby fútbol”. Sempre foi diferente. Se notava desde pequeno a diferença. Sempre fez a diferença na categoria em que estava. Ele sempre se destacava pelos feitos — afirmou Esteban Daniel, presidente do Club Santa Clara, sobre Thiago Almada, em entrevista à Trivela em 2024.

Aos cinco, Boca Juniors, Argentinos Juniors, River Plate, San Lorenzo e Vélez Sarsfield fizeram propostas pelo atleta. O Vélez se destacou ao oferecer um apartamento para Almada e sua família em El Palomar, na província de Buenos Aires.

Inclusive, o clube de Liniers criou uma categoria exclusivamente para recebê-lo. Na época, a geração 2001 ainda não existia no Vélez, mas foi estruturada para que o jovem pudesse atuar.

Uma vez no Fortín, Thiago não saiu mais. Fez toda a formação no clube entre 2006 e 2018, quando foi promovido ao time principal. Sem surpreender ninguém, virou destaque rapidamente. Já não eram apenas clubes argentinos que o observavam, mas equipes de diferentes partes do mundo interessadas.

Thiago Almada no jogo entre Vélez e Flamengo
Thiago Almada no jogo entre Vélez e Flamengo. Foto: Abaca / Icon Sport

Pelo Vélez, disputou 99 partidas e marcou 23 gols. O desempenho chamou a atenção do Atlanta United, dos Estados Unidos, que decidiu contratá-lo. Foi também nesse período que veio a tão sonhada convocação para a seleção argentina, inicialmente sem grande expectativa.

Embora tenha sido pouco utilizado na Copa do Mundo, entrando nos minutos finais da vitória por 2 a 0 sobre a Polônia, a trajetória de Almada voltaria a se cruzar simbolicamente com a de Carlos Tévez.

Em 2024, o meia foi contratado pelo Botafogo, tornando-se a contratação mais cara do futebol brasileiro. A comparação a Tévez volta a aparecer em sua história. Não pelo time, mas pelas conquistas. O ex-jogador dos rivais de Manchester defendeu o Corinthians entre 2005 e 2006 e conquistou o Campeonato Brasileiro, sendo peça decisiva.

Almada também brilhou em solo brasileiro, ajudando o Botafogo a conquistar dois títulos históricos: o Brasileirão, após 29 anos, e a Libertadores pela primeira vez na história.

Depois, Almada se transferiu para o Lyon, como parte do plano controverso do empresário americano John Textor, então dono dos dois clubes. Seu futebol logo o levou à capital espanhola. Atualmente, Almada defende o Atlético de Madrid, comandado pelo também argentino Diego Simeone, desde julho de 2025.

Almada pela Argentina
Almada pela Argentina. Foto: IMAGO / PHOTOxPHOTO

Almada precisou se provar para seguir sendo convocado por Scaloni

Ao ser convocado em 2022 por Lionel Scaloni para substituir Joaquín Correa, Almada ainda não possuía experiência internacional relevante. Inclusive, era o único entre os 26 convocados que chegava ao Mundial sem títulos no currículo.

Além disso, sua primeira convocação para a seleção argentina havia acontecido apenas em setembro daquele ano, em amistoso preparatório contra Honduras. Três meses bastaram para que o jovem conquistasse a confiança de Scaloni e garantisse vaga no maior torneio de seleções do planeta. Antes, ele já havia sido chamado por Jorge Sampaoli para completar os treinos da seleção da Argentina antes da Copa do Mundo da Rússia em 2018.

Hoje, já é difícil imaginar a Argentina sem Almada. Ainda que não seja titular absoluto, o meia é presença constante nas listas de convocados e ganha cada vez mais protagonismo. Ao todo, soma 14 partidas com a camisa albiceleste e quatro gols marcados, sendo três deles nas Eliminatórias Sul-Americanas, campanha que assegurou a vaga argentina na Copa do Mundo de 2026.

Agora, o jovem de Fuerte Apache, aos 25 anos, terá a oportunidade de disputar um Mundial pela segunda vez. Desta vez, com mais experiência, rodagem internacional e peso dentro do elenco.

E, se depender do garoto que saiu de um campo de terra na periferia de Buenos Aires para conquistar o mundo, a história ainda reserva novos capítulos grandiosos. Porque alguns jogadores carregam talento nos pés. Outros carregam destino. Thiago Almada parece ter os dois.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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