Como Zubeldia transformou problema de 2025 em maior arma de 2026 no Fluminense
Técnico argentino e comissão técnica trabalham com carinho a bola parada do Flu
O Fluminense, finalista do Campeonato Carioca neste domingo (8), tem impressionado pelo jogo com a bola rolando. Sob o comando de Luis Zubeldía, se tornou uma equipe de muita associação por dentro, troca de passes e muita qualidade técnica. Ao mesmo tempo, também virou um time especialista em bolas paradas.
A presença na final do estadual, inclusive, só foi possível graças a esse tipo de lance. Na semifinal contra o Vasco, a ida se decidiu em um escanteio cobrado por Renê que chegou quase fora da área antes de Bernal desviar para o mesmo lado da cobrança, onde surgiu Serna para marcar de primeira.
Foi o oitavo gol de bola parada direto desde que Zubeldía assumiu o Tricolor, em setembro do ano passado, seis só em 2026, segundo levantamento da Trivela — sem contar pênaltis. Indiretamente, no confronto de volta da semi do estadual, a infração da penalidade convertida por Ganso veio em uma falta cobrada pelo meia e finalizada por Martinelli no braço de Cauan Barros.
A reportagem buscou entender como ocorreu essa revolução nos escanteios e faltas do Flu, uma área que chegou a ser problema sério do time das Laranjeiras e se transformou a partir da chegada do técnico argentino.

As variações nos escanteios do Fluminense que têm dado certo
As bolas paradas do Flu, em especial os escanteios, têm sido um perigo constante. As cobranças, normalmente feitas por Renê, canhoto, ou Acosta, destro, mostram um grande repertório, buscando a primeira, a segunda trave, o meio próximo à pequena área ou a marca do pênalti.
O usual é que essas batidas sejam primeiro desviadas, o que dificulta a marcação adversária pela sincronia dos movimentos dos atacantes, antes de serem finalizadas. Foi assim em alguns dos gols de escanteio na era Zubeldía: além de contra o Vasco, o padrão se repetiu em desvios na primeira trave frente ao Flamengo (gol de John Kennedy e vitória por 2 a 1) e contra o Nova Iguaçu (Serna, 3 a 2).
Esse padrão de um toque no alto antes do chute também veio na ida da semifinal da Copa do Brasil do ano passado. Em falta cobrada por Renê — que estava tão perto que poderia ter sido cobrada direta –, Thiago Silva desviou para trás e Serna marcou bonito.
Naquele dia, que acabou em derrota por 2 a 1, Zubeldía explicou o responsável por treinar esses lances: o auxiliar equatoriano Carlos Gruezo. “Ele que se encarrega da bola parada. Viu certos pontos que poderíamos machucar [o Vasco]. Os jogadores executam as coisas bem ou mal. São eles que têm a última palavra. Conseguimos converter”, disse à época o treinador.

O profissional de 50 anos já havia ganhado os créditos de Renê, que correu para abraçá-lo após marcar o gol da vitória do Fluminense sobre o Ceará no Brasileirão passado. Foi uma cobrança de falta direta do jogador vindo da lateral do campo, quase que um cruzamento, o primeiro gol de bola parada do Flu com Zubeldía. Nesse mesmo jogo, o time teve outro gol em jogada ensaiada após escanteio anulado.
— Acaba o treino e Gruezo fica comigo, com o Lucho e com alguns zagueiros fazendo jogadas ensaiadas. Temos trabalhado nisso. […] Ele está sempre trabalhando para ajudar e nada mais justo do que comemorar com ele. Temos bons cabeceadores, só precisamos acertar a batida e o tempo deles para fazer mais gols de bola parada, para que, em jogos difíceis como esse, a gente consiga vencer — disse o lateral-esquerdo após a partida.
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Como é o dia a dia de Gruezo treinando as bolas paradas do Flu
A Trivela apurou como funciona o trabalho praticamente diário sobre as bolas paradas. Após as atividades do dia a dia, os jogadores do Fluminense treinam a bola parada defensiva e ofensiva ao mesmo tempo.
A comissão dá um gás especial a esse trabalho nos dias que antecedem os jogos para trabalhar as fraquezas e pontos fortes do adversário na bola aérea. Toda a preparação fica com Gruezo, que também auxilia o entendimento das jogadas com vídeos na prévia das partidas e em preleções.
Além de Renê e Acosta, vários outros jogadores são preparados para as cobranças, como Ganso, Canobbio, Guga, Samuel Xavier e Arana.
Apesar de boa parte dos gols a partir de lances assim terem sido marcados em 2026, o entendimento é de que o setor já tinha melhorado assim que a nova comissão sucedeu a de Renato Gaúcho.
Essa atividade não conta apenas com lances de bola parada, também trabalhando ultrapassagens com tabelas antes de cruzamento no último terço do campo — outro recurso bem utilizado e que gera frutos no Fluminense.

Todos os gols de bola parada do Fluminense na era Zubeldía
- Fluminense 1 x 0 Ceará: cobrança de falta direta de Renê;
- Vasco 2 x 1 Fluminense: Renê cobra falta na segunda trave antes de Thiago Silva desviar para trás e Serna marcar;
- Nova Iguaçu 2 x 3 Fluminense: Renê cobra escanteio na primeira trave, Martinelli desvia e Serna marca no segundo pau;
- Nova Iguaçu 2 x 3 Fluminense: Ganso cobra falta direto no ângulo e, na sobra, Serna marcar;
- Fluminense 2 x 1 Flamengo: Lima cobra escanteio no meio da área, Bernal desvia, Emerson Royal corta mal e John Kennedy marca;
- Fluminense 2 x 1 Grêmio: Renê cobra escanteio à meia-altura rumo à entrada da área e Acosta de primeira faz golaço;
- Fluminense 3 x 1 Bangu: Escanteio é bloqueado pela defesa, mas Canobbio marca no rebote na entrada da área;
- Vasco 0 x 1 Fluminense: Renê cobra escanteio no meio da área, Bernal desvia para o lado de onde veio a cobrança e Serna completa.
A atenção que o Flamengo deve ter com a arma do rival
A bola parada é uma arma que nem sempre traduz o que está acontecendo no jogo. Uma equipe pode estar dominando a posse de bola, tendo as melhores chances e não dando espaço para o adversário, que, a partir de uma falta ou escanteio, pode abrir o placar e mudar os rumos do jogo.
O Flu já se aproveitou disso contra o Vasco, na ida do Carioca, quando não fazia boa atuação — nem o rival. Mas, no escanteio, encontrou o gol que, no fim, garantiu sua classificação para a decisão. O Arsenal, na Premier League, tendo um técnico específico só para bolas paradas, caminha para ser campeão inglês graças a essas jogadas.
O Tricolor também pode garantir uma taça assim — afinal, já conseguiu seis vitórias diretamente. Neste domingo, no Maracanã, terá o Flamengo, que já sofreu com os escanteios do lado verde, branco e grená. A decisão será a estreia de Leonardo Jardim, que, em poucos dias no cargo, precisará entender como defender a grande arma do Fluminense em 2026.



