A nova forma de encontrar talentos na base brasileira tem até notas ‘de videogame’
Plataforma ataca os principais problemas da base brasileira e cria demanda para clubes encontrarem novas joias
Informação é um dos bens mais valiosos no futebol moderno. Pode mudar o resultado de uma partida em termos de ajustes táticos ou conhecimento do adversário. E também é o que pode ajudar um clube a contratar o craque do futuro.
Mas uma das grandes dificuldades a nível mundial no mercado é justamente encontrar informações sobre jogadores de categorias de base. Jogos do Brasileirão, Libertadores ou Champions League têm grande apelo, mas a dificuldade de observar um estadual sub-15 fora do radar pode estar escondendo uma joia do futuro.
Há formas de “democratizar” o acesso à informação no futebol. A Footbao, por exemplo, permite que jovens subam seus vídeos em uma plataforma para serem vistos. O TransferRoom criou praticamente uma rede social para agentes, scouts e jogadores trocarem dados. Agora, a E-Scout promove uma nova visualização sobre o futebol de base brasileiro.
O que é e como funciona a E-Scout
Em entrevista exclusiva à Trivela, Marcos Paulo Silvino, gerente de análise tanto na E-Scout quanto na Outlier, empresa de consultoria tática individual para atletas e clubes, contou as motivações para o nascimento da plataforma.
Normalmente nos clubes, os departamentos de scout tinham que despender energia e tempo dos funcionários para irem fisicamente a diferentes campeonatos de base. Mais do que isso, existe o problema da dificuldade em termos de continuidade dos trabalhos — é muito comum que haja trocas dentro dos clubes. E com mudança de gestão e de profissionais, perde-se muita informação.
“São duas questões: uma dificuldade muito grande de ter informações sistematizados e organizados em um único local, porque demanda a estruturação primeiro de um processo metodológico; e também da estabilidade em termos de profissionais”, conta.

A E-Scout nasce como uma forma de cortar caminho para clubes e agilizar o processo de observação de novos talentos. Ser “irmã” da Outlier também ajuda em termos de metodologia, segundo Marcos Paulo.
O trabalho de um scout na beira do campo, por exemplo, é padrão: papel e caneta na mão, ou uma forma eletrônica como celular e tablet, para tomar nota de comportamentos importantes, dentro de algum leque de comportamentos a serem analisados. No final, ele tece uma avaliação sobre o jogador. O mesmo serve para a plataforma.
“A gente encurta o caminho do clube. Ao invés de olhar para onde ele ainda não viu nada, onde vai precisar assistir todos os jogos, ele vai ver aqueles dados da plataforma e falar: ‘Opa, esse jogador me chama a atenção, tem algumas características que podem ser importantes. Deixa eu aprofundar o olhar nesse cara’. Aí, em vez de ter que achar ele sozinho, já tem um direcionamento a partir das informações da E-Scout”.
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Como funciona a análise de jogadores
No caso da E-Scout, esse trabalho é feito por vídeo em uma equipe de 12 analistas. Nenhum deles vai a campo e economiza tempo, dinheiro e tem vantagens de replay para não perderem as principais informações. Esses profissionais fazem a mesma análise e também dão nota de um a cinco aos comportamentos analisados.
A análise dos atletas é dividida em três grandes pilares: ofensivo, defensivo e transversal. O último entra na leitura de jogo, aqueles comportamentos que são importantes em qualquer uma das fases. Esses pilares, no entanto, são subdivididos às minúcias.
O executivo revela à reportagem que os analistas são treinados e aprendem a avaliar dentro de 24 métricas, e cada uma delas recebe notas. A plataforma também facilita o trabalho do analista: além de ter todas as informações dos jogadores que estão naquela partida que eles têm que analisar, já constam as métricas separadas.

