Eliminatórias da Copa

O Canadá empolga nas Eliminatórias e se permite acreditar: será que finalmente chegou sua vez?

Canadá emenda resultados consistentes e conta com a ascensão de jogadores para ver no horizonte outro Mundial após 36 anos

*Por Leandro Vignoli

A vitória do Canadá sobre o México pelas Eliminatórias da Concacaf entrou para a história. O país ainda não está classificado para a Copa do Mundo, que seria a sua primeira desde 1986, mas foi de fato histórica para dois jogadores. Cyle Larin, autor dos dois gols no triunfo de 2 a 1 contra os mexicanos, se tornou o maior artilheiro do país, com 22 gols. E o veterano Atiba Hutchinson, 38 anos, que agora lidera as partidas jogadas pela seleção, com 90. E as duas marcas foram cheias de pedras e cascalho pelo caminho.

Larin, 26 anos, já era considerado por parte da imprensa local um talento perdido. De ascensão meteórica na MLS, Larin fez 43 gols em três temporadas no Orlando City e rumou à Europa, onde flopou no Besiktas e acabou emprestado a um pequeno clube belga. Na seleção, estagnou, com apenas oito gols até 2018, e nenhum deles nas três edições de Copa Ouro que o Canadá fracassou. Cyle Larin era visto no Canadá mal comparando como Alexandre Pato foi para o Brasil. Mas tudo isso mudou em 2021. 

Na última temporada, Larin ajudou o Besiktas a ser o campeão turco, com 19 gols, vice-artilheiro da competição. E na seleção, marcou 14 gols só em 2021, quase o dobro do que tinha. E se por um lado foi ajudado por enfrentar babas como Bermuda e Ilhas Cayman, Cyle Larin já provou de grande importância no octogonal final da Concacaf. Marcou contra a pedra-no-sapato Honduras, fez o gol de empate contra os EUA, em Nashville e, claro, os dois contra o México. Cyle Larin agora divide a artilharia histórica do Canadá com a lenda local Dwayne De Rosario – o jovem Jonathan David já aparece em quinto na lista, com 18 gols. 

Para Atiba Hutchinson a trajetória é ainda mais tortuosa. Desde 2003 na seleção, Atiba é único jogador remanescente da humilhante derrota por 8 a 1 para Honduras, em 2012, pelas Eliminatórias da Copa de 2014 – em que o Canadá entrou em campo precisando apenas do empate para ir ao hexagonal final. Ele participou de seis edições da Copa Ouro quando o Canadá era eliminado por Cuba, quando fez um bisonho gol contra a favor dos EUA, na derrota para Guadalupe, na virada do Haiti quando vencia por 2 a 0 no segundo tempo. Atiba Hutchinson é o jogador que pode dizer que já estava lá quando tudo era mato. 

O veterano volante chegou a considerar a aposentadoria da seleção, mas ao contrário do escocês-canadense Scott Arfield, que declarou “não ver sentido nesses jogos contra Bermuda” (e nunca mais foi convocado), Atiba mudou de ideia para tentar classificar o Canadá para a Copa do Mundo uma última vez. Eleito seis vezes o Jogador Canadense do Ano, um recorde no futebol masculino (Christine Sinclair foi eleita 14 vezes), jogar no Catar seria o ápice do capitão.

Duas gerações, um mesmo lugar

Cyle Larin, do Canadá (Foto: federação canadense)

Cyle Larin e Atiba Hutchinson desde 2018 jogam juntos no Besiktas, mas desde que nasceram dividem as mesmas raízes: Brampton, Ontário. A cidade de 530 mil habitantes na grande Toronto é um dos grandes centros migratórios do país, com 40% da população do sul da Ásia (Índia, Paquistão) e cerca de 16% de origem negra – os pais de Atiba vieram do Trinidad e Tobago; os de Cyle Larin, da Jamaica. Outros jogadores da seleção, como Doneil Henry, Junior Hoilett e Tajon Buchanan, também são todos de Brampton. 

As trajetórias idênticas, porém, param por aí. Cyle Larin, assim como outros dois titulares na vitória contra o México, Buchanan e Richie Laryea, saíram da Sigma FC, uma escolinha particular de futebol, na vizinha Mississauga. E esse é o grande problema que o futebol canadense tem enfrentado ao longo de várias gerações. Quase não existem centros públicos de alto rendimento ou projetos de desenvolvimento desde a base – ainda mais essencial em um país onde metade do ano é impossível jogar em campo externo, por conta do inverno. Sem uma liga profissional (até 2018), tudo ficava na mão de escolinhas privadas, onde crianças têm diferentes níveis, diferentes ambições, e diferentes…contas bancárias. E eventualmente, todos os jogadores de destaque paravam nos três times da MLS, criando um inchaço cheio de joio e trigo

O dono da Sigma FC, fundada em 2005, Bobby Smyrniotis, é o técnico do Forge FC, atual bicampeão da Canadian Premier League. Criada em 2019, a ideia da liga é justamente fomentar categorias de base no Canadá, entre os oito novos times profissionais, onde são obrigados a dar pelo menos 1.500 minutos de jogo combinado a jogadores domésticos sub-21. De uma geração bem anterior, o modelo de Atiba Hutchinson era o de cada-um-por-si, e foi desde jovem tentar a sorte na Europa, em testes no Schalke 04, antes de eventualmente conseguir uma vaga num time sueco (uma trajetória parecida a do goleiro Milan Borjan, Samuel Piette, Jonathan Osorio e tantos outros do elenco do Canadá). Não existe “geração” canadense. 

