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‘Não acredito que vivi essa vida’: Rafael Sobis conta como futebol virou bloqueio após aposentadoria

Em exclusiva à Trivela, ex-atacante detalha carreira longe dos gramados e conta o quanto teve que abrir mão nos tempos de jogador

A vida de jogador de futebol, badalada pelos altos salários e os holofotes da mídia, simultaneamente pode ser de frustração por renunciar a momentos na vida pessoal. Foi o que sentiu Rafael Sobis, com passagens por Internacional, Fluminense, Cruzeiro e outros, em seus quase 20 anos como profissional, como contou à Trivela.

O ex-atacante, em entrevista exclusiva por meio de videoconferência, detalhou à reportagem como ver o calendário insano de jogos, com compromissos a cada três dias, o faz ter um “bloqueio” e o reflete sobre seus tempos de dentro do gramado.

O desabafo veio após uma pergunta se ele sente falta de algo dos tempos de jogador. “Eu não sinto saudade de nada, sinceramente“, assumiu.

— Quanto mais eu vejo esses caras jogando, mais eu tenho um bloqueio. Tipo, ‘não acredito que eu fazia isso quarta e domingo. Eu não acredito que eu vivi essa vida’. A gente liga a TV e os caras estão jogando. Daqui a pouco eu ligo e estão jogando de novo.

Sobis, porém, mostra gratidão por tudo que o futebol lhe deu. “Eu fiz muito como profissão. Eu encarei de fazer o que tinha que ser feito e colhi frutos”. Ao mesmo tempo, sabe que abriu mão de muita coisa importante da vida pessoal, como o nascimento dos dois filhos mais velhos, quando atuava no futebol internacional.

Se eu falar que eu fazia o que eu amava, eu estaria mentindo. O alto rendimento me fez perder muita coisa, me fez ganhar muita coisa, mas tem coisas que eu perdi que o tempo não me devolve, que é ficar longe de família, não ver nascimento de filho — desabafou.

Rafael Sobis em sua última partida como jogador
Rafael Sobis em sua última partida como jogador (Foto: Imago)

Sobis aposta em análises de futebol, mas não quer mais do que isso

Até por essa visão de sua carreira no campo, o pós-carreira de Sobis, aposentado desde o fim de 2021, tem muito pouco de futebol. A ideia de ser executivo ou técnico não passa nem perto. “Eu quero distância. Tá louco“, brincou, ao ser questionado sobre uma carreira à beira do campo.

O ex-jogador, sócio do canal “4D TV”, no YouTube, tem viralizado nas redes sociais por análises táticas pertinentes, principalmente sobre Internacional e Grêmio. Ele também participa como comentarista na emissora “SporTV”.

— [Por que não ser técnico?] É que é uma coisa bem importante. Não é porque eu joguei futebol que eu sei gerir pessoas. Não é porque eu faço uma análise tática a partir do que vejo no meu olhar que vou saber fazer as pessoas fazerem aquilo que eu penso. É muito mais complicado — explicou.

— Se tu vira um dirigente, um treinador, a tua vida acaba. Você tem que viver aquilo segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, o tempo todo. Tu vai responder sobre ações de pessoas que fogem do teu controle. Então, não passa pela minha cabeça. Estou longe disso.

— Eu não quero ter esse estresse mais, eu prefiro abrir outras portas, eu quero aproveitar. E o que foi feito está gravado, está lá lindo, está na história, e eu não tenho por que estar vivendo disso de novo — completou.

As análises de Sobis viralizaram, em especial, pela profundidade com que trata o futebol, trazendo o contexto também do atleta dentro de campo. Ele brinca que, quando assiste ao esporte, “não vê a bola”, vê o contexto.

— Eu vejo o futebol de outra maneira, eu não assisto como qualquer um. Eu vivi isso por quase 20 anos, né? Então eu gosto de examinar, de entender, de ver os porquês. Me atenho muito ao corporal dos jogadores, e aí se torna interessante o jogo. […] Eu tento traduzir da época em que eu jogava, as formas de falar de treinadores. E aí eu vejo por esse lado, como um bom observador.

