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O estadual que ninguém viu por protesto é o mesmo que lotou o estádio em Rio Grande

A história mais contada do Campeonato Gaúcho neste final de semana aconteceu em São Leopoldo. E com razão. Aimoré e Internacional jogaram para arquibancadas vazias, diante do protesto feito por ambas as torcidas. A diretoria dos anfitriões cobrava, no mínimo, R$ 100 por ingresso – em estádio que ainda estava parcialmente fechado pelo Corpo de Bombeiros. Se não havia gente, o estádio acabou ocupado por um manequim, símbolo maior da insatisfação com o valor. Enquanto isso, os torcedores se manifestavam do lado de fora, com faixas reclamando do “roubo” imposto pelo valor.

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No mesmo dia, o estádio Aldo Dapuzzo vivia um clima completamente oposto. O palco em Rio Grande recebia o duelo entre São Paulo e Novo Hamburgo. Pouca atratividade para um duelo de times de fora da capital, que sequer são rivais? Longe disso. As arquibancadas estiveram cheias para ver a vitória da equipe da casa por 1 a 0. Embora o borderô não tenha sido divulgado pela federação gaúcha até o momento, as estimativas apontam que entre cinco e seis mil torcedores estiveram presentes no estádio para o embate. E isso porque o valor da inteira nem estava tão barato assim: R$ 30 até a véspera e R$ 40 no dia da partida.

Os campeonatos estaduais têm os seus problemas. Vários. Mas a maioria absoluta causada por quem os organiza. Este final de semana, por exemplo, contou com um festival de desmandos contra os torcedores. Chegamos ao absurdo de menores de idade serem proibidos de ir ao jogo entre Mogi Mirim e XV de Piracicaba, “para garantir a integridade de crianças e adolescentes”, segundo o juiz que tomou a decisão. Neste contexto, as imagens de Rio Grande servem de alento. E, embora sirvam de retrato para este texto, nem são tão raras assim nos estados mais populosos. Como propôs o amigo e jornalista Yuri Casari, na conversa que provocou este texto, costuma ser mais fácil ver a grande mídia falar dos fracassos de público do que dos sucessos – também com seus interesses em primeiro plano.

Os estaduais podem ser um fardo para os clubes. Mas não para todos, como a torcida do São Paulo-RS ajudou a representar neste domingo. Obviamente, a discussão sobre as estruturas se faz muitíssimo válida, especialmente para a adequação do calendário dos clubes que disputam a elite do futebol nacional. Do jeito que está, o estadual não é rentável para a maioria dos grandes, bem como não é atrativo para os seus torcedores. Ainda assim, continua primordial para outros tantos times de menor porte. Valorizado por uma torcida que aguarda o ano inteiro por míseros meses de paixão – e, aqui, falo com conhecimento de causa de quem torce para um clube da terceira divisão paulista.

O fim dos estaduais pode ser o caminho para a extinção de dezenas de clubes de tradição no Brasil, como os cartolas gostam de bradar. Mas a manutenção da atual estrutura também é extremamente prejudicial para a maioria e já leva muitos à falência. Nas primeiras divisões, ela abre espaço para que diretorias ignorem a sensatez e escolham o caminho mais fácil, se agarrando a dois ou três jogos contra os grandes para “salvar o ano”. O que aconteceu em São Leopoldo. Ou no estado de sua preferência.

É lógico que o São Paulo de Rio Grande surge como um ponto acima da curva. Mas também como exemplo de que a situação dos estaduais não precisa ser tão extrema como muitos apontam. Falta, no entanto, uma organização racional do sistema – em uma discussão ampla, que considere também o próprio modelo de profissionalismo dos clubes brasileiros e a distribuição dos recursos da CBF. Infelizmente, um debate distante de acontecer, enquanto as federações apenas protegem os seus interesses e os dirigentes dos clubes entram no jogo de poder. O torcedor (de uma maneira geral, não só dos grandes) e a própria sustentabilidade do sistema como um todo, estes não são prioridade.

* A foto que abre o texto foi retirada do twitter do jornalista Mauricio Gasparetto

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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