O novo plano das torcidas organizadas para o fim da torcida única em SP após dez anos
Associação de torcidas organizadas apresenta documento à Polícia Civil para propor o retorno dos clássicos paulistas com torcedores de ambos os times
O futebol na “Selva de Pedra” tem menos cores desde 2016, quando o Ministério Público decidiu pela instituição da torcida única nos clássicos no estado de São Paulo após conflitos entre torcedores de Corinthians e Palmeiras, antes e após o duelo pelo Brasileirão, que resultou em uma morte e dezenas de feridos.
A punição completará dez anos em abril de 2026, e segue vigente no estado sem interrupções, apesar de movimentos de torcedores, clubes e órgãos públicos ao longo dos anos. Existe a possibilidade, no entanto, que esta punição seja derrubada nos próximos meses, com a volta das torcidas em confrontos entre Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, assim como os clássicos de Campinas entre Ponte Preta e Guarani.
O futuro dos clássicos de torcida única em São Paulo pode mudar
Nesta semana, a Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg) apresentou à Polícia Civil e à Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade) o projeto “Pelo Fim da Torcida Única”. O documento, ao qual a Trivela teve acesso, conta com 49 páginas, e se utiliza de embasamento teórico, técnico e prático para propor o retorno das torcidas aos clássicos paulistas.

O projeto foi constituído de forma conjunta por Luiz Cláudio (Claudinho), presidente da Anatorg, Alex Minduin, professor, fundador da Anatorg e ex-diretor do direito e defesa do torcedor no Ministério do Esporte, e pelo advogado Renan Bohus. Nesse primeiro encontro, que contou com a participação dos delegados César Saad e Luís Alberto Guerra na Drade, o saldo foi apontado como “positivo”, como fontes relataram à reportagem.
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Embasamento teórico do projeto
No documento, a Anatorg apresenta fundamentos para propor o fim da torcida única, dentre eles, a Constituição Federal de 1988, que “consagra o esporte como direito de todos, atribuindo-lhe função social, cultural e educacional”.
As obras são citadas para reforçar que o torcedor é parte “indissociável do espetáculo” e que a exclusão de uma das partes fere a natureza do futebol como fenômeno de identidade e cultura urbana, como também destacado na Constituição.
Um dos principais pontos levantados no projeto é de que a política da torcida única, adotada de forma emergencial em 2016, não foi capaz de eliminar a violência como um todo, que seguiu em ambientes isolados da cidade, resultando em problemas de ordem pública.

— O que ocorreu foi uma reorganização espacial, temporal e simbólica dos conflitos, com consequências diretas para a segurança pública, para o controle estatal e para a vida urbana — diz um trecho do documento.
Um dos levantamentos anexados ao projeto indicou que 39,3% dos clássicos em São Paulo apresentavam algum incidente de violência antes de 2016. Após isso, esse número caiu para 10,7%. Entretanto, também foi ressaltado que essas estatísticas desconsideram conflitos entre torcedores fora do perímetro onde os clássicos são disputados.
Clássicos nacionais não têm restrição de torcida única, e esse é um dos argumentos utilizados no projeto para que o estado possa voltar a receber duelos com duas torcidas nos clássicos paulistas.
Em 2024, São Paulo e Palmeiras se enfrentaram no Mineirão, em Belo Horizonte, pela Supercopa do Brasil. A restrição de torcida única não permaneceu no duelo, já que este ocorreu em outro estado senão em São Paulo. Não houve conflitos entre torcedores naquela ocasião, que foi vista com bons olhos pelo poder público paulista.
Europa como exemplo para o futebol brasileiro
Assim como no Brasil, o futebol europeu sofreu com problemas de conflitos de torcedores entre as décadas de 1970 e 1990. Não houve, no entanto, a adoção da política de torcida única, de forma permanente, em países como Alemanha, Inglaterra e Itália, por exemplo.
A partir do exemplo das grandes ligas na Europa, que mantém torcedores nos principais clássicos nacionais do Velho Continente, o projeto da Anatorg apontou medidas que permitiram o controle da violência sem a exclusão de visitantes, tais como:
- modernização e reestruturação dos estádios;
- reorganização do policiamento e dos fluxos urbanos;
- identificação individual e punição específica de envolvidos em delitos;
- sistemas de inteligência e monitoramento;
- diálogo institucional com associações de torcedores;
- planejamento detalhado por evento, e não medidas genéricas
Qual é o plano proposto e os próximos passos?
Assim como as experiências internacionais bem-sucedidas, a Anatorg propõe a implementação de um modelo gradual para o retorno da torcida visitante em São Paulo. O plano central consiste na realização de “jogos-piloto”, que servirão como testes para validar novas estratégias de segurança e logística.
Entre as medidas práticas sugeridas no documento estão:
- uso obrigatório de tecnologias de reconhecimento facial para a identificação precisa de todos os presentes;
- responsabilização individual, em vez da punição coletiva à torcida;
- criação de comitês de governança compartilhada entre clubes, Polícia Militar, Ministério Público e lideranças das torcidas organizadas para a mediação prévia de conflitos.
Depois da reunião com o poder público, a Anatorg mantém diálogo com a Polícia Civil, mas ainda não há outro encontro marcado até o momento. Isso pode levar semanas, meses e até anos, até a elaboração de um plano, juntamente com os órgãos públicos. Até lá, Palmeiras e São Paulo se enfrentam neste domingo (1º), pela semifinal do Campeonato Paulista, apenas com torcedores alviverdes no Allianz Parque.