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Ídolo do Internacional, ex-atacante aponta problema no clube no ano passado

Dentro dessa visão diferenciada na análise, Rafael Sobis também mostra uma leitura madura sobre a importância do cuidado com a saúde mental pela popularização das redes sociais.

Ele entende que o peso psicológico foi um dos principais motivos para o dramático 2025 do Internacional, se salvando do rebaixamento no Brasileirão na última rodada, apesar de um elenco qualificado. “O Inter sentiu muito isso. Grandes jogadores que tiveram momentos maravilhosos antes, do nada, parecem que nunca jogaram bola. Isso não é que desaprendeu, isso é o mental, é não saber lidar com a situação”, analisou.

— Os clubes precisam investir no mental dos atletas. Com a vinda da internet, os jogadores estão muito mal mentalmente, não sabem lidar com a dificuldade. A cobrança vem de tudo que é lado, do rádio, da televisão, direto na rede social. Hoje todo mundo comenta, opina, sabe onde fica a rede social do cara. E eles não se protegem

Sobis, no entanto, não se preocupa só com o impacto mental que a utilização das redes causa. O ex-atacante também vê como prejudicial todos os holofotes que tiram o foco do jogador.

— O jogador viu que a rede social também dá dinheiro. E aí começa a dividir a atenção da sua profissão com isso. E o clube que paga o seu salário começa a perder qualidade do jogador. Hoje, eles entram já combinados com o fotógrafo, tendo um vídeo pré-programado [para as redes]. O que mostra? Que ele não está 100%. Em alta performance, você não pode se dar o luxo de pensar em outra coisa dentro de campo. O jogador tem que estar tranquilo para entrar e só exercer a sua profissão.

Rafael Sobis e seus negócios após pendurar as chuteiras

A vida do ex-jogador após o futebol, além dos comentários no YouTube e na TV, tem sido agitada nos negócios. Rafael Sobis é sócio de uma startup de energia solar, tem investimentos no mercado imobiliário, no setor de gastronomia e apresenta um podcast. Ele também ministra palestras de empreendedorismo.

— A minha ideia é, principalmente, mostrar para os atletas que existe uma outra vida, que dá para tirar desse mundo empresarial esse preconceito que eles têm com quem vem do futebol. Mas o jogador tem que fazer por onde. Sair da bolha do futebol. Tem muita oportunidade, muita chance. Usar o esporte como um canal, porque você conhece muita gente. O futebol permite que você entre na casa de todo mundo e, daqui a pouco, faça negócio com essas pessoas.

Uma das novidades dos investimentos do ídolo do Internacional foi a Brazuca League, uma competição que mistura futebol de 7 com regras diferenciadas, inspirada na Kings League fundada por Gerard Piqué. A primeira edição foi realizada no ano passado, em Porto Alegre, e reuniu ex-jogadores e influenciadores, além de atletas locais.

— Vimos que a Kings League veio e foi [com apenas uma edição por ano], sabe? É tipo aquela mulher bonita que apareceu e sumiu. Aí a gente falou, ‘opa, tem uma chance de inventarmos algo nacional’. E foi um desafio bem louco, até uma loucura aceitar fazer isso. […] Não queremos comparar nada com a Kings League, longe disso. Começamos a nossa história e agora a gente está desenhando ideias para esse produto girar o Brasil — confidenciou.

Com transmissão de três canais no YouTube diferentes, incluindo o da “RBS”, a afiliada da “TV Globo” em território gaúcho, a competição contou com mais de 200 mil visualizações nas transmissões dos três dias de disputa.

O agora empresário Rafael Sobis também pode focar na sua vida pessoal. Após o futebol, que lhe deu e ao mesmo tempo tirou tanto, ele conseguiu, aos 40 anos, acompanhar de perto o nascimento de seu terceiro filho, Pedro, em novembro do ano passado.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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