Poucos campeonatos na do futebol brasileiro tiveram ou terão um desfecho tão emocionante quanto o da Série B de 2020. É essa a dimensão do que aconteceu nesta sexta-feira inesquecível na Segundona. e já tinham selado o objetivo principal, o acesso, mas ainda assim fizeram jogos cardíacos na última rodada. Ambos vinham lutando nos detalhes pelo título, afinal. E, por um mísero gol, o troféu seria entregue nas mãos de dentro da Arena Condá. Chape e Coelho terminaram a campanha com o mesmo número de pontos, 73, e o mesmo número de vitórias, 20. A minúcia que favoreceu o Verdão do Oeste foi um gol a mais no saldo, arrancado num pênalti de cavadinha aos 50 do segundo tempo. Insanidade pura.

Jogando por dois resultados iguais ao iniciar a rodada com mais gols marcados, América enfrentava em casa o , que ainda tinha chances de subir. Durante quase todo o tempo, o time de Lisca ficou com a mão na taça. Matheus Cavichioli pegou um pênalti no início e a vitória se desenhou cedo no Independência. Já na Arena Condá, o não tinha mais responsabilidades na tabela e deu mais trabalho à Chapecoense. Chegou a empatar no início do segundo tempo e, em certo momento, fez o Verdão do Oeste precisar de três gols. Eles vieram. Primeiro em BH, com o Avaí diminuindo a conta do América para 2 a 1. Depois, da própria Chape, retomando a vantagem contra os azulinos. E quando tudo parecia impossível, quando um gol anulado atrapalhava os planos do Verdão, o inimaginável se concretizou nos acréscimos. A Chapecoense ganhou um penal, Anselmo Ramon foi herói com sua atrevida cavadinha e a vitória por 3 a 1 valeu o inédito feito aos catarinenses. Mais um motivo para deixar gravada a campanha excepcional do time de Umberto Louzer.

Quando a bola rolou, a briga pelo título precisou de pouquíssimos minutos para injetar máxima emoção nos dois jogos paralelos. A Chapecoense abriu o placar aos três minutos. Mike acionou Denner, que fez o cruzamento para Anselmo Ramon guardar. E o drama do América Mineiro parecia maior no Independência, quando o Avaí ganhou um pênalti a seu favor segundos depois. Getúlio caiu na área e a arbitragem foi na dele para apontar a marca da cal. Exatamente neste momento de provação, a sorte até pareceu sorrir ao Coelho.

Matheus Cavichioli foi um dos principais jogadores do América na temporada. O goleiro pegou a penalidade cobrada por Alemão, acertando o canto. A defesa motivaria o Coelho, que partiu para a pressão e abriu o placar logo aos sete minutos. Alê ajeitou para trás e Rodolfo pegou na veia para balançar o barbante. Neste momento, com os placares igualados, o título ia para os mineiros. A equipe de Lisca seguiu melhor e ampliou a margem aos 22, num chute de fora de Ademir, que entrou no cantinho da meta de Glédson.

O América seguiu mais ativo no ataque, mas também precisou contar com mais uma boa defesa de Matheus Cavichioli em tentativa de Renato. Rodolfo ainda poderia ter anotado em terceiro do Coelho. Já na Arena Condá, a Chapecoense continuava tentando ampliar. Denner chegou a carimbar a trave aos sete minutos. O Confiança demorou a criar chances claras e sua maior ameaça aconteceu às portas do intervalo, com Serginho parando no goleiro João Ricardo. Neste momento, a Chape precisaria de mais dois gols – dela ou do Avaí.

A situação ficou mais difícil para a Chapecoense no início do segundo tempo. Reis aproveitou o cruzamento de Altemar e mandou de cabeça para as redes, empatando para o Confiança aos nove minutos. O América não diminuía o ritmo no Independência, mas a esperança renasceu ao Verdão do Oeste quando o Avaí também descontou aos 16. Iury acertou um ótimo cruzamento, para Getúlio cabecear e marcar. O detalhe é que a posição do atacante avaiano parecia duvidosa. O Coelho sentiu o gol, sem exercer o mesmo domínio de antes. Já a Chape precisava crescer, ainda faltando dois gols em sua conta.

De volta à Arena Condá, o azulino Alyson desperdiçou uma chance claríssima diante do goleiro João Ricardo, no que poderia ser o gol da virada do Confiança. E a Chapecoense ressuscitou instantes depois, ao retomar a vantagem aos 33. Anselmo Ramon descolou um ótimo cruzamento rasteiro e Perotti chegou de carrinho para marcar o segundo tento da equipe. O Verdão do Oeste voltaria a depender novamente de um gol, seu ou dos avaianos. Matheus Ribeiro e Alan Santos ficaram no quase para a Chape. Já aos 41, Perotti fez aquele que parecia ser o gol do título para a Chapecoense. Parecia, já que o tento seria anulado também por um impedimento mínimo e duvidoso.

O América sentia o drama no Independência. A equipe passou a abusar dos erros e, quando Ademir poderia anotar o terceiro aos 43, mandou por cima do gol. Como se não bastasse, o Avaí ainda botou pressão nos acréscimos pelo empate. Messias precisou salvar uma bola venenosa na área do Coelho. O jeito para os mineiros era torcer pelo Confiança. Perto dos 45 minutos, Ari Moura teve dois bons lances pelos azulinos na Arena Condá, mas parou em João Ricardo na primeira e mandou para fora logo depois. E no momento em que o apito final soou em Belo Horizonte, o apito também ressoaria em Chapecó. A arbitragem marcou um pênalti para a Chapecoense.

Bruno Silva foi atropelado dentro da área. Pênalti claro. Anselmo Ramon assumiu a cobrança e, se convertesse, faria o gol do título da Chape. O atacante não foi frio na batida, e sim gelado: chutou de cavadinha para vencer o goleiro Rafael Santos e fazer a bola acariciar as redes. Era o terceiro tento do Verdão do Oeste, o definitivo. Em BH, os jogadores do América viam incrédulos as imagens de Santa Catarina, num tablet à beira do campo. Já na Arena Condá, uma confusão tomou o gramado durante a comemoração. Denner acabou expulso. Todavia, mal houve tempo para a bola rolar novamente. A festa poderia rolar sem mais amarras em Chapecó.

A Chapecoense conquista seu primeiro título nacional. O clube havia sido vice-campeão da Série B em 2013, além de terminar em terceiro na Série C de 2012 e na Série D de 2009. O feito é gigante, a um clube que atravessou percalços na temporada, incluindo a morte do presidente Paulo Ricardo Magro por COVID-19. Apesar disso, o time manteve sua competitividade em campo e fez uma campanha exemplar na Segundona. O América também merecia a taça, mas numa corrida cabeça a cabeça, a Chape venceu por um fio de cabelo. A emoção nesta última rodada certamente valoriza mais o troféu. Alan Ruschel, capitão e sobrevivente do acidente aéreo de 2016, teve o gosto de erguer a taça ao lado do zagueiro Neto. Simbólico a uma Chape que adorava dobrar o impossível na Sul-Americana e revive essa sua identidade, numa nova noite mágica à Arena Condá.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore