Lado B de Brasil

O Remo venceu o Re-Pa estratosférico e terminou a noite nas nuvens: depois de 14 anos penosos, enfim volta à Série B

Remo e Paysandu se prepararam ao domingo mais importante da rivalidade em duas décadas. Sabiam das dimensões que o Re-Pa decisivo da Série C tinha, no chamado “Jogo do Século”, para um clássico que completou seu embate de número 759. É possível que os dois gigantes paraenses subam à segundona, mas apenas um deles poderia ter a honra de vencer um duelo de tamanhas proporções, o que significaria um passo enorme ao acesso – e mais importante, afinal, o direito de recontar esta história vitoriosa sobre os rivais por todo o sempre. Por fim, o Mangueirão recebeu mesmo um duelo titânico como tão aguardado, com um jogaço para ser gravado em letras douradas. Uma vitória épica do Remo, que segurou o triunfo estratosférico por 1 a 0 e terminou a noite no mais alto céu, no que também pôs fim ao longo pesadelo de sua torcida: depois de 14 longos anos, em que os remistas dependeram mais do que nunca de seu amor, especialmente quando estiveram sem divisão, o Leão volta à Série B.

O Re-Pa do Século não poderia ser um ponto de chegada mais significativo a uma história que é, sobretudo, de dedicação de uma torcida. Quando o Remo sofreu o rebaixamento na segunda divisão em 2007, a Série D sequer existia. Os remistas certamente não tinham noção da caminhada pelo deserto que aquele descenso significaria. O Leão passou longe de brigar pela permanência na segundona naquele ano, mas ainda vivia um momento de domínio local com o título no Campeonato Paraense de 2007. O bicampeonato no Parazão pintaria em 2008, mas o desempenho na última edição mastodôntica da Série C foi fraco, com um irrisório 28° lugar que viu os remistas na lanterna de seu grupo na segunda fase – atrás de Rio Branco-AC, Luverdense e Holanda-AM. A partir de então, começou o desengano.

Em 2009, o Campeonato Paraense deixou de ser apenas uma porta às conquistas, mas virou também uma tábua de salvação. O Remo aprendeu na marra como precisava ir bem no estadual para ter um ano completo, para não se ausentar da Série D, para não ver suas finanças suprimidas pela falta de futebol nacional. Pois foi o que aconteceu, logo no primeiro ano. A terceira colocação no Parazão, abaixo do São Raimundo, viu o clube de Santarém ser o único representante do estado numa edição inaugural mais enxuta da quarta divisão. Os remistas pareciam viver numa realidade paralela, em que meses bastaram para um apequenamento inimaginável de um clube de massa. E que colocaria em xeque o planejamento de uma década, praticamente.

O que não diminuiu, em contrapartida, foi a entrega do torcedor pelo Remo. Pelo contrário, era necessária uma abnegação ainda maior e um amor incondicional pelo Leão. Foram anos muito difíceis aos azulinos em Belém, mesmo que o Paysandu também não vivesse a bonança de outrora. A ausência dos remistas no Brasileirão era o suficiente à chacota. Mais do que isso, o clube precisava de sua torcida para se sustentar. A massa era o patrimônio que restava a uma agremiação sofrendo com os péssimos resultados, e que não conseguiria sair tão cedo na lama, no inferno que a Série D representa aos grandes que por lá passam.

O Remo teria sua primeira chance na Série D em 2010, depois de mais uma terceira colocação no Paraense. Aprendeu logo cedo como a missão era difícil, ao cair logo no início dos mata-matas para o Vila Aurora. O time de Mato Grosso passou com dois empates, graças ao mísero gol fora em Belém. A oportunidade de se redimir não viria em 2011, com mais um terceiro lugar no Parazão, desta vez não valendo a presença na quarta divisão. E em 2012, quando o Leão perdeu a final do estadual para o Cametá, houve um alegado acordo de bastidores para que o campeão abrisse mão de sua vaga na Série D. Nem isso adiantou para os azulinos, com a empreitada encerrada nas oitavas para outro mato-grossense, agora o tradicional Mixto.

