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Ousadia e mentalidade: assim Gabriel Milito fez o Atlético-MG ser campeão

Com formação inesperada, mudanças durante o jogo ainda mais surpreendentes e força mental, o Atlético de Milito venceu o Campeonato Mineiro

Terceira formação diferente em três jogos. Calma para jogar. Em certo momento, apenas um zagueiro em campo. E, acima de tudo isso, uma confiança no título que não se perdeu nem quando saiu atrás do placar. Esses foram os pontos-chave do Atlético-MG de Gabriel Milito, que venceu o Cruzeiro, de virada, e se tornou campeão Mineiro neste domingo (7). O treinador explicou em detalhes como fez o Galo levantar a taça mesmo com tantas adversidades.

Gabriel Milito tem apenas duas semanas de Atlético e já soma três jogos e um título. Mesmo com pouco tempo de trabalho, principalmente de treinos, ele conseguiu mudar todo o esquema e a forma de jogo do time, fazendo os jogadores serem campeões por ele. Na decisão deste domingo contra o Cruzeiro, colocou em campo a terceira formação diferente, essa, a mais surpreendente. O argentino optou por tirar Igor Gomes do time e colocar quatro jogadores com poder de marcação no meio-campo: Battaglia, Otávio, Alan Franco e Zaracho. Além disso, manteve dois zagueiros. E ele explicou o porquê disso.

— O primeiro plano de jogo era não jogar com linha de três zagueiros, mas com dois, e mais dois na contenção: Battaglia e Otávio. Para controlar muito bem o interior do Cruzeiro, de um lado Matheus Pereira e do outro o Vital. Saraiva controlando Arthur Gomes e Arana controlando a subida de William. Eles atacam muito no 3-2-2-3, então, com quatro defensores, controlamos os três atacantes e o meio no 4×4, com Otávio e Battaglia x Pereira e Vital, e ainda dois na contenção, com Zaracho e Franco. Era um a mais na defesa e um a menos no ataque — explicou o argentino.

O esquema de Milito chamou atenção, já que o Atlético estava em desvantagem e precisava vencer o jogo para ser campeão. Além da formação, pensando em anular os pontos fortes do Cruzeiro, o argentino explicou que entendia que não podia “sair desesperadamente” em busca da vitória desde o primeiro minuto, pois havia uma partida inteira para jogar.

Tínhamos que atacar, mas também controlar os ataques do adversário. Se atacássemos e não tivéssemos preparados defensivamente, sofreríamos gol no primeiro tempo e isso nos custaria muito mais — concluiu o treinador.

A estratégia de Milito deu certo, em partes, no primeiro tempo. O Atlético não sofreu gol e até criou para abrir o placar, mas não conseguiu concluir corretamente para marcar. Da metade para o fim da etapa inicial, o Galo acabou caindo de produção e isso fez com que o Cruzeiro equilibrasse o jogo e tivesse mais chegadas, aproveitando os espaços da defesa atleticana em contra-ataques.

Atlético com um zagueiro e recuando o Cruzeiro

No segundo tempo, o Atlético acabou sofrendo o baque de um gol do Cruzeiro antes dos 10 minutos, fazendo a situação ficar ainda mais complicada, já que o Mineirão, com mais de 60 mil cruzeirenses e nenhum atleticano, explodiu empurrando a Raposa. Precisando virar o jogo sem nenhum apoio das arquibancadas, o Galo seguiu focado e acreditando no seu potencial, e contou com uma grande ousadia de Milito para buscar a virada.

Pouco antes do gol de empate do Atlético, Gabriel Milito chamou Scarpa, Igor Gomes e Vargas para entrarem em campo. Enquanto eles conversavam com o treinador, Otávio achou Saravia na área e o Galo empatou o jogo. Mas isso não fez Milito mudar de ideia sobre substituições ousadas, pelo contrário. Ele então tirou seus dois volantes de marcação e um zagueiro para colocar dois meias de armação e um atacante. Ou seja, o time atleticano passou a jogar só com um zagueiro de ofício. Mas isso também tem uma explicação.