Os coadjuvantes que brilham

O Canadá em campo contra o México (Foto: federação canadense)

Além da experiência de Atiba, da fase iluminada de Cyle Larin, e dos óbvios destaques Alphonso Davies (Bayern) e Jonathan David (Lille), o Canadá chegou a um time-base durante as Eliminatórias cheio de jogadores ainda jovens.

Tajon Buchanan, 22, foi o grande destaque da (invisível) campanha do Canadá no pré-Olímpico em março (eliminado pelo México nas semis) e eleito o jogador revelação da Copa Ouro em julho (fez o gol na eliminação para o México nas semis), até ganhar a vaga na seleção principal e virar titular do time. Jogador de velocidade no lado do campo, Buchanan também carregou o New England Revolution a uma campanha recorde na MLS, e já está vendido ao Club Brugge, onde deve chegar em janeiro. 

Stephen Eustáquio, 24, nasceu no Canadá, mas mora em Portugal desde os sete anos (e chegou a jogar pela seleção sub-21 de Portugal). Destaque do último Portuguesão pelo Paços de Ferreira, deu uma cadência ao meio que o talentoso-mas-sonífero Jonathan Osorio nunca conseguiu.

Alistar Johnston, 23, até dois anos atrás jogava futebol semi-amador. Foi chamado pela primeira vez em março de 2021 e assumiu o protagonismo – foi dele o chute que originou o rebote para o primeiro gol contra o México. Numa zaga ainda bastante fraca, Johnston se encontrou como terceiro zagueiro numa linha de três (ele é lateral direito de origem).

Milan Borjan, 34, é um paredão quando se precisa dele, e deu pra ver contra o México. Experiente, joga há cinco temporadas no tradicional Estrela Vermelha, de Belgrado.

“Ice”teca

A vitória do Canadá contra o México se tornou viral por conta das comemorações na neve à beira do campo e da temperatura de 10 graus negativos na hora do jogo. Mas, tecnicamente, o jogo em Edmonton, no Commonwealth Stadium, foi estratégia de uma Data Fifa só. Exceção feita também à vitória contra a Costa Rica na última sexta, todos os outros jogos do Canadá foram em Toronto, onde o estádio e gramado são melhores. A ideia de um ambiente hostil foi justamente dificultar a México e Costa Rica.

Em Toronto, por exemplo, fazia quatro graus (positivos!) na hora do jogo, e a cidade ainda não viu um centímetro de neve neste inverno. Em Toronto é o único lugar no Canadá com uma significativa presença de mexicanos (uma das grandes vantagens do México quando joga nos Estados Unidos, por exemplo). Em Toronto a grama é natural, ao contrário do campo sintético de Edmonton (usado para a CFL, o futebol canadense), onde a bola corre mais, especialmente num ambiente climático tão avesso quanto a neve. 

Funcionou. Foi a primeira vitória contra o México desde 2000 (na Copa Ouro que o Canadá seria campeão) e a primeira pelas Eliminatórias da Concacaf desde 1976 (exatos 45 anos). “Foi uma oportunidade genuína de trazer o lado canadense dos nossos jogadores”, disse o técnico John Herdman, ao jornal Toronto Star. “Todos eles cresceram nesses campos de plástico e lugares muito frios. Queríamos que eles se sentissem como se estivessem em casa.” Alphonso Davies, por exemplo, cresceu em Edmonton.

Contra os EUA, na rodada de janeiro, o Canadá ainda não decidiu o local, mas provavelmente o “Ice”Teca deve ser reservado apenas contra a Jamaica, em março.

Tão perto, mas extremamente longe

Essa é a primeira vez que o Canadá chega à fase final das Eliminatórias desde a Copa de 1998. E ainda que o Canadá tenha chegado até mais longe em 1994 (perdeu a repescagem intercontinental nos pênaltis para a Austrália, que depois perdeu pra Argentina), é possível que seja a grande chance de ir a Copa do Mundo pela primeira vez desde 1986.

O Canadá está invicto, lidera o grupo na virada do ano e faltam seis jogos, mas…

Mas o Canadá ainda não venceu fora de casa na fase final, está apenas dois pontos à frente do quarto colocado, e ainda pega Honduras, El Salvador, Costa Rica e Panamá fora. São apenas três vagas diretas e, caso termine em quarto, pode cair num playoff contra um grande sul-americano (Uruguai? Chile? Colômbia?). Se tem uma coisa que o torcedor canadense mais antigo sabe é que o time sempre encontra um jeito de decepcionar.

Veremos se desta vez é diferente.

*Leandro Vignoli é jornalista etc, escreveu o livro À Sombra de Gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu (clique aqui e compre o seu). Também é o dono do perfil Corneta Europa e do blog/newsletter Corneta Press.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo