Fim do torcedor raiz? Como redes sociais popularizaram novo perfil do fanático por futebol
Com a vida pautada cada vez mais em telas, a pergunta que fica é: o torcedor raiz de futebol vai acabar?
Ao longo de quase dois séculos, o futebol passou por diversas mudanças, sejam elas estruturais, táticas, financeiras. E quem também mudou foi o elo mais importante que popularizou o esporte como fenômeno global: o torcedor.
Existem várias maneiras de apoiar um clube, desde aqueles que têm uma relação mais distante e tranquila, até os fanáticos, que sempre querem estar por perto e vivem freneticamente essa paixão. Contudo, com as redes sociais, já não é mais preciso estar presente fisicamente para acompanhar seu time do coração.
O tradicional “torcedor raiz”, que está nas arquibancadas frequentemente e viaja para acompanhar sua equipe longe de casa, agora precisa lidar com o novo fanático: quem não perde uma partida sequer do sofá, engaja em todos os perfis online do clube e consome conteúdo especializado.
Com a vida pautada cada vez mais em telas, a pergunta que fica é: o torcedor raiz de futebol vai acabar? Para responder essa e outras perguntas, a Trivela conversou com Rafael Alberico, professor na Fecap e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM.
Como chegamos até aqui?
Antes de mais nada, vale explicar como as torcidas passaram por mudanças ao longo do tempo à maneira que a sociedade evoluiu. Muito antes dos celulares, aqueles que quisessem acompanhar uma partida de futebol fora do estádio o faziam pelo rádio ou pela televisão, cujas emissoras ditavam quais clubes seriam transmitidos.
O consumo de nicho também deu origem aos canais com programação esportiva em TVs por assinatura, além dos populares pay-per-view, que exigem pagamento para assistir a determinados jogos. Entretanto, a internet trouxe um panorama que mudou por completo o mercado de consumo de futebol.

A globalização ficou ainda mais forte, as plataformas de streaming e redes sociais entraram na rotina da sociedade, democratizando o acesso às informações. Alberico explica que o cenário atual é de um “futebol plataformizado”, com aplicativos pegando onda no dinheiro gerado pela indústria do esporte.
— Eu tenho acesso da minha casa a qualquer coisa, de qualquer lugar. […] O nosso dia-a-dia plataformizado faz com que a gente fique cada vez mais dentro das redes sociais, (que) são espaços para consumo de conteúdo. Se ela percebe que eu gosto de um determinado conteúdo, o algoritmo começa a me mandar mais — disse o pesquisador.
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A elitização do futebol no Brasil
Em meio a esse cenário de revolução online, o mundo presencial do futebol também se alterou. Com a Copa do Mundo no Brasil em 2014, os principais estádios passaram por reformas modernizantes e viraram arenas. Ao mesmo tempo, os valores dos ingressos ficaram mais caros.
O processo de elitização do esporte no país afetou diretamente o perfil de quem frequenta o estádio. Um levantamento feito pelo “Gato Mestre” em 2025 revela que, comparado à inflação, o preço médios dos ingressos no Brasileirão está maior para 12 dos 19 times que estão na primeira divisão há mais de um ano (63,16%).

— O futebol é para poucos hoje em dia no Brasil. O processo da arenização transforma em uma coisa ainda mais impactante e excludente, porque faz com que o produto seja cada vez mais europeu, americano — pontua Rafael Alberico.
Com as classes mais baixas longe das arquibancadas, a atmosfera das arenas muda. Corintiano, o professor da Fecap conta seu relato pessoal como frequentador assíduo da Neo Química Arena, cujos setores mais caros têm um estilo de torcer completamente diferente das torcidas organizadas.
— Você vai num jogo lá na numerada, na cadeira, é uma experiência. Você vai na Norte com a torcida organizada, é outra. Existe um código que lá na Norte você não pode pegar seu celular durante o jogo. Enquanto na Oeste, é o tempo inteiro a galera fazendo selfie, produzindo conteúdo para colocar nas redes sociais e mal veem o jogo.
A taxonomia dos torcedores e a inclusão do fanático digital
O sociólogo Richard Giulianotti publicou, em 2012, o artigo “Fanáticos, Seguidores, Fãs e Flaneurs: Uma Taxonomia de Identidades do Torcedor no Futebol”, onde dividiu os torcedores de futebol contemporâneos em quatro categorias, levando em consideração as transformações históricas e diferenças culturais vividas por comunidades específicas em suas relações com os clubes que se identificam.
- Fanáticos (tradicional/quente): Solidariedade densa, espaços topofílicos, identidade fundamentada, relações subculturais;
- Seguidores (tradicional/frio): Identidades aninhadas, relações de trocas simbólicas, solidariedade densa/fina, espaços instrumentais;
- Fãs (consumidor/quente): Distâncias mediadas pelo produto, solidariedade densa/fina, relações não-recíprocas, identidade mercadológica;
- Flaneurs (consumidor/frio): Relações virtuais, identidade cosmopolita, espaços de simulação, não-lugar, solidariedade fina
Ainda segundo Giulianotti, a diferença entre o tradicional e o consumidor mede a “base de investimento do indivíduo em cada clube particular”. Os torcedores tradicionais têm uma “identificação mais longa com o clube, ligada à cultura popular”; enquanto os torcedores consumidores têm uma “relação mais mercadológica, refletida na centralidade do consumo de produtos do clube”.
Já a separação entre quente/frio tem a ver com os “diferentes graus da centralidade do clube para o projeto de autoformação do indivíduo”. O torcedor quente tem “tipos intensos de identificação e solidariedade com o clube”, enquanto o frio denota “o contrário”.

— O que é um torcedor fanático? É o cara que vai para a arquibancada, que vai em todos os jogos, que viaja com o clube, que vive o clube no seu dia a dia. Ele é um fanático? É — declarou Alberico, que comparou o perfil mais “raiz” ao torcedor engajado digitalmente.
— O cara que não vai ao estádio, mas assiste todos os jogos da TV, nos streamings, é um sócio-torcedor, contribui com o time, consome tudo em todos os sites de conteúdos esportivos, no YouTube, nas redes sociais. Esse cara também é um fanático — defende o pesquisador.
— O perfil do torcedor mudou. O torcedor digital também é um fanático.
A existência do fanático digital não apaga o torcedor raiz, mas altera clima do estádio
Em um contexto que é mais acessível (e barato) ser um fanático digital do que um torcedor raiz, a cultura das torcidas está mudando. E quando os dois perfis se encontram dentro dos estádios, a mutação é praticamente palpável pelo clima das arquibancadas.

— É possível que o estádio fique cada vez menos sensível emocionalmente. Quem já foi num estádio lotado com a torcida inteira cantando, que para mim é parte preponderante do espetáculo, talvez não viva isso nunca mais. As organizadas ainda seguram isso sozinhas. O resto do estádio é muito diferente — começou Rafael Alberico.
— O meu medo é de que nossa cultura esportiva e principalmente futebolística no Brasil, não vou dizer que vai acabar, acho que não vai, mas que mude cada vez mais perca em essência e identidade — concluiu o professor da Fecap.



