Libertadores

Melhor campanha, decisão sofrida, gol aos 98′: Palmeiras é campeão da Libertadores pela segunda vez

Com um gol aos 98 minutos, Breno Lopes entrou para a história do Palmeiras e da Libertadores ao marcar o gol de uma vitória sofrida

Uma obsessão. Foi assim que o Palmeiras tratou a Libertadores nos últimos anos. Com um time fortalecido depois de se recuperar financeiramente, ter a casa em ordem e conseguir um patrocínio muito acima da média do futebol brasileiro, o alviverde formou elencos tarimbados para conquistar o principal título do continente. Nem todo o talento em campo parecia capaz de quebrar essa trava que impedia a conquista do título que não vinha desde 1999. A torcida cantou e vibrou, mas faltava algo. Abel Ferreira chegou. O time, ainda cheio de bons jogadores, já não era tão estelar. Porém, o voltou a ter uma defesa que ninguém passa. Uma linha atacante de raça. E a torcida nunca deixou de cantar e vibrar, mesmo longe do estádio. Foi com Rony, tão questionado no início, decisivo, e com Breno Lopes, que veio da Série B, um cruzamento, uma cabeçada precisa, um gol aos 98 minutos: o Palmeiras é novamente o dono da América.

O time do Allianz Parque teve a melhor campanha na primeira fase com uma derrota em 13 jogos. Assim como em 1999, o Palmeiras teve uma decisão de Libertadores dramática. Desta vez, porém, não viveu a taquicardia de uma decisão nos pênaltis. Ainda assim, fez sua torcida perder o fôlego. Em uma final que parecia condenada à prorrogação, o alviverde arrancou um gol para lá do Deus me livre. Uma vitória por 1 a 0, o suficiente para tornar o Palmeiras pintar a América de verde e ter a sua segunda placa na taça da Libertadores. Um capítulo glorioso escrito na história.

Quem está sempre nas fases decisivas eventualmente chegará lá. O time passou a frequentar a Libertadores a partir de 2016, mas não conseguia ir além das fases decisivas do mata-mata. O Palmeiras, semifinalista em 2018, desta vez não deixou escapar a chance. Diante de um rival, na segunda final em jogo único da história da Libertadores, pela primeira vez no Brasil, foram os palmeirenses que comemoraram.

A torcida, que esperou tanto, explodiu em comemoração, em gritos presos na garganta, em desabafos, em emoção. Lágrimas em muitos rostos que não viveram aquele drama de 1999 no Parque Antarctica por serem ainda muito jovens ou mesmo nem terem nascido. Só conhecem Evair pelas histórias. Agora, tem um título para vibrar como seu. A América do Sul é verde. A obsessão está saciada. O clube é, enfim, mais uma vez campeão.

O jogo em si passou longe do que se esperava dos dois times em qualidade de futebol. O 0 a 0 parecia um resultado quase inescapável diante do que as duas equipes apresentaram. Lembrou a final da Champions League de 2003, entre Juventus e Milan, também dois rivais do mesmo país. Aquele jogo acabou em 0 a 0, com vitória do Milan nos pênaltis. Desta vez, a versão sul-americana teve um gol no final do tempo de acréscimos, que fez com que um dos lados pudesse, enfim, soltar o grito. Os alviverdes podem gritar com todo coração que o clube da Turiaçu está novamente no topo da América.

Uma final dos convidados

A primeira coisa que chamou a atenção na partida foi a presença de torcedores. Foram cerca de cinco mil pessoas presentes no Maracanã, entre convidados dos dois clubes e da própria Conmebol, fazendo aquele agrado aos patrocinadores. Em um estádio tão grande, seria fácil espalhar os torcedores pelo estádio sem muito riscos. Mas é claro que não foi o que aconteceu: concentraram tudo em um só setor, economizando custos ao não abrir mais setores, e concentrando muita gente próxima – alguns sem máscara, inclusive. Certamente a Conmebol dirá que “todos os protocolos foram seguidos”. Faltou precaução, sobraram máscaras no queixo e um risco que não precisaria.

O primeiro mistério foi resolvido antes do jogo: a escalação dos dois times. O Palmeiras entrou em campo com Marcos Rocha na lateral direita, com Gabriel Menino jogando no meio-campo, ao lado de Danilo e Zé Rafael. Raphael Veiga completou o setor, sendo o jogador mais avançado. Rony e Luiz Adriano formaram o ataque. Portanto, Patrick de Paula, Gustavo Scarpa e Willian, todos cotados para jogar, ficaram no banco. Felipe Melo também ficou no banco, depois de ter se recuperado e entrado em campo nas duas últimas partidas.

O Santos entrou em campo com um meio-campo mais marcador. Lucas Braga, que vem sendo um destaque da equipe, ficou no banco. Alisson, capitão do time, está recuperado e volta ao time titular. Ao seu lado, Diego Pituca e o garoto Sandry. Com isso, liberou mais os três jogadores de frente, Marinho pela direita, Yeferson Soteldo pela esquerda e Kaio Jorge no ataque.

