Tim Vickery: O Brasil ainda tem um grande teste de nacionalização pela frente
'Confesso que escrevo de uma posição de humildade, sem qualquer pretensão de oferecer uma solução — escrevo, na verdade, para aprender e extrair ideias'
Parece que Jesse Lingard usou o interesse do Remo para atrair outras ofertas — e agora o ex-jogador da seleção inglesa está fechando com o Corinthians.
Duas semanas atrás, falando no rádio na Inglaterra, eu já imaginava um cenário assim. Pessoas em Belém ficaram sabendo e não ficaram nada felizes. “Eu estava discriminando o Remo”, gritaram. Diziam que eu não estava respeitando os sentimentos da torcida gigante de um clube com uma tradição tão gloriosa.
Bem, espero que agora, à luz dos acontecimentos, tenha ficado claro que eu não estava discriminando nem faltando com respeito. O problema é que os próprios fatos dificultaram a contratação.
Remo tem desafios para se manter no Brasileirão

Fato número um: existe a expectativa de uma luta contra o rebaixamento. Torço para que não aconteça — abordarei esse assunto mais tarde. Mas a expectativa existe e, embora o início da temporada não tenha sido de todo ruim, ela não foi desmentida pelas primeiras rodadas do campeonato.
Fato número dois, que pesa mais e é imutável: a própria geografia joga contra. Para chegar ao jogo fora de casa mais próximo, há um deslocamento de duas horas e meia de avião, e quase todas as outras viagens são muito mais longas. Em um calendário tão apertado como o brasileiro, isso significa passar a vida em um avião — um sacrifício para qualquer atleta, especialmente para um de certa idade.
Somos todos prisioneiros da geografia. Realmente, o tamanho e as características do Brasil são um desafio enorme para a organização nacional do futebol. Gigante pela própria natureza, o Brasil é obviamente muito maior que qualquer país europeu. E o seu tamanho não vem acompanhado da vantagem dos Estados Unidos, que se estendem de litoral a litoral e podem se dividir em duas conferências de peso similar.
No Brasil, o eixo futebolístico concentra-se no Sudeste, com as outras regiões lutando contra o isolamento. Neste contexto, a Copa de 1950 pode até ser vista como um sucesso: conseguiu acelerar o processo de nacionalização do jogo, levando partidas além de Rio e São Paulo, chegando a Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Recife.
Os sinais de progresso vieram depois, com a ascensão do Cruzeiro nos anos 1960 e, com o nascimento do Campeonato Brasileiro, a surpresa de ver o Internacional como o time mais forte da década inicial. De dois centros principais, o Brasil passou a ter quatro.
Mas quando o Norte e o Nordeste poderão, de fato, entrar na festa? Vejo isso como o grande teste de nacionalização do futebol brasileiro.
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Por um futebol brasileiro mais nacional

Confesso que escrevo de uma posição de humildade, sem qualquer pretensão de oferecer uma solução — escrevo, na verdade, para aprender e extrair ideias.
Eu tinha a esperança de que a dinâmica dos pontos corridos estivesse ajudando de maneira orgânica e que, aos poucos, mais times dessas regiões conseguissem se estabelecer na elite, seguindo o modelo do Fortaleza. Afinal, cada time da região no Brasileirão significa uma viagem desgastante a menos para os outros vizinhos. Entrei em 2025 cheio de otimismo.
Mas a realidade bateu forte. Para esses clubes, a margem de erro é mínima, especialmente com quatro times sendo rebaixados. Recentemente, vimos o Fortaleza cair, junto com Ceará e Sport.

O Bahia, embora tenha sofrido um desastre na Libertadores na semana passada, parece estar em um processo de consolidação a longo prazo por fazer parte do Grupo City. Mas essa não é uma solução universal. Vitória e Remo terão que ralar muito para não cair.
Como a organização do futebol brasileiro pode ajudar? Como podemos ver o tamanho das torcidas do Norte e Nordeste refletido em força dentro de campo?
Adoraria ouvir propostas e sugestões — algumas, com certeza, tocarão na distribuição do dinheiro da televisão. Dá para nivelar o campo? Ou a geografia ingrata condena os clubes do Norte a estarem sempre remando contra a maré?