Nestes tempos de incerteza, as receitas do Remo se encolhiam e a grande provisão do clube era mesmo a fé de sua torcida. Eram as arquibancadas lotadas do Mangueirão e o comprometimento de auxiliar o clube de alguma forma, mesmo que o time em campo continuasse maltratando o coração. As dívidas aumentavam, os remistas encaravam problemas de gestão. Diretorias gastavam um dinheiro que não tinham, para tentar montar um time forte o suficiente para encerrar o martírio, mas acabavam aumentando a bola de neve. E a ausência na Série D se repetiu pela terceira vez em 2013, quando o Leão mais uma vez foi terceiro no Paraense, sem conseguir apelar à vaga que ficou com o Paragominas.

O ano de 2014 seria importante para preencher o Remo de esperanças. Depois de seis anos em jejum, os azulinos reconquistaram o Campeonato Paraense. Ainda não levariam a Série D, superados pelo Brasiliense nas oitavas, mas a espera se aproximava do fim. O desterro se encerrou, de fato, em 2015. Primeiro, o Leão celebrou o bicampeonato estadual. Depois, seria vice da Copa Verde, eliminando o Paysandu na semifinal – embora a reviravolta do Cuiabá na decisão seja uma lembrança que o remista prefira esquecer. Por fim, depois de sete anos, o acesso não escapou na quarta tentativa dentro da Série D. Superada a barreira nas oitavas, contra o Palmas, o acesso aconteceu diante do Operário Ferroviário. Após a vitória já em Ponta Grossa, como havia de ser, uma multidão lotou o Mangueirão. O fim do calvário, o desabafo de uma torcida cansada, o ato de amor que finalmente resultou em apoteose. O Remo dirigido por Cacaio e liderado por Eduardo Ramos venceu por 3 a 1. Subiu, enfim.

Não levar a taça da Série D em 2015, com a eliminação para o Botafogo de Ribeirão Preto na semifinal, não seria um problema. O Remo voltava à terceira divisão nacional com expectativas de um crescimento mais sustentável e sem mais precisar jogar sua sorte a cada edição do Campeonato Paraense. Apesar da quarta colocação no estadual em 2016, os azulinos fariam campanhas mais regulares no Parazão depois disso. E teriam a certeza de um calendário cheio a cada ano, enquanto se mantivessem na Série C. Mas não foi de imediato que a terceirona representou um horizonte maior, com uma sequência de desempenhos modestos. Em suas quatro primeiras participações nesta retomada, o Leão não passou da primeira fase.

Bater na trave foi uma constante ao Remo na Série C. A primeira prova que as dificuldades não cessariam aconteceu em 2016. O Leão liderou seu grupo, mas despencou na reta final e deixou a vaga nas quartas escapar. O mesmo aconteceu no ano seguinte, desperdiçando o lugar nos mata-matas no último jogo, contra o Salgueiro. Depois, em 2018, o time sequer competiu pela classificação com um início de campanha ruim. Já em 2019, a eliminação mais dolorosa aconteceu exatamente no Re-Pa da última rodada. Os azulinos saíram em vantagem, mas permitiram o empate e acabaram despachados pelos próprios rivais, que seguiram em frente. Ao menos, Leandro Vuaden faria com que o fim de ano remista não fosse de todo frustrante, depois que o Papão perdeu o acesso contra o Náutico.

Eis que chega 2020, um ano desafiante a qualquer clube das divisões de acesso. Mais consolidado, o Remo ganhava novas perspectivas com a reforma do Baenão. Entretanto, voltou a depender do apego de sua torcida em tempos de pandemia. Sem que o Mangueirão pudesse lotar novamente, o comprometimento teria vir de outras maneiras, com engajamento e apoio, para que o Leão atravessasse mais um período de dificuldades. Apesar de todos os pesares, exatamente por ser um clube de massa, os azulinos conseguiram lidar com as limitações. E veriam a longa espera pela Série B se encerrar.

A perda do tricampeonato estadual, em sequência de títulos que não se vive desde os anos 1990, ofereceria um bom prólogo – apesar do amargor. Com duas derrotas nas finais, o Remo veria a taça acabar nas mãos do Paysandu, hegemônico nos clássicos recentes. Guardaria sua vingança para o momento mais importante, a Série C. Logo no reencontro, em outubro, o Leão conquistou uma vitória emblemática. Ganhou a partida por 3 a 2, com um belo gol de Wallace aos 44 do segundo tempo. Pôs fim ao jejum azulino de dez partidas contra os rivais e ainda garantiu a liderança do Grupo A.

