Aymen Hussein superou horrores dos EUA, Al-Qaeda e Estado Islâmico para cumprir promessa no Iraque
Vítima dos conflitos em sua terra natal, atacante encontrou refúgio no futebol para fazer história com seleção
Para qualquer jogador de futebol, não existe honra maior do que representar seu país na Copa do Mundo. Enquanto as favoritas sempre chegam à competição para vencer, outras seleções desfrutam a simples presença para levar alegria a seu povo. Nesse segundo caso, Aymen Hussein é a síntese da luta do Iraque — dentro e fora de campo.
Foi dos pés do atacante o gol que garantiu a vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia, no dia 1º de abril, na repescagem intercontinental, recolocando os Leões da Mesopotânia de volta a um Mundial depois de 40 anos. E os iraquianos tiveram que passar por muita coisa desde 1986, ano de sua primeira e única participação no torneio.
Primeiro, a Guerra do Iraque, iniciada em 2003 pelos Estados Unidos, que, por ironia do destino, é uma das sedes da Copa de 2026. Sob a falsa alegação de armas de destruição em massa e laços com o terrorismo, o exército americano e seus aliados derrubaram o regime de Saddam Hussein, mergulhando o território do Oriente Médio em uma insurgência violenta.
A Al-Qaeda passou a atuar intensamente no Iraque após a invasão dos EUA e, posteriormente, deu origem à expansão do Estado Islâmico (ISIS) na região, dando sequência ao clima caótico. E Aymen, como qualquer outro civil, foi vítima dos horrores dos conflitos enquanto sonhava com uma carreira no esporte.
Em 2017, quando ainda não era um nome tão conhecido no futebol iraquiano, o atacante de então 21 anos participou de um programa de TV e foi perguntado sobre o que gostaria de fazer que Younis Mahmoud, uma das lendas da seleção, não conseguiu. A resposta de Aymen Hussein arrancou risadas no estúdio, mas ninguém ali sabia que ele cumpriria sua promessa.
— (O que eu quer fazer que Younis Mahmoud não conseguiu?) Me classificar para a Copa do Mundo.
A história de Aymen Hussein, um recorte do que foi crescer no Iraque tomado pelo terror
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Fcarro-bomba-iraque-1-scaled.jpg)
Nascido em 1996 em Al Safra, uma aldeia rural no distrito de Hawija, em Kirkuk, Aymen teve uma infância difícil. Desde a queda de Saddam Hussein, a região do norte do Iraque teve pouco contato com a paz. Carros-bomba e explosões de artefatos explosivos improvisados faziam parte de seu cotidiano.
Oficial do exército iraquiano, o pai de Aymen Hussein recebeu diversas ameaças da Al-Qaeda para abandonar seu posto, porém, se recusou a ceder. Em 2008, o grupo terrorista o assassinou. Em entrevista à emissora local “Samarra”, o atacante lamentou que ele não pôde vê-lo se tornar “uma estrela nos campos de futebol”.
Com a morte do patriarca, coube ao irmão mais velho de Aymen assumir a responsabilidade de provedor da família. Ele também ingressou nas forças armadas do Iraque e, já em 2014, foi sequestrado pelo ISIS em seu carro, cujo paradeiro é desconhecido até os dias de hoje.
Minutos após o desaparecimento do irmão, a casa de Aymen Hussein foi bombardeada e destruída pelos extremistas, obrigando uma mudança para a região central de Kirkuk. Longe de casa e tomado pela dor de perder dois entes queridos, o atacante encontrou refúgio no futebol.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
A ascensão do atacante na liga local
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Faymen-hussein-selecao-iraque-sub-19-scaled.jpg)
Com o sonho de atuar na Premier League Iraquiana, Aymen teve que começar na liga provincial, pois nenhum clube de Kirkuk estava na elite. Em 2009, o atacante foi para o Al Alam Sports, onde deu início a sua ascensão pouco glamurosa na segunda divisão.
Aymen Hussein rodou por times do Iraque, fazendo parte das seleções de base e sendo convocado pela principal em 2015. Contudo, foi na temporada 2016/17 que o atacante passou a brilhar em alto nível, tanto que marcou 12 gols em 10 partidas pelo Al-Naft, cuja sequência foi interrompida por uma lesão.
A boa fase no futebol iraquiano rendeu uma transferência internacional, porém, Aymen teve passagem apagada pelo CS Sfaxien, onde foi campeão da Copa da Tunísia em 2018/19. Na temporada seguinte, o atacante voltou à terra natal, conquistando a dobradinha (liga e copa nacional) com o Al Quwa Al Jawiya, sendo inclusive artilheiro do campeonato.
