Um ex-goleiro da Seleção, um italiano misterioso e o novo fim do Araçatuba
por Kaio Esteves
O esforçado e resistente gramado do estádio Adhemar de Barros, o Adhemarzão, envelhece, aos poucos, sentindo saudade de quem pisou ali. É tarde de janeiro de 2015, uma terça-feira, e ainda não há atividades na espaçosa arena, que chegou a abrigar, em seu ápice, mais de 12 mil expectadores. Sem futebol profissional em Araçatuba, o local abriga atividades de atletismo de projetos da Secretaria de Esportes da cidade. Bola na rede, somente nas equipes inferiores da AEA, que ainda sobrevivem na disputa de campeonatos intermediários. A rua dos fundos, que passa atrás da arquibancada numerada e das cabines de imprensa, é a Avenida da Saudade. E só saudade ficou ali.
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O espaço para os narradores está empoeirado, algumas cadeiras estão quebradas e ainda não sabemos quando vamos ver o Adhemarzão lotado de novo. Em meados da década de 90, a Associação Esportiva Araçatuba brigou no escalão de cima do futebol paulista. A mescla de torcedores, organizados ou aposentados, se enfileirava na pequena bilheteria com seus uniformes azuis e amarelos. Na Praça Olímpica, em frente ao estádio, pipoca, cachorro quente, refrigerante às quartas-feiras à noite e aos domingos à tarde.
O canário, mascote da equipe araçatubense, nunca deixou de cantar aqui. Mas vive um momento ruim. Depois de conseguir o acesso à elite do futebol paulista, em 1995, participou da primeira divisão durante cinco temporadas. Foram campapnhas instáveis, mas com grandes momentos, como as vitórias por 1 a 0 sobre o Corinthians, em Araçatuba, e 2 a 0 contra o Santos, ambas em 1996. Destaque para o lateral-esquerdo Garrinchinha, que foi às redes nos dois jogos.
A AEA, que já foi de Neto, Júnior (atual Dorival Júnior), Rodrigo Tabata e outros bons nomes do futebol brasileiro, deixou de existir em 2008, após amargar anos de fracassos dentro de campo e problemas financeiros. Na cidade, as opiniões são unânimes: as más administrações derrubaram o clube.
Quatro anos depois, o clube foi reativado em uma parceria misteriosa e ambiciosa de Waldir Peres, ex-goleiro da seleção brasileira e São Paulo, que tentou reerguer o clube, lançando uniformes novos, organizando peneiras e até contratando jogadores. Apesar disso, a equipe jogou apenas durante um semestre a Segunda Divisão do Campeonato Paulista (equivalente à quarta) e não chegou nem a se classificar para a segunda fase.
Sem dar satisfações, Waldir Peres e sua equipe deixaram a cidade e o clube. O estafe, que chegou até a mudar o símbolo do Araçatuba, deixando-o parecido com o do Parma, argumentava que faltava apoio da prefeitura e da iniciativa privada. Dentro do clube, o boato era que o verdadeiro investidor do clube, um italiano, havia morrido. Sem ele, não havia dinheiro. Em 2013, a AEA, só com apoio da prefeitura, fez uma campanha melhor e terminou a primeira fase em terceiro. Mas, na segunda fase, não conseguiu dar continuidade aos bons resultados e acabou eliminado. Foi a última participação do clube em torneios oficiais.
Até hoje, ninguém sabe se é verdade a história do velho italiano. A única verdade é que, depois de um carnaval organizado pelo ex-goleiro e sua diretoria, o clube voltou ao fundo do poço e continua inativo. A cidade de quase 200 mil habitantes precisa, agora, se contentar com os bons momentos de dois rivais regionais, Linense e Penapolense, sonhando com dias melhores para o clube canarinho.
Kaio Esteves é jornalista, formado pelo Centro Universitário Toledo, ex-repórter do Lance e atualmente repórter do jornal O Liberal Regional e colaborador da Folha de S. Paulo em Araçatuba



