A tática de Ancelotti para gerar lealdade dentro da seleção brasileira no pré-Copa
Técnico italiano definiu nomes para os amistosos da Seleção contra Senegal e Tunísia em novembro
Curto, com uma certa dose de desconforto, a tentativa de Carlo Ancelotti falar português nas convocações da seleção brasileira. Já que também me dei a tarefa de comunicar nessa língua tão bonita, dói às vezes quando vejo Ancelotti em dificuldades. Será, fico pensando, que eu passo a mesma sensação de um homem lutando com e contra o idioma de vocês?
A gente já sabia que ele tem um dom para línguas, mas também fica evidente que a idade não facilita esse novo empreendimento. Mesmo assim, vale o esforço. Tem técnicos argentinos aqui há um tempão que não saem do castelhano. Mas o Ancelotti, desde o primeiro dia, demonstrou uma vontade de aprender. Ele falando português é um grande exercício de relações públicas — e boa política também.
A missão de um técnico da seleção no dia de convocação é falar o mínimo possível.
O lema é ‘boca fechada não entra mosca.’ E Ancelotti, sempre politicamente hábil, usa a língua portuguesa como um escudo. Ajuda ele a dar respostas curtas e grossas — sem nenhuma grosseria. Chega no final da frase, sem informar grande coisa, e já vai para a próxima pergunta. E depois ficamos analisando para ver se conseguimos aprender alguma coisa.

O técnico fala mais com as suas opções que com as suas palavras para a imprensa. Em que ficamos mais sábios depois da coletiva de segunda-feira?
O caso de Fabrício Bruno é fascinante. Trata-se de um bom zagueiro, rápido e viril, bastante elogiado por Luis Suárez durante o seu ano no Grêmio. Um mês atrás, Filipe Luis argumentou que vale a pena lançar Pedro contra a força física e linha alta da zaga cruzeirense. Mas o zagueiro não é tão confortável com a bola nos pés — o motivo para o erro tão fatal contra o Japão.
E um zagueiro da seleção brasileira tem que ser confortável com a bola nos pés — faz parte do modelo do jogo. Pouco provável, então, que Fabrício Bruno vá para a Copa. Mas jogar ele fora agora ia passar uma mensagem para todos os atletas.
Como sempre, pensando como o jogador que foi, Ancelotti está mostrando um pouco de apoio num momento de necessidade. Está falando o seguinte — não é um erro que vai te tirar da Seleção. Não vou ser tão cruel assim, mas vou tomar decisões finais baseado em características. Não é à toa que ele gera tanta lealdade dentro do vestiário.
Elogiou Douglas Santos, mas não o convocou agora (está lesionado). Interpretação? Não ficou nada feliz com o lado esquerdo da defesa contra o Japão. Nem Carlos Augusto, nem Lucas Beraldo apareceram nesta lista.
Quer olhar outras alternativas, como Luciano Juba – e também parece que estão aumentando as chances de Danilo ir para a Copa do Mundo 2026 como reserva, justamente para a sua capacidade (bem italiano, por sinal) de operar em qualquer posição na linha de quatro, inclusive a lateral esquerda.
A derrota para o Japão no mês passado talvez esteja tapando um pouco a excelência do jogo contra Coreia do Sul, no qual a ideia do time ficou clara e o compromisso de todos em equilibrar uma formação muito ofensiva foi bastante evidente. Daí a confiança do técnico em falar que tem 17 ou 18 nomes certos para o ano que vem.
Mas a seleção deixou a Ásia com uma pergunta gritante.
Quem seria o substituto de Casemiro? Não é uma dúvida qualquer. O volante do Manchester United recebeu dois amarelos e ficou fora do jogo fatal contra a Bélgica na Copa de 2018. Oito anos mais tarde, as pernas estão oito anos mais velhas, isso é um real perigo — claramente identificado como tal pela comissão técnica.
E agora a gente sabe quem está se candidatando para virar o substituto do homem que equilibra o time e sirva com uma extensão de Ancelotti no campo. O substituto de Casemiro se chama Fabinho, com 32 anos e jogando na Arábia Saudita desde 2023. Desespero ou inspiração? O campo fala, e depois, lutando bravamente com a língua portuguesa, Ancelotti explica.




