Lado B de Brasil

O Mirassol provou que o Paulistão histórico não foi acaso e conquistou o acesso na Série D com uma grande campanha

Quando a paralisação do futebol por causa da pandemia foi confirmada, o Mirassol parecia mais um dos tantos clubes brasileiros à mercê da incerteza. O forte elenco montado para o Campeonato Paulista se desmanchou entre abril e maio, com o contrato de 18 dos 28 atletas chegando ao fim. O Leão da Alta, porém, conseguiu se reinventar numa campanha que já era bastante positiva para alcançar as semifinais do Paulistão, deixando o São Paulo pelo caminho. E os auriverdes mostraram também na Série D, com um novo redirecionamento do projeto, que aquele sucesso não foi ao acaso. Neste sábado, pela primeira vez, o Mirassol conquistou o acesso em uma competição nacional. Derrotou a Aparecidense numa emocionante virada por 3 a 2 e premiou o excelente trabalho realizado no clube, agora sob a batuta de Eduardo Baptista.

O planejamento realizado pelo Mirassol para o início de 2020, quando não se imaginava o impacto da pandemia, pensava no Paulistão. O Leão da Alta aproveitou o orçamento gordo garantido pelos direitos de transmissão da primeira divisão estadual para montar uma equipe repleta de figurinhas carimbadas, com jogadores que possuíam no currículo passagens pela Série A e pela Série B do Brasileirão. Foi com o elenco estrelado pelo meia Camilo que os auriverdes encaminharam a classificação aos mata-matas do Paulista. Ainda assim, aguardava-se o que aconteceria no torneio para os próximos passos serem traçados, mesmo com a participação na Série D já garantida no segundo semestre.

A pandemia forçou o Mirassol a reformular suas ideias. Diante da incerteza, o Leão da Alta não pôde renovar com seus medalhões e começou a pensar na Série D durante a paralisação dos campeonatos, enquanto seu elenco treinava à distância. O técnico Ricardo Catalá coordenaria o trabalho neste momento, com reforços mais modestos pensando na quarta divisão do Brasileirão e o aproveitamento das categorias de base. Poucos titulares do início do Paulista ficaram, em renovações pontuais. Neste momento, ajudou a qualidade das estruturas dos auriverdes, com um moderno centro de treinamentos onde alguns atletas preferiram ficar alojados mesmo sem contrato, onde mantinham a forma esperando uma nova oportunidade em outros clubes.

Foi assim que o Mirassol, afinal, chegou para encarar o São Paulo e conseguiu o impensável ao eliminar os favoritos. O atacante Zé Roberto, que fez um contrato temporário enquanto trabalhava para manter a forma no CT do Leão, virou o carrasco dos tricolores – e depois sairia rumo à Ponte Preta. Por vias inesperadas, as decisões tomadas no interior deram certo. O investimento no início do estadual facilitou a classificação e a remontagem apresentou um time de caráter, que soube encarar o desafio nos mata-matas mesmo com a queda para o Corinthians nas semifinais. Com mais ajustes e novos reforços, os auriverdes pareciam capazes de encarar o desafio na Série D do Brasileirão.

O Mirassol teve mais de um mês para se preparar, entre o final do Paulistão e o início da Série D. A diretoria não conseguiu segurar o técnico Ricardo Catalá, grande responsável pelo impacto no estadual, que assumiria o Guarani no meio da Série B – e não duraria tanto assim no Brinco de Ouro da Princesa. De qualquer maneira, o Leão da Alta realizou uma aposta grande para o comando, ao trazer Eduardo Baptista à quarta divisão nacional. Demitido pelo CSA numa sequência de resultados ruins na Série B provocada por um surto de coronavírus, o treinador chegou apontando para um projeto de médio prazo no Campos Maia, fugindo da instabilidade nas principais divisões. Também propunha um futebol mais ofensivo e vertical aos auriverdes.

