Brasileirão Série A

O momento em que o Internacional mudou de postulante ao título a candidato ao rebaixamento

Colunista da Trivela, Tim Vickery faz panorama sobre temporada do Internacional, que está na zona de rebaixamento para Série B

Aproximando a última rodada do Brasileirão, me acho voltando no tempo e pensando sobre o início. Na primeira rodada, final de março, eu estava dentro do Maracanã para assistir Flamengo x Internacional.

Se tratava, a gente imaginava, de um duelo de dois candidatos ao título. Flamengo, com todo o seu poder financeiro, e Inter, depois de um arranque sensacional nos últimos meses do ano anterior.

O time de Roger Machado se colocou na briga para ganhar o Brasileiro de 2024, uma esperança que só morreu justamente no jogo contra o Flamengo no Maraca no dia 1 de dezembro. O Flamengo abriu 3 a 0. Cheio de confiança e autoestima, o Inter reagiu. O placar final foi 3 a 2, com o Inter criando oportunidades até o apito final. 

Já no início do ano, quase quatro meses depois, os dois começaram a atual temporada com uma partida digna de rivais de qualidade. Terminou 1 a 1. Voltei para casa com boas impressões dos dois times.

Flamengo e Inter fizeram jogo muito disputado no Maracanã (Foto: Imago)
Flamengo e Inter fizeram jogo muito disputado no Maracanã (Foto: Imago)

O Flamengo, claro, confirmou todas aquelas impressões positivas conquistando a Libertadores, e, com uma rodada de sobra, o Brasileirão também. E o Inter?  Incrivelmente, reza para não cair, uma mão na calculadora, a outra no número de telefone do cardiologista.  Como pode?

O ponto de virada do Internacional

Acho que o jejum faz parte. O fardo da história pesa bastante.

Quando iniciou o Campeonato Brasileiro em 1971, poucos iriam imaginar que o time dominante da primeira década seria de fora do eixo Rio-São Paulo. Foi o Inter. E quando as memórias do triunfo começaram a ficar distantes, aconteceram as conquistas da Libertadores (2006 e 2010) e do Mundial (2006). Mas já fazem mais de 15 anos, e contando….

German Cano comemora o 12º gol na Libertadores e a vaga do Fluminense na final (Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC)
German Cano comemora o 12º gol na Libertadores e a vaga do Fluminense na final durante eliminação do Inter (Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC)

Ficou perto da Libertadores em 23. Deveria ter vencido o Fluminense na semifinal. E o arranque do ano passado deixou uma fé em coisas boas para 2025.

Dá para identificar o momento crucial, quando o castelo de sonhos começa a despencar no dia 20 de agosto, jogo de volta das oitavas de final da Libertadores.

Naquele momento, com o Brasileirão exatamente na metade, o Inter se encontrava no 12º lugar — decepcionante, mas não desastroso. Depois dos últimos meses de 2024, se esperava mais, mas ainda havia tempo para mais uma reação. E, crucialmente, ainda estava na Libertadores.

Verdade, perdeu o jogo de ida, 1 a 0 fora contra o Flamengo. Mas jogou bem, estava na briga, com possibilidades claras de sair vitorioso no Beira Rio.

Deu tudo errado. A festa virou um gol contra, antes mesmo do jogo iniciar. A papelada lançada no gramado atrasou a partida e esfriou o ambiente. E, quando a bola começou a rolar, o Flamengo ganhou com uma facilidade surpreendente, ditando o ritmo, criando perigo, nunca sofrendo. Foi, na verdade, de longe a melhor atuação do time de Filipe Luís na campanha da Libertadores — e também, foi o fim da linha para o Inter.

Arrascaeta Inter Flamengo Libertadores
Eleito o craque do jogo pela Conmebol, Arrascaeta abriu o placar para o Flamengo contra o Inter (Foto: Imago)

O jejum não ia acabar. Aquele início um pouco decepcionante no Campeonato Brasileiro, na verdade, não era uma anomalia, não se tratava de uma posição falsa. Era a realidade. Cresceu essa mentalidade nas arquibancadas, nos corredores do clube, e dentro do vestiário também.

Impressionante como, no meio de tantos jogos, tem alguns que se destacam tanto, que trazem consequências grandes, deixam traumas enormes. A partida contra o Flamengo em 20 de agosto é um deles. O time que reagiu com tanta bravura contra o mesmo adversário em dezembro, e que empatou no Maracanã com honras em março — mesmo com os mesmos jogadores, esse time não existia mais. A casa caiu e não houve como juntar de novo os tijolos.

Pode se salvar ainda, ganhando e rezando.  Está perfeitamente dentro das possibilidades de um domingo dramático. Mas se cair, o Inter vai lembrar o dia 20 de agosto, quando o time virou o boxeador que leva um golpe tão forte que nunca mais conseguiu ser o mesmo.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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