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Promessa cumprida: torcedor do Santos eterniza na pele os sonhos que não pôde realizar ao lado do falecido pai

Filho de José Waz da Costa, José Júnior encontrou uma maneira de realizar o sonho do pai de visitar a Vila Belmiro para assistir aos jogos do Santos

O sonho de todo pai é passar o amor pelo time do coração para os seus filhos. E isso o mestre de obras José Waz da Costa, conhecido entre amigos e familiares como Zé Barriga, fez com sucesso. Apaixonado pelo Santos, ele viu as filhas Andresa, de 48 anos, Fernanda, de 47, e o filho José Júnior, de 33, seguirem o seu amor pelo Alvinegro. Apesar de todo o sentimento pelo Peixe envolvido na família, problemas de saúde o impediram de realizar dois grandes sonhos na vida. Um deles diretamente ligado ao time do coração: assistir a um jogo do Santos na Vila Belmiro. O outro era fazer uma viagem de avião. Vítima de um infarto, Zé Barriga faleceu em novembro do ano passado, aos 68 anos, sem desfrutar dessas realizações e frustrando o filho caçula, que havia prometido tornar esses desejos realidade.

A frustração, porém, deve ser considerada apenas parcial. Na última sexta-feira (16), José Júnior, que é analista de TI, eternizou na pele, por meio de uma tatuagem, o momento que queria ter proporcionado ao pai: os dois chegando juntos à Vila Belmiro para assistir a uma partida do Santos, enquanto um avião sobrevoa a lendária casa alvinegra.

A promessa ficou completa neste domingo (18) com a primeira presença de José Júnior nas arquibancadas do estádio do Peixe para assistir ao duelo contra o Novorizontino, pela 9ª rodada do Campeonato Paulista.

– Meus pais se separaram quando eu tinha 10 anos. Até ali, a única vez que meu pai tinha me levado a um estádio havia sido na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1995 para assistir Santos e Fluminense, no Pacaembu. Eu tinha quase cinco anos. Não entendia muito de futebol e nem tinha um time. Mas depois daquele jogo tudo mudou. Quando eu vi a alegria e o choro de felicidade do meu pai com a classificação para a final, eu passei a torcer para o Santos também. Eu saí do estádio falando para todo mundo: ‘Eu sou santista' – conta Júnior com a recordação do pai orgulhoso por ter passado o amor pelo Peixe para o filho.

Amor pelo Santos manteve pai e filho unidos

Por conta da separação, Zé Barriga passou a morar distante dos filhos. Em cidade distinta. Os contatos, então, ficaram mais frequentes por telefone. Nas ligações, o amor pelo time da Vila Belmiro era sempre o primeiro assunto das conversas com o filho caçula.

Zé Barriga e José Junior apaixonados pelo Santos
O amor pelo Santos sempre manteve José Júnior e o pai próximos (Foto: Arquivo pessoal/José Júnior)

Conforme foi crescendo, Júnior passou a acompanhar o Santos de maneira mais intensa e próxima. Durante a campanha que resultou no Tri da Libertadores, em 2011, por exemplo, o analista de TI viajou o continente para incentivar Neymar, Ganso e Cia. Na volta, sempre cheio de histórias, detalhava tudo para o pai. Vieram, então, as duas promessas.

Problemas de saúde começam a virar obstáculos

A partir de 2014, no entanto, o mestre de obras começou a sofrer com problemas de saúde. Em uma única noite, Zé Barriga teve três AVCs. Ficou um período internado, mas se recuperou bem e a única sequela causada pelo derrame atingiu a sua fala. Um alívio. O problema é que o pior ainda estava por vir.

– O meu pai também tinha problemas de diabetes. E isso complicou muito a vida dele. Entre os anos de 2015 e 2018, ele precisou amputar as duas pernas. Em razão disso, passou a viver em uma cadeira de rodas. Lembro que depois de uma das amputações, com ele ainda sob efeitos de remédios, fui visitá-lo no hospital. Eu estava vestido com um casaco do Santos. Logo que entrei no quarto, perguntei se ele sabia com quem estava falando e ele respondeu que não lembrava o meu nome. Mas imediatamente colocou uma das mãos sobre o símbolo do Santos no meu agasalho e disse: “Eu amo isso daqui” – recorda Júnior.

