Lado B de Brasil

O Altos já vinha ensaiando o acesso nos últimos anos e subiu na Série D com uma vitória inapelável – para orgulho do Piauí

A quem acompanha a Série D, o sucesso do Altos não é novidade. O clube piauiense possui uma história recente, fundado em 2013, mas logo passou a figurar entre as melhores equipes de seu estado. Por consequência, virou figurinha carimbada na quarta divisão nacional desde 2016, com cinco participações na competição nacional. O acesso parecia amadurecer há algum tempo, com boas campanhas até os mata-matas, mas o Jacaré pecava nos momentos decisivos. Não mais. Neste domingo, o Altos carimbou a aguardada promoção para a Série C de maneira incontestável. Depois do empate por 1 a 1 em Santa Catarina, a Manga Mecânica (referência à fruta que torna a cidade de Altos conhecida como “Capital da Manga”) triturou o Marcílio Dias no Estádio Felipão. Goleou os visitantes por 5 a 1 e, pela primeira vez em sua história, disputará o terceiro nível do Brasileirão.

O Altos surgiu por uma iniciativa de moradores locais, em especial Toinho Fiscal, que reunia os principais jogadores da cidade para disputar campeonatos regionais. Com o tempo, o time passou a receber apoio da prefeitura e de empresários. O clube se profissionalizou em 2015 e, com bom investimento para o nível do futebol piauiense, conquistou o título da segunda divisão logo na estreia. Assim, em 2016, o Jacaré figurou pela primeira vez na elite do Piauiense e conseguiu ir além. Logo de cara, o Altos conquistou a primeira divisão, batendo o River na final. O problema é que a escalação de um jogador irregular anulou o título e deixou os novatos como vice-campeões. Ainda assim, o sucesso valeu a aparição imediata na Série D, um ano depois que o próprio River havia conquistado o acesso na quarta divisão.

O Altos fez barulho na Série D 2016, num ano em que Carlinhos Bala era a estrela do elenco. O time terminou seu grupo na fase de classificação não apenas com a primeira colocação, mas também registrou a melhor campanha geral, fazendo pegar o apelido de Manga Mecânica. Passou pelo América de Pernambuco com duas vitórias nos 16-avos de final, mas encarou uma pedreira nas oitavas, o CSA. Os alagoanos venceram a ida por 3 a 0 e os 2 a 0 dos anfitriões no Piauí impossibilitaram uma reviravolta. O CSA subiu naquele ano. Todavia, revigorado pelo impacto inicial, o Jacaré entrou com tudo no Campeonato Piauiense de 2017. Enfim, pôde comemorar seu primeiro título, derrotando o Parnahyba na decisão. De novo, o clube voltaria ao cenário nacional.

A campanha na Série D 2017 foi um pouco pior. O Altos avançou em segundo no seu grupo, atrás do Santos do Amapá, e pegou os próprios amapaenses nos 16-avos de final. Os piauienses caíram de novo, com os gols fora valendo a classificação do Peixe da Amazônia às oitavas, após dois empates. Em 2018, o Jacaré repetiu a dose no Piauí e levou o bicampeonato estadual, agora batendo o River. Porém, o quase persistia na Série D. O time passou ao lado do Moto Club na primeira fase e superou o Nacional do Amazonas no primeiro mata-mata, mas caiu diante do Ferroviário nas oitavas – como dois anos antes, outro time que selou o acesso e ainda foi campeão da quarta divisão.

O Altos não conseguiu o tricampeonato piauiense em 2019, mas fez bom papel com o vice diante do River. A Série D preenchia o calendário do segundo semestre de novo, mas pela primeira vez o Jacaré não atingiu os mata-matas. Atlético Cearense e Central foram algozes ainda na fase de grupos. Ao menos, a vaga na quarta divisão estava garantida mais uma vez para 2020, ano em que a pandemia impediu o curso normal do Campeonato Piauiense e concentrou o estadual em novembro. Até março, deu tempo para o Altos despontar como líder, enquanto ameaçou o Vasco na Copa do Brasil e arrancou o honroso empate por 1 a 1 – que só culminou na eliminação pelo regulamento bisonho que protege os visitantes na primeira fase.

