Africa

30 anos e seis milhões de mortes: o que significa o gesto dos jogadores de Congo?

Jogadores da República Democrática do Congo protestaram durante hino antes de semifinal pela Copa Africana de Nações

A República Democrática do Congo ficou muito perto de disputar a decisão da Copa Africana de Nações de 2024. Mas mesmo sendo eliminados por Costa do Marfim na semifinal, os jogadores da seleção chamaram a atenção do público mundial pouco antes da partida, que aconteceu na última quarta-feira (7), começar.

No momento em que tocou o hino nacional do país, os atletas e a comissão técnica colocaram a mão em suas bocas e fizeram um sinal que indicava um revólver em suas cabeças. Com as câmeras voltadas para eles, o protesto, tenta mostrar o que acontece no país africano e ao mesmo tempo o silêncio do mundo em relação aos massacres no país, que já deixou 6 milhões de mortos.

O país do centro da África vive uma instabilidade política desde 1997, quando deixou de se chamar Zaire após o fim do governo ditatorial de Mobutu Sese Seko, por quase 30 anos. Dividido entre várias milícias desde então, principalmente ao leste por conta de refugiados por conta da guerra em Ruanda, a República Democrática do Congo vive em guerra civil que atinge principalmente o leste do país, que é considerado o segundo mais rico do mundo em riquezas naturais (só ficando atrás do Brasil).

E recentemente, o governo local entrou em combate com rebeldes do M23 (Movimento 23 de Março). Dois dias antes da partida, o atacante Cédric Bakambu fez um post em sua conta do X (ex-Twitter) mostrando que o gesto feito no hino é utilizado por ele em suas comemorações de gols, como um protesto ao que ocorre em seu país.

– Todo mundo vê os massacres no leste do Congo, mas todos ficam em silêncio. Use a mesma energia que você coloca ao falar da Copa Africana de Nações para destacar o que está acontecendo com o nosso povo, não existem pequenos gestos, escreveu o atacante, que na semana passada foi anunciado como o novo reforço do Betis, da Espanha.

De acordo com reportagem da BBC, cerca de 6 milhões de congoleses já morreram durante os quase 30 anos de guerra civil no país. Mesmo com a presença da ONU, que desde 1999 possui tropas de paz no local, há cerca de 100 grupos milicianos no país, sendo o M23 o maior, que visa defender o interesse do grupo étnico tutsi e tem territórios próximos da fronteira com Ruanda.

Mais do que futebol: a luta da seleção da RD Congo

Mesmo distante do país, Bakambu se esforça há anos para ao menos mitigar o sofrimento de parte da população congolesa. O jogador, que também já atuou em Villarreal e Galatasaray, abriu uma fundação com projetos educativos. No entanto, o próprio reconhece que ainda é muito pouco para o segundo maior país da África em território e o quarto em habitantes no continente, com mais de 94 milhões de habitantes.

– Com a minha Fundação tento modestamente tornar-me útil localmente, mas nunca será suficiente. Ore, compartilhe, aja pelos nossos irmãos e irmãs, compartilhou o jogador, em outra postagem em suas redes sociais.

Não será dessa vez que a República Democrática do Congo finalmente ganhará a Copa Africana de Nações. Os títulos da seleção foram conquistados somente em 1968 e 1974, quando ainda o país ainda era chamado de Zaire. Mas mesmo sem levar o troféu para casa, os jogadores fizeram suas partes. Seja em campo, mas principalmente na frente das câmeras, tendo fazer com que a força do futebol abra os olhos e a atenção do mundo para o que acontece no amado país deles.

Foto de Vanderson Pimentel

Vanderson Pimentel

Jornalista formado em 2013, e apaixonado por futebol desde a infância. Em redações, também passou por Estadão e UOL.
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