Estaduais 2026: O sucesso de audiência que desafia o novo calendário da CBF
Redução de datas tornou alguns torneios até mais emocionantes com novos formatos em 2026
Quando a CBF anunciou em outubro do ano passado um calendário renovado para o futebol brasileiro, com cortes de datas para os estaduais, o sentimento geral era o de que essas competições, que sobrevivem da tradição, história e rivalidades regionais, estavam próximas de um final.
Quase cinco meses depois, a realidade se impôs com números altos de audiência e a confirmação de um comportamento cada vez mais dependente da realização de jogos todos os dias, tanto por parte de clubes e federações, como de detentores de direitos de transmissão e de torcedores.
A resiliência dos estaduais frente ao novo calendário
No último fim de semana, a Record liderou a audiência em São Paulo com o jogo que valeu a classificação do Corinthians sobre a Portuguesa em duelo emocionante no Canindé pelas quartas de final do Paulistão 2026. A partida teve média de praticamente 14 pontos no Ibope, enquanto a disputa de pênaltis chegou a alcançar 18 pontos de pico.
Antes, no dia 8 de fevereiro, ainda pela primeira fase da competição, a Record venceu a Globo por 16,7 a 14 com a transmissão do clássico Corinthians 0x1 Palmeiras, que registrou pico de 18,7 pontos.
Quem conhece televisão sabe o peso disso: vencer a Globo é quase impossível em condições normais. O futebol impulsiona esses números.

Os críticos podem dizer: “mas é claro, com clássicos e jogos decisivos qualquer um vence a Globo”. E é aí que mora justamente o ponto: estaduais são feitos de clássicos e jogos decisivos. Essa entrega é possível porque esse tipo de competição ainda existe.
Sem essas competições, o torcedor dos grandes veria seus times enfrentando rivais apenas pelo Brasileirão (desde que estejam na mesma divisão) ou nos acasos dos cruzamentos de Copa do Brasil, Libertadores e Sul–Americana. E em condições totalmente diferentes. Um clássico no Brasileirão pode cair nas vésperas de um mata-mata continental, ou nem valer muito além de uma posição no meio da tabela. No estadual, quase sempre vale muito.
Isso não é restrito ao Paulistão da Record. Em Pernambuco, por exemplo, onde a Globo ainda domina a competição no sinal aberto, o estadual rendeu números históricos. De acordo com o site do jornalista Cássio Zírpoli, o jogo Sport 2×1 Santa Cruz, em 31 de janeiro, rendeu 30,9 pontos de média ao canal, com pico de 41,4.
No Pará, o clássico Paysandu x Remo, em fevereiro, colocou a TV Cultura na liderança com 25,7 pontos de audiência. Vale lembrar que, em 2026, o Remo joga a Série A do Brasileirão, enquanto o Paysandu disputará a Série C.
Em janeiro, o Campeonato Baiano teve o Ba–Vi dando a liderança do Ibope à TVE Bahia, com picos de 19 pontos e 40% de participação sobre o total de televisores ligados. No mesmo mês, a volta dos profissionais do Flamengo a campo fez a TV Globo alcançar média de 29 pontos no clássico contra o Vasco no Rio de Janeiro.
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O dilema entre o descanso dos atletas e a demanda do público
A coluna poderia passar horas (ou linhas) listando feitos inclusive digitais dos estaduais, que alcançam bons números também na CazéTV, GE TV, SportyNet, N Sports, Metrópoles, entre outros canais que levam o futebol de graça ao YouTube.
O ponto aqui é: quem defende a extinção dos estaduais, ou a saída dos clubes grandes deles, normalmente o faz para reduzir o calendário e diminuir o número de jogos que essas equipes fazem todos os anos. É uma preocupação justa, afinal, os times brasileiros sofrem com calendários apertados há décadas. Mas falta combinar com o povo.
O povo deu o recado: se tem jogo, ele assiste.
Se o jogo é um clássico ou mata-mata, mais ainda. Cortar simplesmente os estaduais em nome de dar folga nas 12 datas que eles ocupam hoje não é o que o consumidor de TV aberta, TV paga, internet aberta, streaming pago e PPV parece querer.
Basta conferir, das redes sociais aos seus amigos, se eles ficam felizes quando há semanas sem futebol. Uma dica boa é medir o sentimento quando o esporte ainda tem partidas realizadas, mas em forma de data Fifa. Há demanda. E enquanto houver demanda, haverá entrega.
E ainda é preciso colocar na balança o papel das bets nessa conta, patrocinando e querendo mais e mais jogos para que seus clientes possam apostar em partidas diversas todos os dias.
Os estaduais ficaram até melhores com formatos mais enxutos em 2026. O Paulistão teve drama até o fim para definir se os quatro grandes se classificariam. O Carioca facilitou a vida dos grandes com seu formato, mas o Flamengo sofreu por usar o sub-20 no começo e criou atmosfera de suspense.
Mineiro e Gaúcho tiveram primeiras fases agitadas, bem como o Catarinense com o modelo que fazia o time se classificar para o mata-mata ou jogar o quadrangular do rebaixamento, que inclusive rebaixa três de seus quatro integrantes.
Apetite global: Por que o público quer cada vez mais jogo

Também poderíamos falar sobre todos os formatos, mas o fato é que os estaduais tinham uma missão: mostrar resistência diante dos cortes. A dúvida que este colunista mais tinha no ano passado, sobre dividir atenções com o Brasileirão começando em janeiro, também caiu por terra. Há brigas, polêmicas, discussões, reclamações por arbitragens, e torcedores querendo títulos de seus estados tanto quanto antes.
O futebol brasileiro sempre sofreu com excesso de datas e de jogos, e isto sempre foi um problema. Mas o problema agora é que o mundo todo começou a ver que o público que banca o esporte com suas assinaturas, ingressos, planos de sócios, apostas e audiências está insaciável e querendo mais e mais futebol.
É só ver o que Uefa e Fifa fizeram recentemente com o novo formato da Champions e com a criação da Copa do Mundo de Clubes.
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