Tim Vickery: No debate entre futebol brasileiro e europeu, é um perigo errar o diagnóstico
O debate sobre a saída precoce de jovens talentos esbarra em uma cegueira deliberada sobre a qualidade do jogo praticado no Velho Continente.
É um grande prazer fazer o programa “Futebol em Contexto” a cada duas semanas, onde eu sempre saio do papo com Allan Simon um pouco menos burro que quando entrei. As nossas conversas vêm gerando alguns debates bem interessantes na internet — um deles no mês passado sobre o declínio do bem e velho futebol de rua no Brasil e as suas consequências.
Foram colocadas várias opiniões e pontos de vista fascinantes — além de excesso de xingamentos sem argumentos que não levam a lugar nenhum, que é sempre decepcionante. Então uma cidadã entrou na conversa com “quer argumento?” Sim, queremos!
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O diagnóstico correto, a conclusão errada
“Jogador brasileiro,” ela continuou, “com DNA brasileiro sai para Europa muito cedo com 18 anos.” Até agora, estamos de acordo. A saída precoce dos talentos brasileiros realmente se trata de um problema. Funciona para alguns, mas é nocivo para muitos.
Se tiver vantagens para o jogador do futebol, para o ser humano tem muitos riscos, de isolamento num lugar estranho numa idade em que a pessoa ainda está em formação.
Mas fica bem difícil concordar com a sequência de raciocínio de nossa amiga. Segundo ela, os jovens “se adaptam ao futebol pobre, super tático e robótico de lá, perdendo a essência do jogo brasileiro que eles jogavam na adolescência aqui”. É simples entender isso.”
O que fica muito simples de entender é que essa visão não passa de uma negação de realidade.
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Champions League alucinante: Onde a robótica encontra a arte
A mensagem foi enviada no dia depois do jogo épico entre Bayern de Munique e Real Madrid, a partida de volta nas quarta de finais da Champions League, onde os alemães ganharam um jogo cintilante por 4 a 3.
Tal negação ficou até mais explícita na semana passada. Com todas as pressões de um semifinal, Paris Saint Germain e Bayern produziram um espetáculo com emoção e qualidade quase incríveis, com os franceses levando um 5 a 4 para “defender” (ou seja, atacar mais ainda) na Alemanha nesta quarta-feira.
De “robótico” esse jogo não teve nada. E ‘pobre’…? Era só esperar, no mesmo dia, o maior jogo até agora na Libertadores, entre Cruzeiro e Boca Juniors. Dois gigantes, se enfrentando na fase de grupos, teoricamente com menos pressão e mais liberdade, produzindo um jogo com muita luta e pouco futebol.
Como explicar o abismo entre os dois jogos?
Pareciam esportes diferentes em planetas diferentes, e não somente manifestações do mesmo esporte nos lados opostos do Atlântico.
Uma explicação óbvia é a acumulação de grande talento nos clubes da elite europeia. Mas vale a pena frisar que, em linha gerais, a Europa está ficando cada dia menos relevante no cenário global. Como, então, o continente conseguiu driblar essa tendência no futebol, onde virou mais dominante que nunca nos últimos 30 anos?
Futebol brasileiro x europeu traz diferença impactante
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Tem a ver com um outro tema que a gente abordou no “Futebol em Contexto” — a valorização do espetáculo.
Não adianta ter qualidade sem as condições de se expressar. Precisa também de gramados bons e esquemas táticos audaciosos. O objetivo é justamente fornecer um espetáculo capaz de cativar o neutro, nos quatro cantos do mundo.
Por aqui, entretanto, o jogo ainda é direcionado ao fanático, o desequilibrado, o torcedor que quer ganhar de qualquer maneira.
Falar, então, de “essência brasileira” e do “futebol pobre e robótico” da Europa me parece uma tentativa de se esconder por trás de estereótipos nacionalistas ultrapassados que não somente são incapazes de explicar a situação atual, mas servem como uma maneira de negar a própria realidade. E enquanto não encararmos a realidade, ficamos sem qualquer possibilidade de mudá-la.
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