Brasil

Punição para inglês ver: no Brasil, portões fechados nunca são cumpridos como diz a pena original

Sport sofreu uma sanção do STJD após o atentado contra o ônibus do Fortaleza, mas o histórico mostra que o Brasil tende a passar pano

Nesta terça-feira (12), o Sport foi condenado pela Segunda Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) a jogar oito jogos com portões fechados em competições organizadas pela CBF, como Copa do Nordeste, Brasileirão Série B e Copa do Brasil. A decisão foi unânime. O Leão foi julgado pelo atentado ao ônibus do Fortaleza, na madrugada do dia 22 de fevereiro, em Recife.

À época, seis jogadores do Tricolor do Pici (Titi, Brítez, João Ricardo, Sasha, Dudu e Escobar) ficaram feridos e precisaram ser levados ao hospital. Apesar da sanção instituída, o Sport ainda pode recorrer ao pleno do STJD, pois o caso foi julgado em primeira instância. Inicialmente, o Leão poderia pegar até mesmo 10 partidas com portões fechados, além de uma multa de R$ 100 mil (pena máxima).

Contudo, a Justiça definiu oito jogos sem torcida e uma multa de R$ 80 mil. O Sport também não poderá levar torcedores como visitantes em partidas fora de casa enquanto a pena não for cumprida. O argumento dos auditores do STJD baseou-se na reincidência da torcida do Rubro-Negro Pernambucano em episódios de violência no futebol. Um exemplo foi a invasão de campo na Série B 2022 contra o Vasco.

É provável é que o Sport apele para uma punição mais branda referente ao ataque à delegação do Fortaleza. Aliás, o histórico no Brasil dá esperanças para o Leão, já que as sanções de portões fechadas (quase) nunca são cumpridos como diz a pena original. E não é nem preciso ir longe para ver que o histórico do país tende a passar pano para esse tipo de situação.

O próprio Sport conseguiu diminuir pena de portões fechados

Destrinchando a confusão entre Sport x Vasco em 2022, é preciso lembrar que o duelo direto valia uma vaga de acesso ao Brasileirão Série A. A vitória faria com que o Leão ultrapassasse o Gigante da Colina e entrasse no G-4. Entretanto, um gol de pênalti de Raniel nos acréscimos do 2º tempo sacramentou o empate, sendo que a comemoração do atacante irritou os presentes na Ilha do Retiro.

Formado nas categorias de base do rival Santa Cruz, Raniel foi comemorar na frente do setor do estádio que recebe a torcida organizada do Sport. Na sequência, vários torcedores quebraram o portão que separa o alambrado do campo para invadir o gramado, cuja confusão obrigou a arbitragem a encerrar o jogo antes do previsto devido o risco à segurança dos jogadores do Vasco.

Naquele dia, várias pessoas ficaram feridas e cenas de violência contra seguranças e bombeiros rodaram o Brasil. O caso foi julgado pelo STJD, que inicialmente puniu o Leão com a perda de um ponto no campeonato e oito partidas com portões fechados. Só que o Sport recorreu da sanção na Justiça e conseguiu recuperar o ponto perdido, além de diminuir o número de jogos sem torcida em seu estádio.

O STJD reduziu para seis partidas com portões fechados, sendo que metade delas foram transformadas em ação social. Em três jogos do Leão na última Série B do Brasileirão, foi permitida a entrada de mulheres, crianças e PCDs (pessoas com deficiência). Por fim, a multa também caiu de R$ 180 mil para R$ 150 mil. Vale ressaltar que a tendência das diminuições das penas de portões fechados não são uma exclusividade do Rubro-Negro Pernambucano.

Paulistas também conseguiram reversão nos tribunais

Em 2016, torcedores de Flamengo e Palmeiras brigaram na 6ª rodada do Brasileirão Série A, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Num primeiro momento, o STJD puniu o Verdão com a perda de um mando de campo e a obrigação de jogar com portões fechados. Após apelo na Justiça, a sanção foi aliviada para portões “semi-fechados”. Ou seja, proibindo a venda de ingressos apenas para o setor que acomoda torcedores organizados.

Já em agosto de 2022, o Santos foi penalizado pela invasão de campo e agressão ao goleiro Cássio, do Corinthians, na Vila Belmiro, pelas oitavas de final da Copa do Brasil. O STJD indiciou o Peixe a jogar duas partidas com portões fechados no ano seguinte, mas uma delas foi convertida à presença de mulheres não filiadas às torcidas organizadas, crianças até 12 anos e pessoas com deficiência.

O Santos, mais uma vez, protagonizou cenas lamentáveis em julho de 2023, de novo contra o Timão. Então, o STJD aplicou oito perdas de mando de campo e partidas com portões fechados. Contudo, o Peixe entrou com efeito suspensivo para poder jogar em casa, mas sem a presença da torcida. Depois, o clube recorreu da decisão do tribunal, que reduziu a punição para quatro jogos.

Curiosamente, por conta disso, o Santos voltou a ter torcida na Vila Belmiro em partida contra o Grêmio, pela 20ª rodada da última Série A. Na ocasião, torcedores atiraram objetos em direção ao gramado do estádio, o que rendeu mais dois jogos de portões fechados. Ou renderia, já que o Peixe conseguiu um efeito suspensivo e teve a presença de torcedores nas partidas seguintes.

Ataque ao ônibus do Bahia é outro exemplo de impunidade

Em caso parecido com o do atentado ao ônibus do Fortaleza por parte de torcedores do Sport, a delegação do Bahia foi atacada por membros de sua própria torcida organizada, em fevereiro de 2022. Antes de uma partida contra o Sampaio Corrêa, pelo Nordestão, o ônibus do Esquadrão foi atacado com rojões e artefatos explosivos. Como consequência, o goleiro Danilo Fernandes e o lateral Matheus Bahia ficaram feridos.

Danilo Fernandes, por sinal, quase ficou perdeu a visão devido ao ataque. Nos meses seguintes, o goleiro precisou tirar estilhaços do corpo. Os responsáveis pelo atentado foram identificados e denunciados pelo Ministério Público por tentativa de homicídio, respondendo em liberdade. Até agora, ninguém foi punido. O Bahia, por sua vez, não sofreu qualquer tipo de punição desportiva.

Ataque aos jogadores do Fortaleza não pode ter punição branda (ou só portões fechados)

Com o aumento exponencial da violência no futebol brasileiro, o ataque aos jogadores do Fortaleza não pode ter uma punição branda. As incessantes diminuições ou conversões de penas passam a sensação de impunidade. A Justiça comum também precisa fazer sua parte, já que criminosos disfarçados de torcedores impõem o caos dentro e fora dos estádios. Caso contrário, nós jornalistas vamos ter que relatar o próximo caso de atentado no esporte mais amado do Brasil.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus Cristianini

Formado em Jornalismo pela Unesp, é apaixonado por esportes, acima de tudo futebol. Ama escrever sobre o que acontece dentro e fora de campo. Após passar por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia, se juntou à equipe da Trivela com muita vontade de continuar crescendo.
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