O Remo virava sua sorte na Série C naquele momento. O clássico foi a segunda partida de Paulo Bonamigo à frente dos azulinos, após a demissão de Mazola Júnior. O treinador voltava ao clube com o qual conquistou o acesso à Série A em 2000, sobre o próprio Paysandu, apesar da virada de mesa que prejudicou os paraenses. O veterano ajeitou um forte sistema defensivo, contou com um ataque veloz e viu seu time ganhar sequência. Os azulinos se manteriam na zona de classificação e, mais importante, não sucumbiriam nos confrontos diretos, como nas campanhas anteriores. Houve até uma desconfiança na reta final, mas a vitória sobre o Manaus encaminhou a passagem à segunda fase, com o novo Re-Pa da última rodada terminando num 0 a 0 que beneficiou ambos os clubes. Por tabela, o resultado também colocou os paraenses no mesmo grupo da etapa seguinte, já prevendo o Re-Pa do Século.

No quadrangular decisivo da Série C, o Remo estreou com o empate sem gols com o Londrina. O primeiro duelo com o Paysandu aconteceu na segunda rodada. E provou como a paternidade recente no clássico realmente havia mudado de lado, graças à vitória por 3 a 1. O Papão saiu em vantagem, mas uma expulsão ainda no primeiro tempo ruiu o time. Salatiel, Augusto e Rafael Jansen anotaram os gols do Leão, que deixou no segundo tempo a impressão de que poderia ter construído uma goleada. O acesso já ficou na mira na rodada seguinte, com a vitória por 2 a 1 sobre o Ypiranga em Belém. Porém, a derrota por 2 a 1 em Erechim retardou os planos. Melhor assim, provavelmente pensam hoje os remistas. Afinal, de certa maneira, foi esse revés que aumentou a temperatura do Re-Pa do Século.

O Paysandu encostou no Remo antes do clássico deste domingo. Não apenas chegou aos mesmos sete pontos, como também poderia assegurar o acesso automático se vencesse, sem depender de outros resultados. O Leão ficaria a um triz de subir com o triunfo, mas ainda precisaria esperar o Londrina x Ypiranga de horas depois para a festa ser completa. Os remistas só não tiveram que esperar para fazer história, conscientes de sua missão. E assim cumpriram no Mangueirão, com a vitória por 1 a 0 que ficará eternizada. O nome do goleiro Vinícius, em especial, permanece gravado em definitivo na lista dos grandes ídolos azulinos.

Uma pena que o Mangueirão não pudesse estar lotado, como de costume nos clássicos e como um Re-Pa dessa magnitude pedia ainda mais. Em campo, pelo menos, os dois rivais fizeram valer o tamanho da história, por todas as emoções. Num clássico tenso como haveria de ser, o Remo tomou o domínio do jogo aos poucos. Começou a crescer e a criar chances até o golpe fatal, aos 35 minutos do primeiro tempo. Numa cobrança de falta, Gedoz soltou a pancada do meio da rua e o goleiro Paulo Ricardo espalmou. A bola, viva dentro da área, ficou pronta para Salatiel se consagrar. E o atacante talvez nem tivesse noção do peso de seu tento quando fuzilou para as redes, determinando a vantagem – que logo se transformaria em vitória.

Antes disso, porém, o Remo teria que aguentar outras provações. E, quando o Paysandu pressionava no fim do primeiro tempo, ficou mais claro que a sorte sorriria ao Leão. Já nos acréscimos, um lance inacreditável safou os remistas do empate. Lucas Siqueira apareceu embaixo dos paus para salvar a cabeçada de Nicolas. Como se não bastasse, Wesley Matos ainda carimbou a trave de Vinícius no rebote. Os azulinos respiravam aliviados, embora os 45 minutos finais guardassem outros testes ao coração. O Papão voltou com duas alterações e partiu para cima. Mais recuado, o Remo dependeu de seu goleiro para segurar o triunfo na unha e ficar no aguardo do retorno à Série B.

