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Atiba Hutchinson encerra a carreira como um símbolo da transformação do futebol no Canadá

Ídolo no Copenhague e no Besiktas, Atiba Hutchinson se tornou o grande líder da geração que recolocou o Canadá na Copa do Mundo e se aposenta aos 40 anos

A quem esperava uma despedida em campo, ela não aconteceu durante a derrota de domingo. Atiba Hutchinson preferiu uma saída de cena bem mais modesta de sua carreira como futebolista. O meio-campista havia anunciado seu adeus do Besiktas, clube no qual viveu os melhores momentos de sua história por clubes, ao final da temporada. Já na Data Fifa, o capitão da seleção do Canadá confirmou que estava se aposentando de vez de sua trajetória profissional, e a Liga das Nações seria o último torneio de sua carreira. Esteve em campo durante a semifinal, vencida pelos Canucks contra o Panamá. Porém, com o triunfo dos Estados Unidos na decisão, o veterano sequer entrou em campo pela última vez. Apagou as luzes de uma história relativamente discreta no mais alto nível, mesmo ídolo na Dinamarca e Turquia, mas verdadeiramente heroica para o futebol canadense. Atiba é uma expressa liderança da geração que recolocou o país numa Copa do Mundo e pode oferecer novos orgulhos em 2026.

Assim como outros companheiros de seleção, Atiba Hutchinson é filho de imigrantes. Fã de Dwight Yorke, o meio-campista nasceu numa família trinitina que se estabeleceu em Brampton, na região metropolitana de Toronto. A cidade de Ontário é conhecida não apenas por possuir uma população expressiva de imigrantes e descendentes, mas também por ser um dos grandes nascedouros de talentos do futebol no Canadá. Foi por lá que Atiba deu seus primeiros passos, em pequenas equipes de base, enquanto se estabelecia entre as principais promessas canadenses. O meio-campista fazia parte dos Canucks que perderam para o Brasil de Adriano e Kaká no Mundial Sub-20 de 2001, enquanto era o capitão do time que alcançou históricas quartas de final no Mundial Sub-20 de 2003, derrotado apenas no gol de ouro pela Espanha de Andrés Iniesta e Gabi.

Nesta época, Atiba Hutchinson chegou a fazer um teste no Schalke 04, mas não foi aprovado. O meio-campista se profissionalizou no incipiente futebol canadense, defendendo York Region Shooters e Toronto Lynx. Sua carreira só floresceu quando arrumou as malas e foi para a Europa, mas não para um destino tão visado. Primeiro defendeu o Östers, recém-promovido à elite do Campeonato Sueco. Depois, ganhou visibilidade na liga e passou a atuar pelo tradicional Helsingborgs. Foram três anos na Suécia, até ser levado pelo Copenhague em 2005/06. Por lá, ganhou um status raro para um jogador canadense: era um dos melhores jogadores em atividade no Campeonato Dinamarquês.

Atiba Hutchinson é considerado um dos melhores jogadores da história do Copenhague. O meio-campista conquistou quatro títulos consecutivos da Superliga Dinamarquesa. Também levaria a taça da antiga Liga Real, um torneio regional que envolvia outros clubes escandinavos. Chegou a ser eleito o melhor jogador em atividade no futebol dinamarquês em 2009/10. Enquanto isso, começava a atrair olhares das principais ligas europeias. Não era exatamente uma promessa, mais próximo dos 30 anos, mas era alguém ambientado ao mais alto nível. As participações na Liga dos Campeões e na Copa da Uefa eram frequentes, com seu primeiro gol nos torneios continentais anotado numa vitória sobre o Celtic na fase de grupos da Champions.

Diante da importância que tinha na Europa, Atiba Hutchinson era também um protagonista na seleção do Canadá. O meio-campista tinha outras companhias de renome na história dos Canucks: Julián de Guzmán passou muito tempo no Hannover 96 e no Deportivo de La Coruña; Paul Stalteri foi uma bandeira do Werder Bremen e depois jogou no Tottenham; Dwayne De Rosario foi multicampeão na MLS. Com essa equipe, Atiba disputou as semifinais da Copa Ouro em 2007. Entretanto, voltar a disputar uma Copa do Mundo permanecia como sonho distante aos Canucks.

Um momento importante para Atiba Hutchinson aconteceu em 2010, quando assinou com o PSV. Era um reconhecimento ao seu ótimo trabalho no Copenhague e a grande oportunidade de sua carreira até então. O canadense fez uma boa temporada inicial em Eindhoven, mas logo teria sua sequência atrapalhada pelas lesões. Quando retomou seu lugar na equipe, seria deslocado como lateral direito. Cumpriu seus três anos de contrato com os Boeren, mas sem reproduzir totalmente o sucesso vivido na Dinamarca. Enquanto isso, a seleção do Canadá se enfraquecia e perdia perspectivas. O fundo do poço seria atingido em outubro de 2012, com uma goleada por 8 a 1 sofrida diante de Honduras nas Eliminatórias. Atiba estava em campo no vexame. Nesta época, os Canucks sequer passavam da fase de grupos da Copa Ouro.

