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Após se declarar homossexual, Joshua Cavallo diz que teria “medo” de jogar a Copa do Mundo no Catar

A homossexualidade é ilegal no Catar e pode ser punida até com pena de morte, embora, segundo relatório da Anistia Internacional, isso não costume acontecer

Um dos raros jogadores profissionais declaradamente gay, o lateral esquerdo australiano Joshua Cavallo, do Adelaide United, afirmou que teria medo de jogar a Copa do Mundo no Catar, onde a homossexualidade é ilegal e teoricamente pode ser punida com pena de morte.

Segundo um relatório da Anistia Internacional, o Catar é um dos sete países em que homens muçulmanos podem ser condenados à morte por relações sexuais consensuais com pessoas do mesmo sexo, de acordo com a Sharia, aplicada a muçulmanos. Está entre quatro nações em que mulheres podem ser executadas por lesbianismo.

A entidade, porém, diz que “embora esses estatutos existam como ameaças a lésbicas, gays, bissexuais e indivíduos que praticam sexo com pessoas do mesmo sexo, e muitas vezes a indivíduos transgêneros, na maioria desses países eles são raramente aplicados”.

O relatório acrescenta que qualquer ato sexual praticado por uma pessoa casada fora do casamento pode gerar pena de morte. Atos sexuais praticados por pessoas não casadas são punidos por açoitamento. A Sharia se aplica apenas a muçulmanos. Aos não-muçulmanos, a pena é de até sete anos na prisão. A Anistia Internacional afirma que execuções por esse tipo de ofensa são “extremamente raras no Catar” e que “não tem conhecimento de execuções por condenações por ofensas sexuais nos últimos anos”.

De qualquer forma, a prática ainda pode gerar punições pesadas, mesmo a não muçulmanos. Em 2019, o Catar foi tido como o oitavo país mais perigoso para turistas gays, segundo um índice compilado após mais de 250 horas de pesquisa.

“Eu li algo no sentido de que eles dão a pena de morte para gays no Catar, então é algo que me assusta muito e eu não gostaria de ir ao Catar por causa disso. E isso me entristece. No fim do dia, a Copa do Mundo é no Catar, e um dos maiores feitos de um jogador profissional é jogar pelo seu país, e saber que esse é um país que não apoia os gays e coloca nossas vidas em risco, isso me assusta e me faz reavaliar – minha vida é mais importante do que fazer algo muito bom pela minha carreira?”, disse Cavalo, em entrevista a um podcast do Guardian.

Robbie Rogers, que declarou ser homossexual ao mesmo tempo em que encerrou a sua carreira aos 25 anos, antes de ser chamado para defender o Los Angeles Galaxy, havia dito algo parecido em 2015, também criticando a Rússia, sede da última Copa do Mundo, onde a homofobia é política de Estado. “Para qualquer jogador de futebol gay que tenha esperança de defender a seleção americana na Copa do Mundo, assumir sua sexualidade poderia ter reais consequências quando ele desembarcar em países com leis que poderiam mandá-lo à prisão”, contestou.

Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa, chegou a dizer que “gays deveriam se abster toda a atividade sexual” durante a Copa do Catar, em tom jocoso, antes de ser obrigado a pedir desculpas. Os organizadores do Mundial também adotaram um discurso mais rígido em um primeiro momento, mas, com o torneio se aproximando, estão dando alguns passos para trás.

Sob pressão da Fifa, que promove campanhas de tolerância e inclusão, o Catar permitirá que bandeiras do arco-íris sejam exibidas dentro dos estádios. “Sobre as bandeiras do arco-íris nos estádios, a Fifa tem suas próprias diretrizes. Eles têm suas regras e regulamentos. Independentemente de quais forem, vamos respeitá-las”, afirmou o executivo-chefe da Copa do Mundo 2022, Nasser Al-Khater.

“Temos um país que é conservador, mas é um país acolhedor. Somos abertos e acolhedores, hospitaleiros. Entendemos a diferença nas culturas das pessoas. Entendemos a diferença nas crenças das pessoas, então acho que, novamente, todo mundo será bem-vindo e todo mundo será tratado com respeito”.

“Da mesma maneira como nossa cultura é uma cultura neste mundo, também esperamos que as pessoas respeitam nossa cultura. Acho que existe um equilíbrio e há um sentimento de que as pessoas respeitarão pessoas de todos os lugares”, completou.

Joshua Cavallo, 21 anos, ainda não defendeu a seleção australiana principal, mas tem passagem pelos times de base do país. Após quatro rodadas, a Austrália está em segundo lugar no seu grupo das Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo. Os dois primeiros colocados garantem vaga direta no Mundial do Catar.

Em outro comentário, Cavallo, que recebeu amplo apoio da comunidade do futebol, pelo menos em público, desde que fez a sua declaração, afirmou que recebeu mensagens privadas de outros jogadores de futebol que também são homossexuais. “Eles vieram falar comigo confidencialmente e disseram: ‘Estou sofrendo com a mesma coisa, Josh’, e eles são profissionais também. E veja, é algo que você não pode apressar. Você quer ser você mesmo e, no fim do dia, eu não estava feliz, e agora olhe para mim, estou flutuando de alegria”, disse.

“Eles gostam de ouvir isso e dizem: ‘Josh, eu não passei por isso e eu quero’, e eu digo: ‘Depende de você. É sua jornada e há uma luz no fim do túnel’. Eu não achava que havia, mas definitivamente há. Eu não escondia apenas dos meus colegas de time. Eu escondia da minha família. Escondia dos meus amigos. Eu escondia de todos com quem convivia, então apenas quando eu estava sozinho que eu podia genuinamente relaxar e não me preocupar ou não me estressar”, contou.

 

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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