Em 2021, Aymen Hussein ganhou nova chance no futebol estrangeiro ao passar por Umm Salal e Al-Markhiya, ambos do Catar. Dois anos mais tarde, o atacante atingiu seu ápice na Copa do Golfo com o Iraque, sendo campeão do torneio com a seleção após 35 anos e terminando como um dos grandes goleadores.
A peregrinação profissional seguia. Na sequência, Aymen foi para o Al Jazira, dos Emirados Árabes Unidos, mas o ciclo durou apenas seis meses, pois não atingiu as expectativas. O atacante então se juntou ao Raja Casablanca, porém, seu rendimento no Marrocos também ficou abaixo do esperado, cuja passagem ficou marcada por complicações que impediram a família de se juntar ao astro iraquiano.
Sem sucesso internacional, Aymen foi criticado na seleção
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Faymen-hussein-iraque-japao-copa-da-asia-scaled.jpg)
Sem sucesso longe de casa, Aymen Hussein retornou para o Al Quwa Al Jawiya no início de 2023/24 e foi convocado pela seleção iraquiana para a disputa da Copa da Ásia. Entretanto, a presença do atacante no principal torneio do continente atraiu críticas à comissão técnica, já que o atleta teve problemas para se firmar fora da liga local.
A falta de consistência e o período em baixa antes da Copa da Ásia também lançou dúvidas sobre a capacidade de Aymen de continuar entre os titulares do Iraque. Mesmo assim, o atacante ganhou voto de confiança e respondeu nos gramados, se tornando o primeiro jogador de sua seleção a marcar seis gols na competição, na campanha que se encerrou nas oitavas de final.
Aymen Hussei também foi responsável direto pelo 2 a 1 sobre o Japão, ainda na fase de grupos, com duas cabeçadas certeiras que terminaram no fundo da rede. Foi a primeira vitória do Iraque sobre o rival na Copa da Ásia desde 1982. Após o apito final, o atacante desabou em lágrimas, alegando que lutava contra um gripe.
Por outro lado, Nashat Akram, capitão da seleção iraquiana que conquistou o título inédito da competição continental em 2007, argumentou que a emoção de Aymen expressava “a angústia diante do bullying, da pressão e dos abusos aos quais foi submetido ao longo de sua carreira no futebol”.
Eleito no time ideal da Copa da Ásia, o atacante ainda alcançou 27 gols na liga do Iraque, terminando como artilheiro em 2023/24. No ano passado, Aymen Hussein foi para o Al Karma a troco de uma transferência recorde a nível nacional, o que demonstra a estima que conquistou entre seu povo.
O papel do centroavante na Copa do Mundo
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Faymen-hussein-scaled-e1775019559506.jpg)
Típico centroavante de área, Aymen costuma levar perigo aos adversários em jogadas pelo alto, pois o cabeceio é sua marca registrada. Pautado pela combatividade, ele também demonstra muita garra nos duelos corpo a corpo e pressiona a saída de bola rival com marcação apertada.
Como não é tão rápido, o atacante se apoia no jogo direto de sua seleção, comandada pelo australiano Graham Arnold desde maio de 2025. Nas Eliminatórias Asiáticas para o Mundial, Aymen Hussein fez oito gols nos 15 jogos que disputou para fazer a diferença na vaga à repescagem.
Quinto maior artilheiro do Iraque com 33 bolas na rede, o centroavante espera aumentar ainda mais sua marca na América do Norte. É verdade que a seleção não terá vida fácil, pois está no Grupo I ao lado das poderosas França, Senegal e Noruega.
Embora seja o adversário mais fraco da chave, cabe ressaltar que a seleção iraquiana sofreu derrotas por apenas um gol de diferença contra Bélgica, Paraguai e México, na Copa do Mundo de 1986. Portanto, não dá para desmerecer a equipe hoje liderada por Aymen.
Não importa qual seja o resultado no torneio. Acima de tudo, os iraquianos irão prestigiar sua seleção, assim como fizeram uma festa apaixonante com a volta ao Mundial, cuja data foi celebrada como feriado nacional. Para o atacante, certamente será motivo de orgulho fazer parte da história.
Agora é liderar um país marcado neste século pelo noticiário de guerra. Dar a uma população um presente que só o esporte é capaz de proporcionar e que outras gerações não puderam ver. Ele não entrará em campo sozinho. Seu pai, seu irmão e quase 50 milhões de pessoas estarão com Hussein, seja em carne e osso ou em espírito.