Seria importante para a seleção do Canadá que Atiba Hutchinson recobrasse seu melhor futebol na Europa. E o veterano conseguiu isso a partir de sua transferência para o Besiktas, em 2013. O meio-campista se tornou uma das figuras mais influentes dos alvinegros. Não apresentava a capacidade ofensiva de outros tempos, mas dominava a faixa central com sua precisão nos passes e sua presença física. Era um dos favoritos da torcida, a ponto de ganhar o apelido de O Polvo, graças às pernas longas que protegiam tão bem a bola. Não à toa, começou a acumular sucessos com as Águias. O clube seria bicampeão turco em 2015/16 e em 2016/17. Atiba virou uma peça central no esquema do técnico Senol Günes, em tempos nos quais Mario Gómez também se destacava no comando de ataque. Foi quando o canadense se tornou ainda mais idolatrado em Istambul.

A partir de sua mudança ao Besiktas, Atiba Hutchinson venceu por quatro anos seguidos o prêmio de melhor jogador de futebol do Canadá, honraria que já tinha levado uma vez no Copenhague e outra no PSV. Mais importante, as companhias na seleção gradativamente começavam a melhorar. John Herdman chegou ao comando do time em 2018, enquanto começaram a eclodir promessas como Jonathan David e Alphonso Davies. Mesmo passando dos 35 anos, Atiba seria escolhido para servir de referência a essa garotada. Sua longevidade auxiliava, especialmente pela maneira como continuava onipresente nos sucessos de seu clube.

Em números, Atiba Hutchinson teve sua melhor temporada pelo Besiktas em 2020/21. O meio-campista anotou quatro gols e deu 11 assistências para a equipe na Süper Lig. As Águias conquistaram o Campeonato Turco e também a Copa da Turquia. O volante confirmava seu status lendário com a camisa alvinegra. E o melhor também acontecia na seleção do Canadá. Atiba não chegou a participar das preliminares das Eliminatórias para a Copa de 2022, mas era o capitão do time no octogonal decisivo da Concacaf. Além de atuar no meio-campo, quebrou galho até na defesa se necessário. Viveria a glória de levar os Canucks de volta a um Mundial depois de 36 anos. Ele mesmo, aos 39 anos, pensara que sua chance tinha acabado anos antes.

A temporada 2021/22 foi a última em que Atiba Hutchinson se manteve como titular do Besiktas. Os problemas físicos custavam sua sequência e ele perdeu os primeiros meses de atividade em 2022/23, com uma lesão óssea. Ao menos, sua recuperação aconteceu a tempo de disputar a Copa do Mundo, após genuínos temores de que perderia o torneio. Aos 39 anos, o meio-campista se tornava um dos mais velhos da história dos Mundiais. Foi titular e capitão contra Bélgica e Croácia. Apesar das boas participações individuais, não evitou as derrotas dos Canucks. De qualquer maneira, ver o país num Mundial valia demais. O capitão sabia que seu trabalho estava encaminhado, com tantos companheiros que virariam herdeiros de seu legado rumo à Copa de 2026, dentro de casa.

Atiba Hutchinson pouco apareceu no restante da temporada com o Besiktas. Foram apenas cinco partidas pelo Campeonato Turco. Sua despedida aconteceu num jogo contra o Kasimpasa, entrando apenas nos minutos finais. Aos 40 anos, encerrava uma história enorme no clube, com dez anos de caminhada e 334 partidas disputadas. Haveria tempo ainda para o ato final pelo Canadá. O medalhão participou dos minutos finais da semifinal da Liga das Nações contra o Panamá. Sem as melhores condições físicas, diante da necessidade de virada, viu só do banco a derrota na final para os Estados Unidos. Não foi o adeus glorioso que muitos queriam, mas não se nega a transformação que vivenciou ao longo da jornada.

A proximidade da Copa Ouro ainda oferecia mais uma oportunidade para Atiba Hutchinson na seleção. O veterano, entretanto, preferiu dar prioridade à sua família. A esposa está grávida do quarto filho do casal e o capitão dos Canucks quis dar apoio em sua casa. Finaliza a passagem de bastão a uma geração que está muito bem encaminhada. Que, afinal, pode almejar a decisão do torneio continental que o Canadá não alcança desde 2000 – quando Atiba ainda não estava lá.

Olhando para essas duas décadas de carreira, Atiba Hutchinson não vai ser considerado o melhor jogador canadense da história ou mesmo o de maior sucesso no futebol internacional. Sua jornada por clubes é muito bonita, mas restrita às glórias de ligas secundárias na Dinamarca e na Turquia. Entretanto, o que experimentou na seleção do Canadá é muito grande. O meio-campista talvez seja o maior símbolo dos Canucks em todos os tempos. Experimentou todos os tipos de desafios e desilusões, até protagonizar o auge dos alvirrubros neste século. Foi o primeiro jogador a superar a marca de 100 jogos pela seleção e é o recordista no quesito, com 104 aparições. E não sugere que sua contribuição ao futebol canadense para por aí. Por sua experiência e por sua relação interna, provavelmente Atiba terá um cargo diretivo no futuro. Ele conhece a direção.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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