“Sou utópico e sonhador. Sonho com um futebol que seja como o Mirassol, que você possa montar um time e desenvolver um trabalho com planejamento. A partir disso você pode desenhar a filosofia, dar oportunidade a jovens e mesclar jogadores experientes. Neste momento, nos mercados das Séries A e B, é mais uma competição por resultado do que pelo futebol. Desejava há muito tempo fazer o futebol como ele tem de ser, não assumir uma equipe pensando apenas em vencer e não poder trabalhar, planejar. As duas partes se identificaram demais. Precisamos montar uma equipe, mas era tudo o que eu imaginava”, declarou Baptista, em sua apresentação.

Do time que derrotou o São Paulo no Campeonato Paulista, quatro jogadores permaneceram como nomes frequentes do Mirassol na Série D: o zagueiro Danilo Boza, o lateral Moraes e os volantes Alison e Eduardo. Muitos atletas acabaram aceitando propostas de clubes das divisões maiores e deixaram os auriverdes. Em contrapartida, o Leão da Alta se reforçou bastante ao longo da preparação à quarta divisão, buscando especialmente jogadores de Série B e Série C que não andavam encontrando tantos espaços em suas equipes. Um exemplo é o atacante Fabrício Daniel, que brilhou na Série A-3 com o Noroeste, mas não emplacou no Cuiabá. Outro é o meia Cássio Gabriel, trazido do Botafogo da Paraíba. Assim, com várias novidades, os remanescentes do jovem elenco que fez barulho no Paulista parecia mais encorpado para almejar também o acesso à terceirona do Brasileiro.

O Mirassol partiu com uma boa campanha no Grupo A7, dentro do formato ampliado da Série D. Foram sete vitórias e só duas derrotas nas 14 rodadas da chave, com um excelente aproveitamento de 90% dos pontos como mandante. O Leão da Alta ficou atrás da líder Ferroviária, mas conquistou a classificação num grupo de bom nível, no qual Cabofriense e Cascavel também avançaram aos mata-matas. Os auriverdes já tinham o segundo melhor ataque e a sétima melhor defesa entre os 64 participantes da fase de classificação, o que indicava as boas condições do time de Eduardo Baptista. A diretoria também aproveitou o avanço para levar mais alguns reforços à reta final, num elenco que dava mostras de sua consolidação. O atacante João Carlos, que estava na Série C com o Volta Redonda, foi uma das novidades. Ainda assim, o caminho nos mata-matas seria bastante duro com os paulistas.

Nos 16-avos de final, o Mirassol encarou o Caxias, que também fez um estadual louvável e terminou como vice-campeão gaúcho em 2020. Foram dois embates apertados. Na ida, o Leão da Alta saiu até satisfeito com a derrota por 1 a 0 no Centenário, considerando as chances dos anfitriões e a expulsão de Daniel no início do segundo tempo. Já no reencontro dentro do Campos Maia, o Mirassol conseguiu dar o troco e venceu também por 1 a 0. Os donos da casa foram superiores e criaram oportunidades para mais, mas o gol de João Guilherme no primeiro tempo já valeu a definição nos pênaltis. Então, a precisão dos paulistas foi muito maior na marca da cal, com a vitória por 3 a 0.

Passando às oitavas, o Mirassol teria outra pedreira pela frente: o Brasiliense, time de melhor campanha na fase de classificação e com uma coleção de medalhões à disposição no elenco – incluindo Zé Love, artilheiro do campeonato. Disputar a primeira partida em casa não foi uma desvantagem ao Leão da Alta, que aproveitou o compromisso no Campos Maia para golear por 4 a 0. Apesar de alguns lances perigosos do Brasiliense no início, os paulistas não demoraram a construir o placar. O artilheiro Fabrício Daniel anotou o primeiro aos 18, com o goleiro Jeferson também evitando o empate do outro lado. Já na segunda etapa, Fabrício completou sua tripleta, em placar que ainda contou com um tento do lateral Moraes. Na volta, o Mirassol ainda aproveitou os contragolpes para abrir o placar, em derrota por 2 a 1 que não atrapalhou.