Assim o Atlético jogou quando empatou com o Cruzeiro

Primeiro, Milito explicou como colocou o time em campo, e porque Scarpa e Igor Gomes entraram do mesmo lado, sendo que jogam, basicamente, na mesma posição: “Depois do gol do Cruzeiro, não necessitávamos mais de um gol e sim dois. Então jogamos com um zagueiro e recuamos Saravia e Arana. Jogamos com Zaracho e Alan Franco mais recuados, para fazer saída de três e dois, com Scarpa e Igor mais a frente, e três “noves” (Hulk, Paulinho e Vargas) contra os três zagueiros. Sentíamos que podíamos atacar mais pela direita e ir, quando era possível, com o Arana pela esquerda, junto a Paulinho e Zaracho”, disse o treinador.

— Assim que empatamos, seguimos com o plano de ser bem ofensivo. E era muito importante finalizar os nossos ataques. Se fossemos interrompidos pela defesa, eles podiam nos contra-atacar. Então, com esse posicionamento, sabíamos que, se mantivéssemos a bola e finalizássemos as jogadas, iriamos colocar o Cruzeiro recuado em seu campo. E tínhamos que fazer isso para conquistar a taça — destacou Milito.

A ideia de Scarpa e Igor Gomes pelo lado direito do ataque, que Milito enxergou ser o mais propício para atacar, surtiu resultado quase que imediato, já que um acionou o outro na área e, desse lance, saiu o pênalti para Hulk virar o jogo. Com isso, o argentino entendeu que era hora de voltar a ter um time mais defensivo, e colocou então os zagueiros Lemos e Rabello em campo, para formar uma nova linha de três – ou melhor, de cinco.

— Deu certo (as primeiras mudanças). Tínhamos que assumir esse risco, sabendo que qualquer contra-ataque podíamos ceder um gol. Assim que viramos o jogo, modificamos, pois a equipe estava com grande desgaste, e assim pudemos armar um 5-4-1 para defender e tentar contra-ataques, como foi o terceiro gol — disse.

Assim como fez em sua apresentação, Milito destacou que, apesar das mudanças táticas, o Atlético não mudou o seu estilo, e é isso que ele mais preza no futebol: “Em cada partida tem que haver um plano. O que não pode mudar é o estilo de jogo. Nós temos que controlar o jogo com a bola e, quando ele estiver com o adversário, recuperar, atacar e fazer o gol. Não necessitamos fazer gol só de jogo elaborado, temos a opção de recuperar e fazer o gol. Por isso, para mim, é muito importante a organização defensiva e a intensidade para pressionar”.

Mais que no tático, o Atlético foi campeão com o mental

Não foi só com a parte tática que o Atlético conseguiu sair do Mineirão com mais uma taça. O que fez diferença, para Milito, foi o mental dos jogadores. Há uma semana, a Trivela questionou o treinador sobre os jogadores terem sentido muito o primeiro gol do Cruzeiro na Arena MRV. Ele afirmou que iria trabalhar, pois é um dos pontos mais importantes no futebol. Em pouco tempo, ele conseguiu fazer os atletas não sentirem mentalmente mesmo quando a Raposa saiu na frente.

Milito revelou que ele e os jogadores acreditavam no título mesmo depois do doído 2 a 2 em casa no primeiro jogo. Ele conversou com os atletas e afirmou que, pela qualidade que eles têm, são capazes de ganharem em qualquer lugar se jogarem como equipe e acreditarem na vitória. Isso foi feito no Mineirão, e deu resultado.

Os jogadores demonstraram ter muito controle emocional para virar o resultado. Não é fácil jogar de visitante contra 60 mil pessoas, sofrer o gol quando não merecíamos, pelo contrário, nós merecíamos fazer. Mesmo assim, a equipe seguiu acreditando na vitória e na conquista — afirmou Milito.

— (O diferencial foi) O convencimento para acreditarem. No futebol, a cabeça joga muito. É fundamental. Se nós, quando sofremos o gol, não continuássemos tentando, não teríamos conseguido. Mas acreditávamos que, se seguíssemos competindo, era possível. Não deixamos de acreditar, e no futebol nunca podemos deixar de acreditar. Não importa o resultado final, o que quero dos meus jogadores é que eles nunca deixem de crer. O resultado será a consequência, mas temos que ter essa mentalidade — afirmou Milito.

Para o treinador argentino, o importante é os jogadores manterem o pensamento de estarem competindo. Com o placar empatado, adverso ou favorável, seguir competindo é a chave para estarem mais próximos da vitória.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick se formou em Jornalismo na PUC Minas em 2021. Antes da Trivela, passou por Esporte News Mundo, EstrelaBet e Hoje em Dia.
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