Brasil

Impunidade é a marca de ataques aos ônibus de clubes de futebol no Brasil

Levantamento da Trivela aponta pelo menos 9 ataques a ônibus de clubes de futebol, nos quais ninguém está preso pelos crimes

Revolta nas redes sociais, centenas de notas de repúdio, discursos efusivos de dirigentes pedindo torcida única e pouco questionamento por responsabilização do crime. Esse foi o roteiro de mais um ataque a ônibus de clubes de futebol no Brasil, ocorrido com o Fortaleza na última quarta-feira (21), após o empate com o Sport pela Copa do Nordeste. Uma bomba e vários pedras foram atiradas contra o veículo do time cearense e seis jogadores ficaram feridos, o mais grave deles o argentino Gonzalo Escobar, que, pela pancada na cabeça, levou pontos no supercílio e na boca. Uma semana depois, ninguém foi preso, apesar de um homem ter confessado o crime para Polícia Civil de Pernambuco, que investiga o caso.

Quem acompanha o futebol brasileiro sabe que o caso do Fortaleza não é isolado. A Trivela apurou que, desde 2021, pelo menos nove ônibus dos principais times do Brasil foram atacados com bombas, pedras, fogos de artifício ou outros itens, pela própria torcida ou de rivais. Desses nove casos, em três aconteceram detenções, mas ninguém permaneceu preso por muito tempo. A impunidade é uma marca desses casos, em que, como com Escobar, aconteceram graves lesões em jogadores.

Para cada um dos ataques, a reportagem apurou com as polícias e tribunais de justiça de cada estado para saber se foi registrada a ocorrência, se aconteceram prisões e o andamento das investigações. Confira em detalhe caso a caso.

Fortaleza ataque ônibus
Os graves ferimentos sofridos por Escobar, do Fortaleza (Foto: Divulgação)

Palmeiras – 2024

Não precisamos voltar muito no tempo para encontrarmos um ataque a ônibus de clube de futebol. Em 3 de fevereiro desse ano, véspera da decisão da Supercopa do Brasil, o Palmeiras sofreu com isso em Minas Gerais. Um torcedor do São Paulo atirou uma garrafa que arrebentou o vidro do veículo alviverde, que levava funcionários do clube. Por sorte, ninguém se feriu. A polícia foi rápida na identificação do responsável pelo ataque e efetuou a prisão em flagrante por crime de dano qualificado.

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou a reportagem da Trivela que o homem de 25 anos foi ouvido pela Central Estadual de Plantão Digital e, após “os procedimentos de polícia judiciária”, pagou a fiança e foi liberto. A investigação segue em curso para “completa elucidação do caso”.

Botafogo – 2023

No fim de agosto de 2023, o Botafogo partia rumo ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (Galeão) para viajar para Argentina, onde enfrentaria o Defensa y Justicia pela Copa Sul-Americana. Quando se aproximou do local, o ônibus encontrou um grupo de torcedores do Fluminense, que atacou a delegação botafoguense com pedras e copos de cerveja. Na ocasião, o atacante Carlos Alberto, hoje emprestado ao RWD Molenbeek, foi atingido por cacos de vidro, mas não sofreu graves ferimentos.

A assessoria de imprensa do Botafogo informou que o clube efetuou o boletim de ocorrência, mas não soube informar o número. Por isso, a Polícia Militar do Rio não conseguiu confirmar se houve investigação do caso. Até hoje, ninguém foi preso ou identificado.

Corinthians – 2023

Outro caso envolvendo a torcida do São Paulo. Dessa vez, o ônibus do Corinthians foi alvo de pedras e garrafas antes de entrar no Estádio do Morumbis para o jogo de volta da semifinal da Copa do Brasil no ano passado. Nenhum atleta se feriu.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo afirmou que o ataque foi registrado na 6ª Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade) e a autoridade policial “realizou diligências visando identificar a autoria do crime”. No entanto, ninguém foi preso. O Corinthians não cumpriu com o prazo de representação criminal, segundo a SSP.

Atlético-MG – 2022

A torcida do Flamengo atirou pedras contra a delegação do Atlético-MG em 2022, quando o clube mineiro visitou o Maracanã para as oitavas de final da Copa do Brasil. Na ocasião, mesmo com escolta policial, aconteceu o ataque.

O Atlético não confirmou se foi efetuado o boletim de ocorrência e, novamente, a Polícia do Rio não informou se houve investigação. Outro caso em que não aconteceram prisões.

Ataque ao ônibus do Atlético-MG no Rio de Janeiro (Foto: Cassio Arreguy, Gerente de Comunicação do Atlético-MG)

Fluminense – 2022

De novo no Rio, mesmo cenário dos ataques de Botafogo e Atlético. Dessa vez, na chegada ao Estádio Nilton Santos, a torcida do Botafogo apedrejou o ônibus do Fluminense e ninguém ficou ferido. Novamente, o clube não conseguiu confirmar se registrou ou não o boletim de ocorrência, e a PM não pôde complementar a informação. Ninguém foi preso.

