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Torcida única não atrapalharia quem quer brigar, mas sim, gente como o Rodrigo e o Eduardo

O ar estava tenso, era quase sólido. Tenso porque, no dia em que um Palmeiras x Corinthians não tiver tensão, pode ter certeza que o futebol morreu. Mas tenso também por causa dos acontecimentos nos dias que antecederam o jogo. A disputa entre os clubes pela presença ou não de torcida visitante no primeiro Derby do Allianz Parque colocou a segurança da partida em questão. Por isso, não surpreendeu ninguém que, no final das contas, houve confusão antes do clássico. Ainda assim, ela só reforçou a pergunta: o futebol se livra de quem com torcida única?

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Difícil argumentar que a resposta seja “a violência nos estádios”. Os principais casos de briga neste domingo foram entre torcedores do mesmo clube ou entre torcedores e a PM. Segundo , alguns corintianos tentaram pular a barreira que os separava dos rivais quando se aproximavam do Parque Antártica. Mas os dois principais focos de confusão envolveram apenas uma torcida. Os palmeirenses entraram em confronto com a Polícia Militar na rua Turiassú. Enquanto isso, dentro do estádio, torcedores do Corinthians brigavam entre si.

Fora isso, a chegada das organizadas ao Allianz Parque foi tranquila, também de acordo com a PM. Ela foi preparada para o cruzamento da rua Teixeira e Souza com a Padre Antonio Tomás. Uma via normalmente pacata foi povoada por 28 policiais, em certo momento, para proteger 17 torcedores, além de cavalos e viaturas. Até às 15h15, eles esperavam o começo do jogo no lado de fora, quando foram obrigados a entrar.

As organizadas chegam ao Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)
As organizadas chegam ao Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Entraram porque, logo em seguida, a Gaviões da Fiel chegou com uma faixa lembrando o confronto entre palmeirenses e corintianos na avenida Inajar de Souza, em 2012, no qual aproximadamente 500 homens abraçaram a selvageria e dois deles perderam a vida. Muito longe do estádio. Como também estavam em outro lugar corintianos que invadiram um trem do metrô, na noite do último sábado, para bater em um são-paulino que estava se dirigindo ao Pacaembu. Nem havia jogo do Corinthians, apenas eleições.

Retomando a pergunta, qual dessas situações seria evitada se apenas palmeirenses pudessem comprar ingresso para o primeiro Derby do Allianz Parque? O clima para o jogo seria provavelmente mais tranquilo, com menos tensão para os torcedores e para os policiais. Por outro lado, a violência moveria-se para outro lugar, onde ela já acontece na maioria das vezes, e o Estado assinaria o seu atestado de incompetência. Sem contar um outro fator importante.

“Sou solteiro, tenho 33 anos, advogado, e tenho uma vida de dedicação ao Corinthians, desde moleque”, conta Rodrigo Jesus da Silva, dono de um dos 1,5 mil ingressos que o Palmeiras disponibilizou para a torcida visitante neste domingo. Quando era mais jovem, moleque, pensou em se inscrever na Gaviões da Fiel, mas nunca teve tempo. Ficou mais velho, passou a discordar de várias posições da organizada, e hoje nem cogita mais essa ideia.

“Por mais que a polícia e o Ministério Público tenham a maior parte da culpa por tudo que acontece, as torcidas também têm culpa. Não existe nenhum santo nessa história”, afirma. “E depois de uma certa idade você quer ver o jogo na sua, não quer ficar perto da muvuca. Eu vou, vejo meu jogo e torço. Não quero saber de confusão”. Advogado com a liberdade de montar os seus próprios horários, ele sempre tenta dar um jeito de acompanhar o Corinthians em viagens para jogos decisivos. Foi assim no Mundial de Clubes do Japão e na final da Copa Libertadores contra o Boca Juniors em Buenos Aires. “Acompanhar o Corinthians é um dos prazeres da vida. Se ganhar hoje (domingo), é para a história”, completa. Se houvesse torcida única, Rodrigo não teria visto a primeira vitória do seu time no novo estádio do maior rival. Nem teria a oportunidade de dar entrevista à reportagem da Trivela para contar sua parte nessa história pouco antes de entrar no Allianz Parque.

Nem Eduardo César. “Eu tenho 41 anos, sou caminhoneiro e, fora a estrada, o que eu gosto é ver o Corinthians no estádio”, afirma o torcedor corintiano mais assíduo de todos, de acordo com o ranking do Fiel-Torcedor. Ele descobriu que era o líder dessa contagem em 2009, na época da final da Copa do Brasil contra o Internacional. Desde então, sempre comprou os ingressos para assistir às partidas. Acompanhou Rodrigo ao Japão e à Argentina. Gosta tanto de ver os jogos que restringe a sua atuação profissional ao estado de São Paulo para não ficar longe do seu clube do coração durante muito tempo. Diferente do amigo, ele nunca teve interesse em aderir a uma organizada. “Eles têm a maneira deles de torcerem, todo um protocolo para seguir, e eu acho que cada um tem que torcer da sua maneira. Eu canto quando dá, nem tenho mais idade para pular e cantar os 90 minutos”, explica.

Eduardo e Rodrigo antes da partida no Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)
Eduardo e Rodrigo antes da partida no Allianz Parque (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Eduardo e Rodrigo não receberam nenhuma instrução quando compraram o ingresso e não têm o privilégio de serem escoltados pela polícia até a porta de entrada. Escondem as camisas do Corinthians dentro de uma pequena sacola, pesquisam os pontos de táxi da região e olham por cima dos ombros atentos às possíveis emboscadas. Nem conhecem os arredores do estádio direito. “É a primeira vez que eu venho em dia de jogo, então eu temo uma emboscada. Espero que a polícia tenha isolado tudo bonitinho”, afirma Rodrigo. “A gente sempre fica meio cabreiro”, acrescenta Eduardo, “mas eles fazem emboscadas mais para torcedores organizados. Já vi um metrô cheio de palmeirenses, e entrou um corintiano, e os caras não fizeram nada. O torcedor comum, de certa forma, ainda deixam passar. Óbvio que sempre tem um ou outro mais exaltado”.

Os dois andaram para o portão de visitantes ainda sem as camisas, vestidas apenas depois de passarem pela barreira policial com o ingresso em mãos. Não criaram nenhuma confusão até passar pelas catracas, como outras dezenas de corintianos que aguardaram a abertura dos portões no cruzamento da Teixeira e Souza com a Padre Antonio Tomás. A questão não está em qual torcida pode ou não entrar no estádio, mas nas pessoas, torcedores comuns ou organizados. Todos os clubes têm milhares de Rodrigos e Eduardos, que até se arriscam para ver seu time jogar na casa do rival pelo simples fato de amar futebol. Esses milhares de torcedores têm todo o direito de assistir ao seu time em qualquer estádio, e não serem obrigados pelas autoridades a ficarem presos em casa. Quem quer brigar é que deveria ser preso, e não na sua casa. Lembra os corintianos que brigaram com os são-paulinos no metrô no último sábado? Eles já foram soltos.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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