Brasil

Punição da Fifa ao Brasil por homofobia é apenas simbólica, mas é um começo

“Ôôôôôôô, BICHA!”. Você já ouviu esse grito nos estádios brasileiros e ele foi repetido durante o Brasil x Colômbia, em Manaus, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. A manifestação não passou incólume. A Fifa passou a punir esse tipo de manifestação homofóbica e não é de agora. Em janeiro deste ano, a entidade puniu torcedores de Argentina, Chile, México, Peru e Uruguai pelo mesmo motivo. Agora, além do Brasil, outros 10 países foram punidos. E alguns foram reincidentes.

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Além do Brasil, foram punidos também Honduras, El Salvador, México, Canadá, Chile, Argentina, Paraguai, Peru, Itália e Albânia. Todos eles foram multados, em diferentes valores. Brasil e Canadá foram punidos em 20 mil francos suíços (pouco mais de US$ 20 mil) por casos individuais, a Argentina e Paraguai foram punidos em 25 mil francos suíços (pouco mais de US$ 25 mil), México, Peru e Itália foram punidos em 30 mil francos suíços (US$ 30 mil), El Salvador em 45 mil francos suíços (US$ 45,8 mil), Albânia em 50 mil francos suíços (US$ 50,8 mil), Honduras, por dois incidentes, e Chile, por ser reincidente, receberam a maior punição, 65 mil francos suíços (US$ 66 mil).

O Chile, aliás, receberá uma punição a mais por ser reincidente. Não poderá mandar seus jogos no seu estádio mais tradicional, o Estádio Nacional de Santiago. A seleção já tinha sido punida com essa sanção e terá que cumprir mais um jogo.

“A Fifa pode confirmar hoje as sansões impostas a diversas associações de futebol por conduta discriminatória e antiesportiva dos torcedores durante jogos recentes das Eliminatórias da copa do Mundo de 2018”, diz o comunicado da entidade divulgado nesta terça-feira.

A decisão foi tomada pelo Comitê Disciplinar da Fifa, que tem um grupo de monitoramento, com representantes em jogos de seleções que fazem relatórios. Cantos com gritos racistas, xenófobos, homofóbicos ou com preconceitos de diversos aspectos são relatados e analisados posteriormente. Os árbitros também estão instruídos a relatar nas súmulas dos jogos, que também passam por análise.

Algumas circunstâncias foram levadas em conta para amenizar as penas, caso as associações demonstrem esforços para educar seus torcedores e aumentar o conhecimento daqueles que estão presentes no estádio sobre questões dessa natureza, de acordo com o artigo 97, parágrafo 1º do Código Disciplinar da Fifa (FDC, em inglês).

Além das punições, a Fifa diz que está trabalhando com o Guia da Fifa de Boas Práticas em diversidade e anti-discriminação (em inglês), criado para aumentar o conhecimento sobre práticas que são discriminatórias e estão naturalizadas dentro do futebol. Há muito trabalhado pela frente, mas ao menos as pessoas já estão mais conscientes em relação ao racismo. Falta ver isso aplicado e começar a ver essa consciência em relação à homofobia e xenofobia, dois problemas bastante graves atualmente em diversos países do mundo – no Brasil inclusive.

As punições, em termos financeiros, são bastante leves. Não fazem muita diferença nas contas das associações de países, mas ao menos levanta a discussão sobre isso. É importante que o trabalho de conscientização seja feito. As punições levantam as discussões em diversos lugares do mundo, inclusive aqui na Trivela.

Muita gente vai se mostrar resistente, bradará que “estão acabando com o futebol”, o que é de uma pobreza enorme. O futebol é muito mais do que isso. A conscientização sobre racismo já faz com que as pessoas se sintam desconfortáveis em gritar coisas como “macaco” como xingamento a um jogador em campo. O futebol não resolve os problemas sociais, mas também não pode ser um território onde se aceita discriminação que socialmente não pode mais ser aceito.

Foi assim com o racismo, que já se tornou crime. Era naturalizado. “É só provocação”, “É só brincadeira”, “Quem fala não é racista”. E a questão não é se a pessoa é racista. A questão é se o grito é. Quando se fala nesse tipo de punição, não se trata de punir quem é racista, homofóbico ou xenófobo, porque isso é impossível saber. É punir os atos. Atos desse tipo não podem ser aceitos.

O estádio não pode ser um lugar onde se aceita todos os preconceitos em nome de uma brincadeira, algo que dizem ser inocente. Racismo não tem espaço no estádio. Homofobia, xonofobia, machismo também não. Está na hora de nos conscientizarmos, seja em campo ou nas arquibancadas. Quem acha que essa é a graça do futebol não gosta de verdade de futebol. Gosta do espaço que o futebol até hoje dá para gente preconceituosa se manifestar. E isso tem que acabar.

Chamada Trivela FC 640X63

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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