Ainda assim, a prioridade do Altos era mesmo a Série D. Diferentemente de muitos clubes, a diretoria optou por preservar a base do elenco durante a pandemia, sem precisar fazer um desmanche para segurar as contas. Além disso, também chegaram contratações pontuais. E os piauienses entraram com tudo desde a fase de grupos, desta vez mais longa. O Jacaré fez logo de cara a melhor campanha da chave e a quinta melhor no geral, num octogonal em que River e Moto Club eram os principais concorrentes. Foram 10 vitórias em 14 partidas, com destaque ao rendimento em casa, onde vieram seis desses triunfos. A Manga Mecânica parecia partir aos mata-matas no ritmo certo, mas ainda teria que se provar num nível mais elevado, o que não acontecera nas tentativas anteriores.

O sprint final do Altos começou contra o Rio Branco do Acre. E até impressionou a facilidade dos piauienses no confronto. Foi a classificação mais segura dos 16-avos de final, com vitórias tanto fora quanto em casa. Primeiro, o Jacaré anotou 2 a 0 no Acre, com dois gols de Reinaldo Lobo aproveitando as bolas paradas. Já no Piauí, a classificação foi ratificada com o triunfo por 3 a 1. Betinho abriu o placar e, apesar do empate dos visitantes, Manoel e Alex Mineiro garantiram a passagem às oitavas.

O Altos pelo menos repetiria sua melhor campanha na Série D. O Salgueiro aparecia como um adversário mais tarimbado nas oitavas, com passagem recente pela terceirona, além de ter conquistado o Campeonato Pernambucano em 2020. De fato, foram dois jogos duros, mas o Jacaré de novo conseguiu prevalecer. A primeira partida, em Pernambuco, terminou com o empate por 1 a 1. Betinho até abriu o placar num lance de sorte, mas o Carcará igualou, e quase virou numa bola que bateu no travessão. O marcador se repetiu no Estádio Felipão. Juninho Arcanjo fez o primeiro logo cedo aos anfitriões, num lindo lance, mas o goleiro Marcelo falhou logo depois, em falta despretensiosa cobrada por Ciel. Apesar da pressão do Altos, o empate prevaleceu e forçou os pênaltis. Então, Marcelo se redimiria, defendendo uma das cobranças e ajudando a classificação.

O Altos comemora o acesso (Foto: @luisjuniorcinegra/Facebook do Altos)

Pela primeira vez em sua história, o Altos jogaria a partida do acesso na Série D, pelas quartas de final. O Marcílio Dias surgia como um adversário cascudo nos mata-matas, especialmente por desbancar o favoritismo da Ferroviária quando seu elenco sofria com um surto de COVID-19. O empate por 1 a 1 em Santa Catarina acabou saindo de bom tamanho ao Jacaré. Seria um primeiro tempo movimentado, com boas chances aos dois times e os piauienses pressionando um pouco mais. Já no segundo tempo, a partida mudaria de figura e o Marcílio Dias partiria para cima. O goleiro Marcelo acumulou grandes defesas, mas não evitou o gol de Alessandro. E o gol do Altos só veio no finalzinho, aos 43, numa cabeçada de Manoel que mantinha a esperança ao reencontro no Piauí.

Dentro de casa, o Altos sabia de sua força. O Estádio Felipão não costuma ser fácil de se enfrentar, com um gramado acidentado, além do forte calor na região. Porém, uma goleada por 5 a 1 no jogo decisivo não deve ser resumida a esses fatores. A Manga Mecânica atuou em máxima rotação para atropelar o Marcílio Dias e conquistar o acesso. Foi a partida perfeita da equipe de Fernando Tonet. O Altos começou a definir a vitória logo aos dois minutos, quando Klenisson aproveitou uma confusão na área para marcar. O bombardeio se mantinha, mas o goleiro Belliato evitava um placar pior ao Marcílio Dias. E os catarinenses pouco incomodaram do outro lado, dando um susto apenas quando o goleiro Marcelo saiu errado.