Primeiro tempo de poucas chances

Os primeiros 20 minutos da partida foram de pouca coisa a se destacar. Os dois times sem arriscar muito, sem dar espaço ao adversário também, e nenhuma chance criada. O Santos até tinha mais posse de bola, mas sem que isso implicasse em algo além de uma vantagem na estatística. Alguns escanteios forma os lances onde a bola mais se aproximou das duas metas, mas sem muito perigo de lado a lado.

O Palmeiras teve a sua melhor chance no primeiro tempo aos 36 minutos, depois de uma troca de passes que terminou em Raphael Veiga, dentro da área, chutando de pé direito, cruzado e para fora. Veiga é canhoto, não pegou bem com o pé invertido.

O calor fazia com que o jogo não tivesse um ritmo forte à medida que se aproximava o fim do primeiro tempo. Não foi feita a parada técnica pelo calor. Segundo a informação da Conmebol, o jogo só seria parado se a temperatura de campo chegasse a 32 graus, o que, aparentemente, não aconteceu, embora o relato dos presentes no Maracanã fosse de muito calor.

Aos 43 minutos, o Rony fez uma linda jogada pela direita, com um chapéu sobre o lateral Felipe Jonatan e tocou para Luiz Adriano, mas o passe foi muito longe e o centroavante não conseguiu chegar. Os dois times foram para o intervalo sem causar grandes emoções aos seus torcedores (além da tensão de uma final, claro).

Segundo tempo arrastado

O segundo tempo começou um pouco mais movimentado, com os dois times tentando impor um pouco de velocidade. Alguns cruzamentos foram perigosos dos dois lados, especialmente em bolas paradas. Marinho chegou a cruzar uma bola perigosa para Lucas Veríssimo, que cabeceou para fora. Foi marcado impedimento do zagueiro. Depois, uma falta de Raphael Veiga levou algum perigo, mas o goleiro John estava na bola e viu que ia para fora, deixando sair. Ainda assim, ela caiu na parte de cima da rede, balançando e enganado alguns torcedores.

O Santos foi o primeiro que mudou. Aos 28 minutos, Lucas Braga entrou no lugar de Sandry. Com isso, Cuca tentou colocar o time com mais criatividade no setor ofensivo. Cinco minutos depois, foi a vez do Palmeiras mudar: Patrick de Paula entrou em campo no lugar de Zé Rafael.

Pouco acontecia no jogo. O técnico Abel Ferreira tentou colocar o time um pouco mais no ataque ao tirar o meio-campista Gabriel Menino e colocar Breno Lopes, que começou a temporada no Juventude, onde era o artilheiro. Entre todas as mudanças, esta, talvez, tenha gerado menos expectativa. Acabou por ser a mais importante.

Como faltou futebol, sobrou uma confusão no final. Marcos Rocha foi bater um lateral perto do técnico Cuca, foi seguro pelo treinador e veio um empurra-empurra. Muita discussão, ameaça, gritaria, e sobraram dois cartões amarelos: um para Soteldo, outro para o próprio Marcos Rocha. O técnico Cuca foi expulso e pulou o muro para ir para a arquibancada, ao lado de torcedores. O relógio já marcava 97 minutos e a prorrogação se aproximava.

Um gol para a glória eterna

No lance seguinte à confusão e expulsão, o jogo se resolveu, aos 98 minutos. Cruzamento de Rony para a área e Breno Lopes subiu de cabeça e tocou com precisão, no canto oposto, tirando completamente do alcance do goleiro John: 1 a 0 para o Palmeiras. O atacante saiu alucinado para comemorar, tirou a camisa e foi em direção aos poucos torcedores presentes. O técnico Abel Ferreira foi comemorar com o autor do cruzamento, Rony.

Breno Lopes, do Palmeiras, comemora o gol do título da Libertadores (Ricardo Moraes – Pool/Getty Images/OneFootball)

O Santos fez a sua última modificação, com 100 minutos no relógio. Sacou Pará para a entrada do atacante Bruno Henrique, muito alto e para apostar na bola aérea. Abel Ferreira também aproveitou para fazer duas mudanças: tirou Rony e colocou quem era capitão do time, Felipe Melo, e também sacou Raphael Veiga e colocou o zagueiro Alan Empereur. Não houve tempo para mais nada.

O Palmeiras ouviu o apito final e se derramou em lágrimas, em sorrisos, em vibração, espalhadas pelo Maracanã, pelo Rio, por São Paulo e por todos os lugares do mundo onde há um palmeirense. Quase uma libertação depois de tanta expectativa frustrada por ter times tão fortes sem conseguir percorrer todo o caminho para levantar a taça.

Rony, o craque do time na Libertadores, foi decisivo também na final. Uma decisão com um herói improvável, que quase ninguém apostaria como aquele que faria o gol do título. Breno Lopes certamente vibrou na sexta-feira com o acesso do Juventude, clube que deixou no meio da temporada para defender o Palmeiras. Três meses e 25 jogos depois, ele escreveu um dos mais importantes capítulos da história de um gigante como o Palmeiras. O time com mais títulos nacionais, o maior campeão do Brasil, agora é campeão da América pela segunda vez.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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