Brasil

Resposta da CBF a denúncias do Estadão, em vez de esclarecer, aumenta as suspeitas

O sábado teve uma matéria bombástica para o futebol brasileiro. O repórter Jamil Chade assina o texto no Estadão falando sobre o contrato da CBF com a ISE, empresa que gere e tem os direitos dos jogos da seleção brasileira. A reportagem, que traz o título “Documentos mostram como a CBF ‘vendeu’ a seleção brasileira”, mostra uma relação bastante questionável entre a entidade que comanda o futebol brasileiro e uma empresa suspeita, com contas em paraísos fiscais. No país que discute a terceirização no coração das empresas, não surpreende que a CBF tenha terceirizado a sua atividade-fim: a seleção brasileira. Neste domingo, a CBF respondeu com rispidez às acusações. Mas as respostas, ao invés de esclarecer, só pareceram tornar tudo mais suspeito.

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A reportagem mostra condições sobre a gestão dos jogos no Brasil, totalmente nas mãos destas empresas, e as exigências que o Brasil jogue sempre com um time principal. O contrato com a ISE foi assinado em 2006 pelo então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e renovado em 2011 pelo mesmo dirigente. O contrato deixa praticamente tudo nas mãos da empresa e levanta muitas questões sobre eventuais influências em relação à convocação de jogadores – ou, ao menos, que o técnico não tem liberdade para levar times testando mais jogadores, jovens, ou mesmo usar uma seleção olímpica, se assim quisesse e como já aconteceu em outras vezes. Evidentemente o contrato não é explícito ao falar sobre essas questões, mas deixam muitas suspeitas que são válidas e foram levantadas pela reportagem do jornal.

O texto da resposta da CBF, repleto de adjetivos, é numerado em 16 pontos. Sem nenhum problema com a quantidade. A questão é mesmo que os pontos parecem não dizer nada, mesmo tendo muitas palavras. A nota diz que o Estadão “levanta infundadas suspeitas de irregularidades no tocando do contrato que a CBF celebrou com a empresa ISE”. A nota diz “repudiar com veemência as acusações”, mas já começa tentando argumentar apenas com adjetivos. O primeiro dos 16 pontos já deixa claro o tom que é pouco explicativo, mas muito reativo.

1 – Ao contrário do que diz a reportagem do Estado de S. Paulo de hoje, (17/05/2015), a CBF não “vendeu” a Seleção Brasileira, hipótese ridícula, manchete que não se  sustenta em nenhuma evidência e somente se explica pela necessidade do jornalista Jamil Chade de buscar a notícia fácil, que gera escândalos.

É evidente que o que a reportagem diz não é que a CBF vendeu, literalmente, a seleção brasileira. É uma metáfora que as pessoas da CBF certamente entenderam, mas usam cinicamente de uma questão linguística para desviar o que realmente importa do que é dito. A matéria usa “vendeu” no título exatamente assim, entre aspas, porque não é uma venda propriamente dita.

A questão é a CBF deixar nas mãos de uma outra empresa decisões cruciais, como com quem serão os amistosos, onde e quando. Não é algo inédito, já que a Espanha e a Argentina fazem algo parecido. A questão é que outros fazerem não torna isso certo. Muito pelo contrário, aliás. Sabemos quem está na Federação Espanhola, Ángel Villar, que não só não ajuda o futebol do seu país, como ainda atrapalha. Ou mesmo a AFA, a Associação de Futebol Argentino, que, bom, desde Grandona já faz das suas, nada muito diferente do que vemos na CBF.

A CBF tratou de falar sobre a cláusula que obriga a seleção a jogar com seu time principal. Os exemplos são curiosos, para dizer o mínimo. E embora separados em dois pontos, estes dois tratam da mesma coisa – aliás, os seguintes também, o que torna a numeração um pouco (muito) confusa.

9 – A leitura de Jamil Chade sobre as cláusulas contratuais foi, como sempre, feita de maneira mal intencionada. No ramo do futebol se um time não se apresenta com a equipe principal o valor do amistoso pode ser reduzido. Se o Barcelona for jogar com o seu time B, sem contar com suas grandes estrelas, como por exemplo Neymar,  Messi e Suarez, suas cotas comerciais serão menores. Se uma banda de rock não se apresentar com o seu vocalista, o valor será renegociado.

 

10 – É natural e compreensível que o contrato de um jogo de futebol de uma grande equipe seja definido com base na presença de seus grandes astros. Caso a Seleção Brasileira viesse a ser representada por jogadores de sua equipe sub-20 ou sub-23, os valores decorrentes poderiam ser inferiores. Importante dizer que esta cláusula tão alardeada jamais foi invocada ou levada a efeito desde o início de vigência do acordo.

O mais interessante é que a entidade admitiu, neste ponto, que há uma cláusula que obriga o time a jogar com as suas estrelas. E diz que a cláusula nunca foi acionada. Evidentemente, isso levanta mais perguntas do que respostas. Afinal, os dirigentes podem cuidar para que isso nunca aconteça orientando os treinadores a convocarem estrelas. Sabemos, por exemplo, que Dunga teve que engolir Ronaldinho Gaúcho na Olimpíada de 2008 porque Ricardo Teixeira pressionou para isso. E são episódios como esse que fazem com que a resposta da CBF seja menos esclarecedora e mais suspeita.

A CBF precisava dar uma resposta por ter se sentido acuada diante de acusações que, sim, são bem fortes. Fortes porque a entidade vai alegar que os negócios são legais, do ponto de vista jurídico, o que podem até ser (embora seja difícil de acreditar, quando a empresa tem sede nas Ilhas Cayman e não tem uma sede, apenas uma caixa postal). A grande questão aqui é como a CBF está gerindo o que ela mesma alega ser um patrimônio do Brasil e que carrega bandeira e cores do Brasil, símbolos da república. Não são poucas as atividades suspeitas da CBF, e nem é de hoje que esse tipo de denúncia aparece. Mas as respostas continuam iguais: cada vez menos esclarecedoras, e cada vez mais suspeitas.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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