Entre as informações disponíveis na plataforma, estão, por exemplo:
- A minutagem do jogador em cada partida e quantas partidas fez;
- As informações básicas, como clubes onde jogou, data de nascimento;
- A avaliação dele em cada partida e o nível dele em cada um dos comportamentos.
A análise por trás das notas
Cada plataforma que se propõe a fazer um trabalho de avaliação, como SofaScore e FotMob, por exemplo, tem um método que vai determinar algumas variáveis e um peso para cada uma delas. Com a E-Scout não é diferente.
“O que a gente tenta fazer é deixar esse processo claro, então, quem contrata a plataforma tem acesso ao nosso glossário de métricas. ‘A gente avalia nota 1 por causa disso, 2 por causa disso’, etc. Então, a gente deixa claro”, explica Marcos Paulo.
O processo para chegar à nota de um jogador é complexo. Com calma, o executivo explica todos os passos à reportagem. Os analistas fazem a análise da partida e vão avaliar os jogadores de um a cinco independentemente do contexto que ele está inserido. O que influencia no “score” é:
Primeiro, posição dos jogadores. Uma finalização tem um peso maior para um atacante do que para um zagueiro. Então, isso tem um peso dentro da plataforma como uma ação mais importante para atacantes e menos para zagueiros, por exemplo. Se o peso for igual, fica desbalanceado.

O segundo ponto é um peso por idade. A empresa entende que no processo de desenvolvimento de um jogador de sub-15, alguns comportamentos ainda não estão no nível de maturação ideal, que ele ainda vai terminar esse processo lá no sub-20. No entanto, quando esse atleta chega ao sub-20, espera-se que ele tenha todos aqueles comportamentos em um nível de desenvolvimento maior.
“Isso impacta na avaliação do analista? Não, o analista avalia de acordo com o que ele está vendo. Isso impacta nos pesos que a gente atribui no final, depois que o analista joga a nota no sistema”, conta o gerente de análise da empresa.
O terceiro ponto que influencia a nota é um ranqueamento de clubes. Em uma partida do Campeonato Paulista Sub-17 entre Corinthians e Matonense, por exemplo, o investimento no Corinthians é notoriamente maior do que da Matonense. A plataforma conta com um ranking para dar peso aos feitos dos jogadores de clubes “menores”.
“A gente pegou o ranking de clubes da CBF e colocou todos na plataforma. Só que demos um peso a mais para os clubes formadores, porque também tem diferença. Com isso, separamos o ranking em cinco partes. Se um clube do nível 1 desse ranking ganha de um clube do nível 4, tudo bem, nada muda na nota de ninguém. É esperado. Agora, se a Matonense ganhar do Corinthians, isso tem um peso”, ilustra Marcos Paulo.
A quantificação do potencial de uma joia
As notas de cada jogo também são importantes para determinar o potencial de um jogador. Assim como em jogos como Football Manager e EA Sports FC, a E-Scout tem uma nota para o potencial de cada atleta. Segundo a empresa, isso depende da evolução deste jogador ao longo do tempo.

“Tem uma lógica de evolução e consistência, ou seja, o quanto que esse jogador é regular. Ora ele faz uma partida de nível 70, mas na próxima ele faz 40, na outra ele faz 80, depois ele faz 30. Esse jogador não é muito consistente. E aí tem a perspectiva da evolução, pegamos o retrospecto das últimas partidas e vemos como ele vem evoluindo em termos de nota”, explica.
Troca de informações e conexões na base brasileira
Hoje, o trabalho da E-Scout é puramente analisar jogadores e mostrá-los a clubes, empresários e scouts através da plataforma. Mas a ideia vai além: criar uma rede de conexões e troca de informações.
“A gente começou na última temporada, com cerca de 70 clubes formadores, a criar um ambiente em que eles consigam trocar informação dentro da plataforma. A ideia é criar um ecossistema de troca entre esses clubes, onde eles conseguem consumir uma informação de avaliação desses jogadores, mas também trocar a informação entre eles”, revela.
E mesmo com esse propósito, ter parcerias com clubes não necessariamente vai contra a ideia da empresa. Marcos revela à Trivela que clubes já os procuraram para preparar análises de jogadores específicos, e isso é possível dentro do modelo atual:
Faltando drible na base brasileira👀 https://t.co/swTuJIDxpC
— Olheiros👁️ (@olheiros) February 12, 2026
“A diferença é um serviço sob demanda. Quando contratam o trabalho da Outlier, por exemplo, é sob demanda. Você tem lá 50 jogos da sua categoria, a gente vai fazer o trabalho de análise desses jogos que você nos demanda. No trabalho da E-Scout, é o contrário: a gente cria a demanda para os clubes. A gente faz a busca ativa dos jogos, analisa aquele universo e provém aquela informação para os clubes conseguirem consumir”.
O futebol de base no Brasil ainda tem pontos nebulosos. É um país de tamanho continental e com muitos talentos “escondidos” — mas que, aos poucos, o mercado tem percebido que merecem ser vistos.



