Lado B de Brasil

O CSA atravessou seu deserto para, diante de um mar de gente, desaguar na Série B

O CSA parecia em um deserto sem horizonte. Sequer sem miragens que pudessem oferecer alguma ilusão. A realidade penosa aos azulinos perdurou por anos. De volta à segunda divisão estadual em 2010, sem divisão nacional em 2011, coadjuvantes inclusive onde costumavam reinar. E, não bastasse o próprio flagelo, precisavam conviver com os títulos e as campanhas nacionais do arquirrival CRB ou mesmo do ASA de Arapiraca. Faltavam perspectivas ao Azulão. Faltava até esperança. Mas nunca faltou devoção, nem paixão, nem lealdade. Os torcedores mantiveram sua fidelidade mesmo aos prantos. Perseveraram junto com o clube. Para desfrutar da alegria plena nos últimos dois anos. Pela segunda temporada consecutiva, o CSA conquista o acesso. Nesta segunda-feira, o time consumou seu retorno à Série B após 17 anos, com a vitória por 1 a 0 sobre o Tombense. O Trapichão abarrotado serviu de altar para a renovação dos votos eternos com a massa azulina.

Sem emendar boas campanhas no Alagoano, o CSA passou três dos últimos sete anos sem divisão. Chegou às oitavas de final da Série D em 2012, mas também teve um desempenho vexaminoso na temporada seguinte, com uma mísera vitória em toda a fase de grupos. Em 2014 e 2015, os azulinos se ausentaram das divisões nacionais. A escalada coroada nesta segunda começa em 2016. Apesar do amargor pelo vice-campeonato estadual contra o CRB, com duas derrotas nos dois jogos decisivos, a posição já valia o retorno à quarta divisão do Brasileiro. Uma oportunidade que o Azulão não desperdiçaria.

A campanha do CSA na Série D 2016 saiu melhor do que muitos poderiam imaginar. A classificação na fase de grupos aconteceu apenas na última rodada, em uma chave difícil contra Parnahyba e Central. Sofrimento que revigorou o time na sequência da competição. Atropelaram o próprio Parnahyba na fase seguinte, antes da classificação cardíaca contra o embalado Altos nas oitavas de final. Nas quartas, então, o Azulão viajaria mais ao sul do mapa. Encararia o Ituano, adversário de maior investimento e de feitos notáveis nos anos anteriores. A promoção, de qualquer forma, se decidiria em apenas 180 minutos. E a superioridade dos alagoanos foi indiscutível. Ganharam já no Novelli Júnior, antes de completarem a festa no Trapichão. A torcida azulina, que empurrou o time ao longo da trajetória, pôde soltar o grito preso por anos. Uma pena que o título não veio, com o vice diante do Volta Redonda.

O acesso significava uma nova perspectiva ao CSA. O clube não estava mais sujeito à incerteza de ter ou não a Série D no calendário, dependendo diretamente dos resultados no estadual. Desta vez, indo bem ou não no Alagoano, o ano poderia prever ao menos mais 18 partidas pela frente, com compromissos até setembro. Isso sem contar o retorno à Copa do Nordeste após três anos de hiato. Durante o primeiro semestre, os azulinos não se saíram tão bem. Caíram na fase de grupos da Lampions League, além de engolirem outro vice para o CRB. Mas a Série C ofereceria novas possibilidades. Não que o planejamento fosse exemplar, com a chegada do técnico Ney da Matta para o lugar de Oliveira Canindé logo após a derrota no estadual, assim como a contratação de 12 reforços às vésperas da competição nacional. De qualquer forma, as apostas acabaram dando resultado.

Por mais que o Grupo A se prometesse duríssimo, o CSA se impôs. Sofreu apenas duas derrotas em toda a fase de classificação. O excesso de empates atrapalhou um desempenho melhor, mas nada que fizesse falta. O Trapichão serviu de alçapão aos azulinos, enquanto a força de sua defesa foi determinante para a conquista dos pontos. Na segunda colocação, atrás do Sampaio Corrêa apenas pelos critérios de desempate, o Azulão decidiria o seu futuro contra o Tombense. A chance, mais uma vez, estava pronta para se agarrar. Mesmo que o caos interno arriscasse a tranquilidade desfrutada até então.

Na semana do último jogo da fase de grupos, com o time já classificado, o CSA novamente demitiu seu treinador, bem como toda a comissão técnica. A relação de Ney da Matta com o veterano Rosinei não era boa e chegou ao estopim durante um treinamento, quando ambos trocaram socos – segundo relatos, com o comandante atacando o veterano “covardemente”, antes do revide. A decisão da diretoria, neste caso, soava como necessária. E o grupo se fechou em torno do objetivo, sob as ordens do bombeiro Flávio Araújo, reconhecido justamente por seu histórico vitorioso nas divisões inferiores.

Nenhum dos outros três times que conquistaram o acesso à Série B o fizeram com tanta autoridade quanto o CSA. As circunstâncias do primeiro jogo facilitaram, com uma expulsão no Tombense logo no primeiro tempo. A vantagem numérica abriu o caminho para a vitória por 2 a 0, com gols de Michel Douglas e Boquita. Por fim, nesta segunda, o Trapichão não cabia em si para ver a história se concretizar. Quase 19 mil torcedores lotaram as arquibancadas, pulsantes num azul vivo. A velha casa vibrou, brilhou e explodiu com a vitória por 1 a 0, mais que suficiente para promover o Azulão. Em meio a fogos, fumaça e bandeiras, Raul Diogo fez uma jogadaça e passou a Edinho o direito de ser herói no jogo decisivo. Bem postado, o time da casa não teve problemas para segurar os adversários. Reluzia o B erguido à beira do campo, letra ecoada nas vozes que não pararam de urrar. E ainda haverá um título a se disputar, pegando outra vez o São Bento nas semifinais, como na Série D 2016.

O CSA não disputava a Série B desde 2000, na malfadada Copa João Havelange. Foi uma passagem efêmera pela segunda divisão, alçado graças à bagunça da CBF e de volta à terceirona logo no ano seguinte. Antes disso, a passagem anterior tinha sido em 1992. Nem mesmo nos anos gloriosos do fim da década 1990 a segundona era realidade aos azulinos. E os seguidos acessos resgatam a rica história do clube nas competições nacionais, presente na primeira edição da Taça Brasil e 11 vezes na elite a partir de 1974.

A Série B, sobretudo, garante o horizonte que o CSA não via em sua travessia pelo deserto. Há uma questão clara de orgulho, equiparando-se ao rival CRB – que, neste momento, tenta assegurar sua permanência na segundona. O novo nível também proporciona um calendário realmente cheio, mais dinheiro da televisão, mais oportunidades de investimento. O planejamento pode ser bem mais amplo, e assim abarcar o estadual, no qual os azulinos almejam encerrar um incômodo jejum que dura uma década. Mas, entre tantas benesses, nada se compara à própria maneira como o clube reforça os seus laços com a torcida. Todo o apoio dos últimos anos está sendo recompensado. O sucesso nas divisões inferiores forma uma enorme onda que carrega mais gente. Que transforma as arquibancadas do Trapichão em mar azul.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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