Lado B de Brasil

Mais que o troféu, a conquista da Copa Paulista também garantiu à Portuguesa esperança, no ano de seu centenário

Na antevéspera de Natal, a torcida da Portuguesa ganhou um grande presente: a esperança. É sobretudo a expectativa de dias melhores que representa o título da Copa Paulista, faturado pela Lusa nesta quarta-feira. A classificação para a final garantia aos rubroverdes o direito de contar com um calendário nacional em 2021. A decisão contra o Marília, outro clube tradicional adormecido, poderia indicar qual o caminho. E a vitória por 3 a 2 dentro do Canindé, que confirmou a taça, levará os paulistanos à Série D – uma competição que pode não ser tão rentável quanto a Copa do Brasil, mas oferece uma perspectiva de crescimento a médio prazo e parece mais condizente à própria história do clube.

O ano se prometia especial à Portuguesa, com a comemoração do centenário. A situação do clube permanece delicada, considerando as dívidas na casa das centenas de milhões de reais e as dificuldades para preservar as estruturas – sobretudo o Canindé, alvo de diferentes leilões infrutíferos. Ainda assim, há um patrimônio imaterial que sustenta a Lusa: a sua torcida, a fé que conduz os rubroverdes mesmo em tempos tão duros, em que a reconstrução parece tão distante. É muito mais pelo apoio da gente do que pelos recursos à disposição que os paulistanos alimentam suas esperanças.

Dilapidada pouco a pouco, a Portuguesa vê como marco de sua derrocada o rebaixamento no Brasileiro de 2013 – na disputa judicial que salvou o Fluminense. Desde então, a Lusa viveu uma queda livre nas divisões nacionais e também deixaria a elite do Campeonato Paulista. Os processos trabalhistas aumentaram, as dívidas se tornaram insustentáveis e a Série A virou um devaneio, mesmo ainda presente no passado recente dos rubroverdes. Não resta outra alternativa ao clube do que se reconstruir passo a passo, lidando com os muitos problemas do passado e os novos que também surgem em consequência das más gestões anteriores. Penhoras e bloqueios viraram frequentes, ao passo que o investimento no futebol deixou de ser a prioridade – porque as contas sufocantes não permitem.

Para que a Portuguesa se recupere, ainda assim, ela depende do futebol. Somente através do peso em campo é que a Lusa pode gerar dinheiro, pagar suas dívidas e acelerar sua reconstrução. No início de 2020, um poço ainda mais fundo pareceu possível aos rubroverdes, com a ameaça do rebaixamento na Série A-2 do Paulistão. A partir da chegada do técnico Fernando Marchiori, a Fabulosa conseguiu se recuperar. O comandante mudou peças e recuperou jogadores. Terminou com uma boa campanha na fase de classificação, ocupando a terceira colocação na A-2. Porém, a equipe sucumbiria ao XV de Piracicaba nas quartas de final e perderia a chance de disputar o acesso na etapa seguinte. Escaparia ali a chance de recuperar um pouco mais as finanças com o dinheiro da TV oferecido na elite do estadual.

A Copa Paulista, assim, virou a esperança para a Portuguesa engrandecer um pouco o ano de seu centenário. Provar para a torcida que não é apenas a profissão de fé ao redor do clube que o faz mais forte. E numa competição que geralmente conta com boas campanhas de times tradicionais, que buscam um calendário nacional através de um atalho, a Lusa aproveitou muito bem sua oportunidade. A força ficou evidente logo na primeira fase, com a melhor campanha do torneio até então. A Fabulosa depois eliminou o Nacional da capital nas oitavas e também o Água Santa nas quartas, com uma classificação só assegurada nos pênaltis. Já na semifinal contra o São Bernardo, após o empate por 1 a 1 na ida, a vitória por 3 a 0 no Canindé soava uma conquista – especialmente pelas dificuldades, com Fernando Marchiori afastado por Covid-19 e Marcelo Veiga, treinador dos adversários, vítima da doença. Os rubroverdes se confirmaram na Copa do Brasil ou na Série D a partir daquele resultado.

A chance de comemorar um título, ainda assim, estava posta com a decisão contra o Marília. E a Portuguesa não ia desperdiçar esse momento. A vitória por 2 a 1 na primeira partida, de virada, deixava a taça mais próxima dos rubroverdes. A conquista seria confirmada dentro do Canindé, nesta quarta, com outro grande triunfo por 3 a 2. Partindo para cima, os paulistanos pressionaram o MAC e chegaram ao primeiro gol de pênalti, convertido por Adilson Bahia. Na volta à segunda etapa, depois de duas bolas na trave, Geovani ampliou. O Marília até esboçou uma reação ao descontar com Léo Couto, mas logo depois Raphael Luz anotou o terceiro da Fabulosa. No fim, Diogo Calixto voltou a descontar aos interioranos. Entretanto, tamanha era a vontade que o quarto tento lusitano parecia até mais provável. Não foi necessário. O placar já garantia a comemoração, o alívio, a empolgação.

Como campeã da Copa Paulista, a Portuguesa poderia escolher entre disputar a Copa do Brasil ou a Série D. De um lado, o mata-mata da Copa do Brasil se mostra atrativo por garantir uma premiação polpuda na conta através de poucas vitórias. Do outro, mesmo exigindo um investimento maior e podendo criar até um déficit, o Campeonato Brasileiro assegura um calendário mais robusto e uma perspectiva maior de crescimento sustentável. Subir na quarta divisão não é simples, até pela maneira como os mata-matas também costumam derrubar os favoritos. De qualquer maneira, optar da Série D firma um compromisso maior com quem se dedica a reconstruir a Lusa. Quatro anos depois de sua última participação nas divisões nacionais, a Fabulosa ganha essa perspectiva.

O próximo passo da Portuguesa é tentar o acesso na Série A-2 do Campeonato Paulista, quem sabe para repetir o título anterior do clube até esta quarta-feira, conquistado na segundona de 2013. A organização do futebol precisa ser bem pensada em 2021, para se aproveitar a oportunidade na Série D e mirar receitas gradativamente maiores, que permitam à agremiação contornar seus problemas. Não será simples, mas há um alento. E a sustentação da Lusa vem através daqueles que ganham esperanças: seus torcedores, aqueles que podem conduzir os rumos do clube e reforçar sua vocação. Retornar às divisões nacionais está no DNA da Fabulosa, assim como a capacidade em formar talentos nas categorias de base. Ainda assim, nada é mais Portuguesa que sua torcida devota, a única certeza que independe do momento e das dificuldades.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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