34% do mundo não verá a Copa? Fifa enfrenta problemas para transmissão em China e Índia
Fifa enfrenta problemas em negócios acordos para a transmissão do Mundial
A lista de situações tensas da Copa do Mundo parece não chegar ao fim. O mais novo caso envolve a transmissão do torneio nos países mais populosos do mundo: China e Índia.
De acordo com a “Reuters”, torcedores dos dois países podem não conseguir assistir ao Mundial já que a Fifa ainda está negociando com emissoras os direitos de transmissão da competição.
Até o momento, a Federação Internacional conseguiu acordos para exibir a Copa em 180 de suas 211 associações membro. Segundo o site “The Athletic”, a entidade busca um acordo com uma plataforma de streaming pan-caribenha, o que garantiria que torcedores em Curaçao e Haiti poderiam assistir a atuação de suas seleções. Caso a negociação se concretizasse, os acordos significariam que mais 200 milhões de pessoas teriam acesso à veiculação do evento.
No entanto, sem os chineses e os indianos, cerca de 2,8 bilhões de pessoas, ou cerca 34% da população mundial estariam de fora da transmissão.
A matemática do fuso horário
Caso a transmissão seja acordada, tanto a Índia quanto a China precisarão ajustar os ponteiros dos relógios. Isso porque, na época em que a Copa terá início, a Índia estará nove horas e meia à frente de Nova York, enquanto a China está doze horas à frente.
Ou seja, a maioria dos jogos nos Estados Unidos, Canadá e México começará quando a Índia estiver dormindo e a China estiver acordando. O cenário é bem diferente da última Copa do Mundo, realizada no Catar, que estava apenas duas horas e meia à frente da Índia e cinco horas à frente da China.
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Prejuízos financeiros e busca por novos mercados
Segundo o “The Athletic”, a última edição fez com que a Viacom18, gigante indiana da mídia, pagasse 60 milhões de dólares (R$ 270 milhões) pelos direitos de transmissão, exibindo os jogos gratuitamente em sua plataforma JioCinema.
O número de visitantes únicos do JioCinema saltou de menos de três milhões por mês no início do torneio para quase 23 milhões na final, segundo o site de negócios esportivos indiano “State of Play”.
A Viacom18, no entanto, perdeu dinheiro com o acordo, já que arrecadou apenas cerca de 30 milhões de dólares em publicidade. O resultado mostrou que mesmo com uma boa audiência, o número de exibições não gerou receita publicitária suficiente para cobrir o valor investido nos direitos de transmissão.
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Na tentativa de reverter o cenário, o jornal informou que a Fifa tentou retornar ao mercado indiano, na esperança de garantir algo semelhante ao que havia conquistado com o Catar, oferecendo um pacote para a temporada 2026/2030, com todos os jogos extras graças ao formato expandido, por 100 milhões de dólares.
Mas, segundo a mídia indiana, nem a JioStar, a nova joint venture entre a Disney e a Reliance, nem a Sony, sua principal concorrente, aceitaram esse preço. A Sony, inclusive, manteve-se inerte e a JioStar fez uma contraproposta de 20 milhões de dólares para 2026.
Além disso, as empresas de mídia indianas estão guardando seus recursos para o próximo ciclo de direitos de transmissão do único conteúdo esportivo realmente “indispensável” da Índia, a Liga Premier Indiana (IPL), uma das principais competições de críquete do mundo.
Outro fator é a Copa do Mundo Feminina de Críquete T20 na Inglaterra. A JioStar detém esses direitos e espera grandes audiências para os jogos da Índia.
Mas… e a China?
No caso da China, a competição não é com outros esportes, mas sim com os valores dos direitos de transmissão. A emissora nacional CCTV tem sido a casa habitual da Copa do Mundo e, segundo a Fifa, foi responsável por 17,7% do alcance global do Mundial 2022. Os números de horas de jogo visualizadas em plataformas digitais e redes sociais foram positivos, com a China respondendo por quase metade desse total.
Com uma população superior a 1,4 bilhão e um público fiel de pelo menos 200 milhões de fãs de futebol, o “The Athletic” informou que a Federação acreditava que estava sendo razoável ao pedir propostas de mais de 250 milhões de dólares, cerca de metade do que a Fox e a Telemundo desembolsaram pelos direitos de transmissão nos Estados Unidos.
Mas a mídia estatal chinesa noticiou que a ausência de resposta diante daquela proposta inicial obrigou a Fifa a reduzir o preço duas vezes, primeiro para 120 milhões de dólares e depois para 80 milhões de dólares. Ambas as propostas ainda não resultaram em acordo.
Paul Widdop, professor associado de gestão esportiva na Manchester Metropolitan University e professor visitante na University of Derby, analisa se a China e a Índia estão discretamente reagindo ao modelo mais americanizado do torneio.
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— A Copa do Mundo de 2026 é provavelmente a mais americana já realizada, não apenas geograficamente, mas também ideologicamente: torneio expandido, preços dinâmicos, shows no intervalo, integração de celebridades. A FIFA se comporta cada vez menos como um órgão regulador e mais como uma plataforma global de entretenimento, com ideias típicas do Vale do Silício sobre escala e monetização — argumentou.
Widdop também relembra que o contexto político acabou refletindo na Copa, em meio a um governo de Donald Trump que tem gerado tensões em diferentes setores e em todo o mundo.
— E é aqui que a perspectiva geopolítica se torna interessante. Não creio que se trate de um sentimento anti-americano em sentido estrito, mas o contexto político mais amplo importa. As tarifas e tensões comerciais da era Trump claramente prejudicaram as relações dos EUA com a Índia e a China. Há um crescente ceticismo na Ásia em relação aos sistemas e instituições econômicas liderados pelos Estados Unidos — afirmou.
O professor também acredita que o futebol passou a esbarrar em um mundo com novas visões, inclusive esportivas. Nesse sentido, ele acredita que tanto a China quanto a Índia podem ter uma nova forma de enxergar a modalidade, diferente da que a Fifa quer assegurar mundialmente.
— Nesse sentido, a Copa do Mundo está colidindo com um mundo mais multipolar. Por 30 anos, a globalização do futebol pressupôs convergência, mas talvez a China e a Índia estejam dizendo que valorizam o futebol de forma diferente e se recusam a pagar o que a Fifa pede só porque diz ser o centro do universo esportivo — analisou.