Presente de Pepe e convite para conhecer Ricardo Oliveira

Zé Barriga tinha dois ídolos no futebol. Seo Pepe, o canhão da Vila, e Giovani, por tudo que fez naquele inesquecível Campeonato Brasileiro de 1995. Após a amputação de uma das pernas, Júnior conseguiu o autógrafo de Pepe em uma camisa do Santos para dar de presente ao pai. Na entrega, fez um vídeo que viralizou nas redes sociais e chegou até o eterno camisa 11 do Peixe.

Ocorre que os momentos de felicidade de Zé Barriga contrastavam com os de tristeza. Por ficar dependente dos familiares e amigos na cadeira de rodas, o mestre de obras entrou em depressão.

– Ele se sentia culpado por dar trabalho para as outras pessoas. Só aceitava sair de casa para ir ao médico. Essa tristeza, inclusive, o fez deixar de conhecer o ex-centrovante Ricardo Oliveira no CT Rei Pelé. Assim que recebemos o convite, tentamos de todas as formas convencê-lo a ir. Mas imaginar que precisaria de ajuda para praticamente tudo o desanimou. No fim das contas ele decretou que não iria mesmo – fala o filho.

Visita à Vila Belmiro e viagem de avião seguiam nos planos

Apesar de todos os problemas de saúde, o Santos seguia sendo o antídoto para as amarguras do mestre de obras, e o elo com Júnior. Em 2020, Zé Barriga vibrou com a campanha alvinegra na Libertadores. Mas, nervoso, optou por não assistir a final contra o Palmeiras, no Maracanã.

– Ele só soube do resultado depois da partida. Ele me ligou cerca de 20 minutos após o final do jogo para perguntar se tínhamos vencido. Quando eu atendi, já comecei a chorar. Ele entendeu e chorou também. Ficou arrasado. Assim como eu, queria muito que ele tivesse aquela alegria novamente – relembra Júnior.

Zé Barriga não acreditava no rebaixamento do Santos

Depois daquela decisão, a vida de torcedor do mestre de obras perdeu o brilho. Com seguidas campanhas ruins da equipe, ele, assim como toda a torcida santista, passou a torcer apenas contra o rebaixamento e vexames na maioria dos campeonatos. Ainda assim, o apaixonado torcedor seguia confiante de que a queda de divisão nunca seria uma verdadeira dor de cabeça.

– Lembro de conversarmos sobre o risco de rebaixamento no último Brasileirão e ele falar que o Santos não ia cair. Sempre dizia: ‘eu não vou ver o Santos ser rebaixado em vida'. Quis o destino que isso realmente se confirmasse – conta Júnior.

Em 10 de novembro, um dia após a vitória sobre o Goiás, em Goiânia, com gol de Furch, Zé Barriga, que estava com problemas no esôfago e dificuldades para se alimentar, teve um infarto em casa. Foi levado para o hospital e, depois de passar a noite internado, veio a falecer na manhã seguinte.

– Um dia após o enterro eu lembrei da frase sobre ele não ver o Santos ser rebaixado em vida. Imediatamente também lembrei das promessas que não pude cumprir e comecei a pensar na tatuagem – diz o analista de TI.

Tatuagem na panturrilha esquerda para o pai

Com a ideia na cabeça, Júnior foi ao estúdio de tatuagem e passou tudo aquilo tinha em mente e o significado que aquela arte teria ao tatuador.

– Diante de tudo que expliquei, o tatuador foi montou o desenho e me mandou a ideia pronta por WhatsApp. No instante em que bati o olho comecei a chorar. Tinha ficado muito melhor do que imaginava – comenta

– Na sexta-feira voltei ao estúdio e cumpri a promessa da maneira que foi possível. Queria muito ter feito algo legal em relação ao Santos com ele em vida, mas infelizmente não consegui. Ainda assim, a partir de agora sempre que eu pisar na Vila Belmiro o meu pai estará presente comigo – afirma o analista de TI.

A estreia de Zé Barriga na Vila não foi das melhores. O Santos perdeu para o Novorizontino por 2 a 1. Mas isso, neste momento, é mero detalhe. O que ficará guardado para sempre na memória de Júnior é a sensação de cumprir as promessas e de sentir, mais uma vez, o amado pai tão perto e feliz por estar no lugar que sempre desejou conhecer.

Foto de Bruno Lima

Bruno Lima

Bruno Lima nasceu em Santos (SP) e se formou em Jornalismo na Universidade Católica de Santos (UniSantos) em 2010. Antes de escrever para Trivela, passou por A Tribuna.
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