Por fim, a decisão do acesso nas quartas de final aconteceu contra a Aparecidense, que só entrou na Série D por conta da desistência do CRAC e mesmo assim acumulou bons resultados na competição nacional. Os goianos vinham com uma campanha superior e, por isso, a primeira partida aconteceu no Campos Maia. O Mirassol conseguiu manter a invencibilidade em casa, com a nona vitória em dez partidas como mandante na Série D. O triunfo por 2 a 1, todavia, dependeu do poder de reação dos comandados de Eduardo Baptista. A partir de um erro do goleiro Jeferson na saída de bola, Rodriguinho abriu o placar aos visitantes logo aos dois minutos. Jeferson precisou se redimir na sequência do jogo, com boas defesas. Somente no segundo tempo o Leão respondeu, com o empate arrancado por um gol contra. Já no fim, diante da pressão dos paulistas, João Carlos decretou a vitória. Apesar disso, o duelo seguiu aberto até os últimos suspiros, com boas chances aos dois lados.

Com a vitória, o Mirassol partiu com a vantagem do empate para o reencontro em Goiás. Apesar disso, o Leão da Alta não se acomodou e viveria um épico para buscar sua segunda vitória como visitante nesta Série D. Foi um jogaço no Estádio Annibal Toledo, em que os paulistas conseguiram lidar com a desvantagem numérica e aproveitaram muito bem seu banco de reservas para a reação que culminou no triunfo por 3 a 2. Eduardo Baptista provou o tamanho do acerto em sua contratação, ao fazer a diferença no resultado.

O primeiro tempo no jogo decisivo seria da Aparecidense. O Camaleão abriu o placar aos 19 minutos, numa cabeçada de Alex Henrique. Além disso, por mais que o goleiro Tony tenha evitado o empate, os goianos apresentaram mais volume de jogo e criaram mais chances. Negueba poderia ter ampliado antes do intervalo e o goleiro Jeferson também trabalhou. Para o segundo tempo, então, Eduardo Baptista resolveu realizar três alterações logo na volta do intervalo e mandou o time para frente. Deu resultado. Logo os paulistas começaram a melhorar e pareciam mais prontos ao empate.

A reviravolta, de qualquer maneira, dependeu de mais uma troca do Mirassol. Aos 23 minutos, Eduardo Baptista tirou o volante Daniel e colocou o atacante Lucas Silva. O jogador trazido do Vila Nova no meio da campanha, por fim, se transformaria em herói do acesso. A situação até parecia piorar ao Leão da Alta, com a expulsão de França três minutos depois da mudança, ao dar um carrinho no goleiro Tony e receber o segundo amarelo. Porém, o Mirassol estava bem e empataria logo aos 28. Lucas Silva cruzou e Vinícius apareceu para encher o pé às redes. Os paulistas seguiram em cima e viraram aos 33. Agora, o atacante João Carlos armou o contra-ataque e lançou Lucas Silva, para o substituto apenas tirar a bola do goleiro Tony.

A Aparecidense só voltou a acordar neste momento e, em meio à pressão, empatou novamente com Marcos Paulo aos 43. Os goianos precisavam ainda do terceiro tento para forçar os pênaltis, mas não teriam sucesso na empreitada e permitiriam o gol que sacramentou a festa do Mirassol. Lucas Silva, sempre ele, sofreu pênalti. João Carlos (outro a entrar na segunda etapa) converteu a cobrança e selou o acesso heroico dos paulistas. A recompensa maior pela temporada especial estava concretizada ao Leão da Alta. Agora, nas semifinais, os auriverdes podem almejar um título nacional inédito.

O Mirassol vai disputar a Série C pela terceira vez em sua história, após figurar na terceirona nacional em 1995 e 2008. Nas outras ocasiões, porém, o Leão da Alta não havia conquistado o acesso. No atual formato das competições nacionais, a Série C concede um calendário ainda mais cheio ao clube e um planejamento que se torne concomitante ao Paulistão, com receitas maiores. O projeto prometido por Eduardo Baptista ainda no início parece ter mais condições para se sustentar. Além disso, os auriverdes podem usufruir de sua estrutura excelente para atrair mais jogadores. Neste momento, os horizontes se abrem ao Mirassol. Num ano que se prometia dificílimo a qualquer clube das divisões de acesso, os paulistas conseguiram se reinventar e parecem firmes para passos ainda maiores nos próximos anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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