No segundo tempo, o Marcílio Dias tentou sair mais para o jogo, mas deu espaço à velocidade do Altos e sofreu. As chances vinham aos montes. Manoel acertou a trave e Belliato continuava trabalhando. O segundo gol viria aos 18, com Juninho Arcanjo tentando duas vezes. O Jacaré ganharia força e não quis se retrancar para segurar o resultado. Aproveitou para construir uma goleada histórica. O time piauiense anotou o terceiro com Betinho cobrando pênalti aos 30 e o atacante faria o quarto logo na sequência. O Marcílio Dias marcou o de honra aos 42, também de pênalti, com Marllon. Porém, o Altos fecharia a conta com o quinto gol num contra-ataque. Já nos acréscimos, Gean recebeu na área e deu uma cavadinha para vencer Belliato. Nos muros do Felipão, onde a torcida aparecia em tempos de portões fechados, a festa era grande.

Betinho foi o grande nome da final e terminou como o artilheiro do clube na Série D, com nove gols. Aos 33 anos, o herói do Palmeiras na Copa do Brasil de 2012 rodou bastante pelo país e vive seu grande momento desde então. O Altos possui um elenco experiente, em que 11 jogadores da rotação principal têm mais de 30 anos. Aos 38, o meia Juninho Arcanjo é o maestro em campo e uma das lideranças dessa velha guarda, com uma carreira que inclui passagens por Portugal e pela Coreia do Sul. O zagueiro Rafael Araújo é outro nome importante, presente também no River que subiu na Série D 2015. Já entre os mais jovens, o goleiro Marcelo terminou como uma das grandes figuras da campanha, em excelente forma para salvar sua equipe em diferentes momentos. O atacante Klenisson, por sua vez, começou bem o campeonato e também se fez decisivo no jogo do acesso.

A grande figura, de qualquer forma, é Manoel – o chamado M9. O atacante passou pelo futebol português, se destacando na segundona. Voltou ao Brasil em 2015, através do Grêmio Anápolis, e de Goiás seguiu ao Piauí. O camisa 9 esteve presente em todas as cinco campanhas do Altos na Série D, acumulando 25 gols. Passou por Boa Esporte e Imperatriz brevemente, assim como pelo Brasiliense no início de 2020, mas sua idolatria é no Jacaré, onde também brilhou no bicampeonato piauiense. Aos 31 anos, contribuiu com sete gols nesta campanha, dois deles nos mata-matas. O mato-grossense é um símbolo da Manga Mecânica. Ao seu lado, outros que merecem menção são o lateral Tiaguinho Silva e o meia Alex Mineiro, presentes em quatro dessas campanhas.

Já no banco de reservas, o Altos teve costume de apostar em alguns treinadores mais badalados. Waldemar Lemos, Estevam Soares, Ruy Scarpino, Oliveira Canindé e Francisco Diá foram alguns dos profissionais que passaram pelo Jacaré. Também estiveram por lá ex-jogadores de certo renome, com Paulinho Kobayashi e Maurílio trabalhando à beira do campo. O gaúcho Fernando Tonet foge um pouco desse padrão, com uma carreira iniciada no meio acadêmico, além de experiências anteriores como auxiliar e em times menos badalados – inclusive no futebol piauiense. Levado ao Altos em outubro de 2019, conseguiu montar um projeto de longo prazo e formar uma equipe agressiva, que não teve problemas em tomar muitos gols se fizesse mais. Teve um aproveitamento de 70% na campanha e viveu uma tarde perfeita no jogo mais importante da história da agremiação.

Uma questão importante ao futuro do Altos será o apoio da prefeitura e dos empresários locais rumo à Série C, que exige mais investimentos. Melhorias são necessárias, como a própria estrutura do Felipão. Por outro lado, as receitas serão naturalmente maiores para a terceira divisão e o clube terá um calendário mais recheado ao segundo semestre. Deve vir mais forte para o Piauiense de 2021, após acabar em terceiro na edição de 2020, disputada em paralelo com as fases mais agudas da Série D. Aproveitar a Copa do Nordeste é outro passo importante, com a classificação sobre o Globo na fase preliminar. Certo é que o ineditismo na terceira divisão nacional vale muito à cidade de 40 mil habitantes na Grande Teresina. E, mesmo com pouco tempo de futebol, o Jacaré já demonstrou capacidade de fazer bons trabalhos. É um novo orgulho ao futebol piauiense.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo