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Libertadores: Catarse sobre o Palmeiras sela epopeia de superação do Flamengo em 2025

Título conquistado diante do Alviverde transforma feridas antigas em combustível num ano que trouxe o inédito tetra

O Flamengo já se habituou ao palco das grandes noites sul-americanas. Desde 2019, faz da Libertadores uma casa frequente, com finais, semifinais e títulos que reforçaram seu peso competitivo. Ainda assim, havia uma marca particular que só o tempo — e o futebol — poderiam apagar: a derrota para o Palmeiras na decisão de 2021, traumática não pela ausência de protagonismo, mas justamente porque ocorreu no que era para ser o auge desse protagonismo.

A vitória na final de 2025 diante do mesmo Alviverde não fecha um ciclo de frustrações; fecha uma ferida específica e reabre outra etapa desse duelo que passou a definir uma era na América do Sul, agora com o Rubro-Negro se sagrando como o primeiro clube brasileiro a ser tetracampeão continental.

A campanha que levou o clube da Gávea de volta ao topo do continente não foi linear, tampouco comparável às jornadas mais dominantes do passado recente. Desta vez, o caminho se desenhou na base da resistência, do atrito, da adaptação contínua. Houve menos brilho e mais substância; menos folga e mais convicção em momentos críticos.

E foi exatamente essa capacidade de sobreviver, de se moldar às adversidades, que construiu um time emocionalmente mais forte do que qualquer um dos adversários superados.

Por isso, o triunfo sobre o Palmeiras assume contornos de catarse: um renascimento em um ciclo que nunca deixou de ser vitorioso, mas que precisava desse capítulo para reforçar sua própria identidade competitiva.

Na visão de muitos rubro-negros, motivados pela alcunha “ninguém morre devendo o Clube de Regatas do Flamengo”, era questão de honra bater a equipe alviverde após a decisão de 2021.

Fase de grupos como prenúncio das provações que moldariam o Flamengo

Rossi celebra classificação contra o Racing
Rossi celebra classificação contra o Racing (Foto: Imago)

A campanha do Flamengo na Libertadores 2025 começou bem diferente do que a torcida esperava. A fase de grupos foi irregular, marcada por oscilações que colocaram em dúvida a real capacidade de o time avançar. Fez a arquibancada flertar com fantasmas de eliminações precoces da última década.

A classificação veio somente na segunda colocação — o que custou ao clube o direito de decidir qualquer mata-mata no Maracanã — e com doses generosas de tensão: na rodada final, o time de Filipe Luís esteve a um gol de ser eliminado por um Deportivo Táchira frágil, que rondou perigosamente o improvável.

Foi um aviso de que nada seria simples naquele ano.

A jornada ganhou outro contorno a partir das oitavas de final, quando o Flamengo dominou o Internacional nos dois jogos. 1 a 0 no Maracanã, 2 a 0 no Beira-Rio, desempenho seguro e maduro — uma rara ilha de tranquilidade numa caminhada que logo seria marcada por novas turbulências.

Nas quartas, o Estudiantes apresentou o primeiro grande teste emocional. Em casa, a equipe carioca perdeu chances claras, sofreu com a injusta expulsão de Gonzalo Plata e deixou escapar a possibilidade de construir uma vantagem ampla. O 2 a 1 saiu caro — sobretudo quando a equipe desembarcou em La Plata e se viu empurrada de volta ao próprio limite.

A derrota por 1 a 0 levou a decisão para os pênaltis, e ali Rossi escreveu um capítulo decisivo: duas defesas, sangue frio, liderança.

Foi o momento exato em que o Flamengo deixou de ser um time que apenas sobrevivia e passou a ser um time que acreditava.

A semifinal contra o Racing confirmou essa transformação. No Rio, vitória por 1 a 0 construída na paciência. Em Avellaneda, um daqueles duelos em que o ambiente e o contexto pesam tanto quanto a bola jogada.

Com um homem a menos durante parte considerável do segundo tempo, o Flamengo se encolheu sem se perder, reduziu espaços, abafou o ímpeto rival e administrou o 0 a 0 como quem entende a lógica do torneio: não se trata de ganhar todos os jogos, mas de ser invencível quando necessário.

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Entre a dor de 2021 e a consagração de 2025: o acerto de contas do Flamengo

Arrascaeta, Bruno Henrique e demais companheiros celebram tetra do Flamengo
Arrascaeta, Bruno Henrique e demais companheiros celebram tetra do Flamengo (Foto: Imago)

A decisão contra o Palmeiras carregava tensões acumuladas por anos. Não por um acúmulo de frustrações, mas por uma rivalidade que se tornou definidora na era recente do futebol sul-americano. Flamengo e Palmeiras passaram a dividir hegemonia, influência, estilo e ambições.

E dentro desse tabuleiro, a derrota de 2021 permaneceu como uma cicatriz incômoda — não porque derrubou um ciclo, mas porque expôs um ponto sensível num time que estava acostumado a dominar. Era a ferida que faltava fechar.

Por isso, a final de 2025 não foi apenas mais um capítulo dessa disputa; foi a oportunidade de reequilibrar uma história que, para o Rubro-Negro, precisava ser recontada.

A vitória simboliza mais do que uma coroação esportiva. É a recuperação de um território emocional. O que estava em jogo não era um trauma permanente, mas um incômodo persistente que finalmente encontrou seu desfecho. Ao vencer seu maior antagonista contemporâneo, o Fla não só reafirma seu lugar no continente — ele reescreve o ponto que sempre escapava desse roteiro.

A Libertadores desse ano, portanto, carrega uma dimensão dupla: celebra a força de uma campanha de superação e, ao mesmo tempo, encerra uma pendência que acompanhava o clube mesmo em seus anos mais gloriosos. É o título que dá forma a um sentimento de completude.

O título não reinventa o Flamengo — ele o completa. E recoloca o clube exatamente onde sua torcida se acostumou a vê-lo: no topo do continente, agora sem a sombra que insistia em permanecer aberta no passado.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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