Grêmio – 2022

O mais grave caso antes do ataque ao Fortaleza aconteceu em fevereiro de 2022, quando, no trajeto para o Estádio Beira-Rio, o veículo que transportava o elenco do Grêmio foi atingido por pedras e barras de ferro por torcedores do Internacional. Os jogadores Thiago Santos, Victor Bosin e Mathías Villasanti ficaram feridos, sendo o caso do paraguaio o mais grave, pois sofreu uma concussão cerebral e traumatismo craniano. À época, duas pessoas foram presas.

Segundo informações do Juizado do Torcedor e Grandes Eventos da Comarca de Porto Alegre, ao menos seis torcedores foram sancionadas pelo Ministério Público com afastamento temporários dos estádios — sem dizer o período do afastamento.

Bahia – 2022

Exatamente quatro dias antes do Grêmio ter o ônibus atacado, o Bahia sofreu com a mesma coisa e, novamente, um jogador ficou gravemente ferido. A própria torcida do clube baiano atacou o elenco com uma bomba, que estourou o vidro e os estilhaços quase cegaram o goleiro Danilo Fernandes, além de ferir levemente o lateral-esquerdo Matheus Bahia. Mesmo com a gravidade do caso, ninguém foi preso.

O Ministério Público da Bahia identificou e denunciou os torcedores Hugo Oliveira da Silva Santos, Janderson Santana Bispo, Marcelo Reis dos Santos Junior e Marcelino Ferreira Barreto Neto, membros da torcida organizada Bamor, por tentativa de homicídio. Atualmente, os acusados estão sendo ouvidos pela Justiça. A defesa informou à Trivela que o quarteto estava, na verdade, apoiando o clube com fogos de artifício.

Vale citar que no ano passado, quando o Bahia lutava contra o rebaixamento do Campeonato Brasileiro, Janderson Santana Bispo, o Jau, um dos torcedores denunciados pelo ataque, e a organizada Bamor se reuniram com o elenco para cobrar os atletas. Danilo Fernandes estava nessa reunião e esteve no mesmo ambiente do acusado por quase deixá-lo cego menos de dois anos depois.

Inclusive, em entrevista coletiva na última segunda-feira (26), o goleiro relembrou o atentado que sofreu e cobrou providências para o ataque ao ônibus do Fortaleza.

— Eu gostaria de falar de outro assunto, gostaria de falar do jogo, de nossa partida, mas, infelizmente, não é assim. Dois anos depois do meu episódio, os jogadores do Fortaleza foram alvos de uma tentativa de homicídio, como foi comigo. Infelizmente não acontece nada com esses bandidos que se chamam de torcedores. […] Todos os jogos que eu vou, esses caras estão nas arquibancadas, estão a 20 ou 30 metros de mim. Graças a Deus não aconteceu nada, mas precisam fazer alguma coisa antes que seja tarde. Não quero acreditar que estão esperando que aconteça algo pior. Temos que ter atitudes sérias, tomar providências grandes quanto a isso. Que sejam punidos — desabafou.

A grave lesão sofrida por Danilo Fernandes no ataque da torcida do Bahia, em 2022 (Foto: Divulgação/Bahia)

Santos – 2021

Após o Santos se salvar do rebaixamento no Campeonato Paulista de 2021, membros de uma torcida organizada do Peixe apedrejaram o ônibus do elenco no retorno ao CT Rei Pelé. O clube registrou boletim de ocorrência e acusou a Sangue Jovem Santista de atirar pedras e até um coquetel molotov no veículo. A organizada negou as acusações.

Até hoje, ninguém foi preso. A SSP informou que o caso foi investigado pelo 2° DP de Santos, e a autoridade policial “ouviu todas as partes envolvidas” antes de encaminhar a ocorrência ao Juizado Especial Criminal (Jecrim). O processo continua em andamento, mas em segredo de justiça, segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo.

São Paulo – 2021

Revoltados com a derrocada do São Paulo no Brasileirão de 2020 (disputado até o começo do ano seguinte), integrantes da torcida organizada Independente Tricolor, a principal do clube, armaram uma emboscada contra o time que eles torcem. A caminho do jogo contra o Coritiba — que não foi adiado e terminou empatado –, o ônibus do elenco tricolor foi atacado com pedras e fogos de artifício. Nenhum jogador se referiu, mas, à época, destacou-se o impacto mental que teve esse caso. Inclusive, pesou para o jovem Brenner ter sido negociado semanas depois, antes mesmo do término da competição.

A Polícia Militar de São Paulo prendeu 14 torcedores por associação criminosa, dano qualificado, resistência e promover tumulto, e ainda encontrou quatro bombas caseiras próximas do local do ataque que precisaram ser destruídas pelo Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais).

Inicialmente, nove dos 14 integrantes da Independente foram liberados logo no dia seguinte por serem réus primários. Os cinco torcedores organizados restantes tinham antecedentes criminais, mas foram soltos, segundo o advogado Renan Bohus. À Trivela, ele informou que o processo, em segredo de justiça, está em fase de audiência.

Os 14 membros da Independente presos por emboscada ao ônibus do São Paulo em 2021 (Foto: Divulgação/PM)
Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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