Técnico de clube? O que explica o ano ‘médico e monstro’ de Dorival Júnior
A competência do Dorival com clubes brasileiros não está sujeita a qualquer dúvida. Como, então, esse mesmo técnico foi tão mal com a Seleção?
Desde que a bola é redonda, existe uma frase — “jogador de clube” — que argumenta que um determinado atleta, apesar de suas virtudes, não tem qualidade suficiente para a seleção, onde (outra grande expressão brasileira) “a camisa pesa”.
Acredito que, depois de 2025, a gente tem que aplicar esse conceito aos técnicos também. Sem isso, como explicar o ano do Dorival Júnior?
Verdade: era só o Gabigol acertar o seu pênalti na semi e esse debate perderia muita força. O Corinthians não chegaria à final da Copa do Brasil. Mas qualquer triunfo numa disputa de tiro curto tem um toque aleatório. E ninguém ganha tantas vezes por acaso. A competência do Dorival com clubes brasileiros não está sujeita a qualquer dúvida.
Como, então, esse mesmo técnico foi tão desastrosamente mal com a Seleção?
Antes de mais nada, tem umas moscas que a gente precisa espantar.
"A choramingação é inacreditável!" Na opinião de @Tim_Vickery, Dorival Jr. e outros técnicos brasileiros não devem se sentir injustiçados por estarem perdendo algum espaço para estrangeiros no futebol brasileiro. Concorda com ele?
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— Trivela (@trivela) December 17, 2025
O que levou Dorival ao fracasso na Seleção
Primeiro, o trabalho dele na seleção não foi terminado antes da hora. A maneira que foi a derrota para a Argentina — com um desempenho pior do que o de 7 a 1 — não deixou qualquer alternativa. Dorival tentou argumentar que daria certo, que sempre melhorou os seus times. Com a seleção, não rolou. Desfrutou de um luxo para um técnico de seleção — várias semanas para treinar durante a Copa América de 24. Não foi possível enxergar uma evolução.
Houve um momento em que, para este que vos escreve, a saída dele ficou iminente. Poucos dias antes do fiasco contra a Argentina, a seleção conseguiu uma vitória sobre a Colômbia por 2 a 1 — resultado mentiroso, em que o adversário foi melhor, mas caiu diante de um momento de genialidade de Vinicius Junior no último suspiro.
Logo depois do apito final, Bruno Guimarães deu uma entrevista frisando que Dorival ainda precisava trabalhar mais a saída de bola. Se, naquela altura, um aspecto tão fundamental do time ainda não estava bem definido, ficou evidente que o trabalho não estava rolando.
A segunda mosca é a crença de que existe um tipo de campanha contra os coitados técnicos brasileiros, puramente por serem brasileiros. Parece pena de si de pessoas que não perceberam que a indústria é global; logo, a concorrência ali dentro também vai ser globalizada.
Como os técnicos gostam de argumentar, o campo fala. Não dá para negar as melhorias no futebol brasileiro desde a chegada de Jorge Jesus em 2019, armando um time de uma maneira impensável na época para a grande maioria dos locais. O futebol de clubes por aqui ganhou muito com o trabalho principalmente dos portugueses, mas também de alguns argentinos. Impressiona como os times hoje em dia estão mais compactos em comparação com alguns anos atrás.
Dorival foi muito criticado na sua passagem infeliz pela Seleção — inevitavelmente, pois o emprego vem junto com o ônus e o bônus. Algumas críticas, com certeza, foram cruéis e pouco inteligentes. Mas não dá para declarar, de maneira universal, que ele sofreu desrespeito por ser um técnico brasileiro.

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Volta por cima no Corinthians
Logo depois da Seleção, ele foi acolhido pelo Corinthians — talvez “desrespeito” tenha significados extras que não estou sabendo, porque ganhar um emprego desses — mesmo com os desafios atuais do Timão — parece muito mais “prestígio” do que “desrespeito”.
Voltamos, então, à questão original: como pode ser que a competência em uma esfera não tenha sido mostrada em outra? Por que ficou marcado como “técnico de clube”?
Lembro da experiência de trabalhar alguns dias junto com Gary Lineker, em 1997. Naquela época, o artilheiro da Copa de 86 era recém-aposentado, e as suas lembranças de jogador ainda eram muito frescas. Ele reclamou de um técnico. No intervalo de um jogo, o comandante cobrou mais coletividade, dizendo: “Pessoal, não estamos cantando a mesma letra”.
Para o Lineker de então, essa expressão foi a prova definitiva de que o treinador não passava de um idiota. Só que, na verdade, esse técnico havia emprestado a expressão de outro — por quem Lineker nutria idolatria. Ou seja, no fundo, a rejeição de Lineker não tinha a ver com a mensagem. Ele já não gostava do mensageiro. Ia achar absurda qualquer coisa que saísse da boca de um técnico incapaz de conquistar sua aprovação.
Será que isso tem a ver com a situação do Dorival na seleção brasileira? Desde o início, havia boatos saindo de dentro, suspiros de que os jogadores não estavam convencidos pelo novo comandante, de que um grupo acostumado à elite do futebol europeu estava sentindo a diferença. Parece uma teoria interessante, porque, sem confiança no mensageiro, a mensagem dificilmente vai ser assimilada.
Podemos concluir, então, com uma sugestão: entre um técnico que conhece apenas o futebol brasileiro e um elenco da elite, existe um abismo de experiências e conceitos que dificultou uma relação bem-sucedida. Será que isso ajuda a explicar o ano “médico e monstro” do Dorival Júnior?