Se Vinícius conseguiu se eleger vereador no último pleito municipal, talvez fosse unanimidade entre os remistas caso as eleições para prefeito de Belém acontecessem nas horas seguintes ao Re-Pa do Século. Os azulinos dariam não apenas a chave da cidade ao ídolo, mas também as chaves de suas próprias casas, tamanha confiança no herói. É a fé do torcedor do Remo que está bem guardada nas mãos de Vinícius. E isso começou a se provar logo nos primeiros minutos do segundo tempo, quando o goleiro realizou sua primeira grande defesa, ao espalmar a tentativa perigosíssima de Micael.

Vinícius estava tão inspirado sob as traves do Remo que, logo depois, faria milagre até em fogo amigo. Rafael Jansen evitou o arremate de Nicolas, mas ia mandando a bola contra o próprio patrimônio. O guardião azulino realizou uma intervenção sensacional, no contrapé, que salvou o companheiro e os torcedores cardiopatas. As alterações de Paulo Bonamigo não ajudaram tanto assim o Leão e o Papão mantinha seu abafa na base da vontade. Quando Salatiel poderia ter relaxado um pouco mais a situação, aos 28, seu segundo gol acabou anulado por falta. Era pra ser no sufoco, roendo as unhas. Era pra deixar aquela vitória mais impregnada na memória.

Vinícius apareceu pela terceira vez de maneira decisiva aos 38. Jefinho cabeceou firme, consciente, mas encontrou do outro lado um paredão. O goleiro-vereador estava em cima da linha e conseguiu rebater uma bola bastante difícil. Na sobra, Uilliam não aproveitou. O desespero do Paysandu se arrastava e o tempo se tornava cada vez menor para que o remista finalmente soltasse seu grito. Antes disso, nos acréscimos, precisou prender a respiração quando Nicolas não alcançou um cruzamento na área e Vinícius abafou Diego Matos no último suspiro. Depois de infindáveis minutos extras, acabou. Era mesmo pra ser. Nenhum remista gostaria de viver os 14 anos de penúria, mas a luz no fim desse túnel não poderia ser mais bela, pelo tamanho da ocasião e pelo nível da emoção. O épico terminava de ser escrito, ainda que faltassem mais algumas linhas.

O Remo precisaria ficar ligado no que aconteceria em Londrina. E a certeza de que domingo era o dia tão esperado veio logo cedo, com o gol do Ypiranga que abriu o placar no Estádio do Café. O Londrina até empatou, mas viu seu goleiro ainda pegar um pênalti no segundo tempo. De qualquer maneira, o placar de 1 a 1 bastava ao Remo. Já não havia mais riscos de qualquer desastre. O Leão rugia mais alto, confirmado na Série B de 2021. Vai cumprir tabela na última rodada, com chance de atrapalhar a vida do próprio Paysandu, embora neste momento pareça muito mais importante manter o alto nível para avançar à final e buscar o título nacional que não vem desde 2005.

Este time do Remo está gravado na história do clube. Vinícius, Salatiel, Jansen, Wallace, Gedoz e outros nomes serão lembrados com muito carinho. Eduardo Ramos, mesmo reserva na decisão, teve momentos importantes na campanha e aumenta sua representatividade ao se tornar o principal elo com 2015. Bonamigo, por sua vez, remonta à alegria de 2000. Mas o azulino sabe que o protagonista dessa história é mesmo sua dedicação, sua paixão, de quem não abandonou o clube um momento sequer. Dos anos sem divisão, que ecoavam na cabeça do remista, agora é a vitória deste domingo que vira um zunido na cabeça do bicolor. Ainda que o acesso de ambos deva ser importante para que possam se alavancar juntos e fortalecer o futebol do Pará como um todo – beneficiado também com o retorno da Tuna Luso à elite estadual.

A Série B ainda não é o máximo que o Remo merece por sua grandeza e por essa história de 14 anos, mas representa bastante no Baenão. É a garantia de um calendário ainda mais completo e de receitas maiores para a estabilidade do clube. É a possibilidade de que, quando os portões dos estádios forem reabertos, a torcida lote as arquibancadas para ver as glórias – e não mais para sustentar o clube em meio às penúrias, em atos tanto de apego quanto de generosidade. É o sonho um pouco mais vivo de que o Leão retorne à elite nacional, como em seus melhores tempos. Seria o desfecho perfeito à caminhada que azulino nenhum queria, por todo o sofrimento, mas que, em suas linhas tortas, exibiu como o maior patrimônio do Remo é sua torcida.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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