Lado B de Brasil

Do drama nos pênaltis à lamentável violência, um resumão dos jogos que definiram as oitavas na Série D

Os 16 classificados foram conhecidos nos últimos dias, com destaque ao sucesso de Santa Cruz e Paraná

O Campeonato Brasileiro atravessa edições interessantes em todas as divisões. Porém, o nível que mais ferve nesse momento é a Série D. Os mata-matas começaram e, ao longo dos últimos dias, foram definidos os classificados para as oitavas de final. Passaram camisas pesadas, com também o sucesso de alguns clubes em ascensão. Além disso, não faltou drama, seja por disputas nos pênaltis ou até mesmo confusões – com a polícia precisando intervir em duas partidas diferentes por causa da violência. O Santa Cruz se destacou a despachar o Retrô, de melhor campanha, enquanto o Paraná contou com o heroísmo do goleiro Felipe. Novamente os capixabas se sobressaíram, com o milagre do Real Noroeste e o feito do Nova Venécia. Abaixo, um resumão.

O Lagarto havia derrotado o Sousa por 1 a 0 na Paraíba e confirmou a classificação com o triunfo por 2 a 1 em Sergipe. Já seria um dos duelos controversos da rodada. O Lagarto anotou o primeiro gol logo cedo, com Lucas cobrando pênalti, e Maycon Rangel empatou num contra-ataque para o Sousa na sequência. Já no início do segundo tempo, Bruninho ampliou para os sergipanos em mais um penal. A arbitragem ficaria no foco, com expulsões consecutivas do lado paraibano aos 18. Maycon Rangel recebeu o vermelho por uma falta mambembe e Doda foi para o chuveiro ao peitar o árbitro. Em meio à confusão, a polícia precisou entrar no gramado para proteger o juiz. Só depois de minutos de paralisação é que o duelo foi retomado, com o Lagarto tomando conta até o apito final.

Quem passou do outro lado foi o Amazonas, time de ascensão recente. Depois do empate por 0 a 0 com o Juventude Samas no Maranhão, os amazonenses ganharam por 2 a 1 em casa, graças a um gol no apagar das luzes. O primeiro gol do Amazonas saiu aos 12 minutos, anotado por Ítalo. O Juventude empatou aos 22, numa falta de Rodrigo Sá que passou por baixo da barreira. E o time maranhense até ensaiou a virada. Já no segundo tempo dominado pelos anfitriões, com várias chances perdidas, o gol decisivo saiu apenas aos 40. Ítalo recebeu nas costas da zaga e fuzilou o goleiro Anderson Testa.

O Santa Cruz conseguiu uma classificação enorme contra o Retrô. O Tricolor tinha sido o pior time da fase de classificação, contra a melhor campanha da Fênix. Pois a história pesou, com o avanço do Santinha. Depois do empate por 0 a 0 no Arruda, a equipe prevaleceu por 2 a 1 na Arena Pernambuco. O nome da noite seria Hugo Cabral. O atacante marcou o primeiro gol do Santa logo aos dois minutos, completando na pequena área. O Retrô respondeu com o empate aos 27, em belo lance de Radsley, e esboçou a virada. No entanto, era mesmo a noite de Hugo Cabral e o time coral retomou a vantagem no fim da primeira etapa, graças a um bolão de Daniel Pereira para o herói. Durante o segundo tempo, o Santa Cruz ainda mandou uma bola no travessão, embora o goleiro Jefferson tenha sido fundamental para conter o assédio dos auriazuis em busca do empate.

A maior goleada da rodada foi aplicada pelo Tocantinópolis. Depois do empate por 2 a 2 com o São Raimundo na visita ao Amazonas, os alviverdes ganharam com autoridade em Tocantins, por 4 a 1. O primeiro saiu aos 28, num chute de longe de Tiago Bagagem. Bambelo ampliou logo na volta para o segundo tempo e Tiago Bagagem fez o terceiro no capricho, de falta. O Mundão só descontou depois disso, com Frank. Porém, logo aos 25, a conta estava fechada com o tento de Azul em outro tiro de fora. Poderia até ter sido mais, com algumas chances do quinto desperdiçadas pelo Tocantinópolis.

O América de Natal tenta encerrar seu longo drama na Série D e passou pelo Jacuipense, algoz em 2019. Os potiguares se valeram da vitória por 1 a 0 na Bahia, com o empate por 0 a 0 na cheia Arena das Dunas se tornando suficiente. O Dragão não correspondeu tão bem aos 24 mil presentes e, depois de um primeiro tempo morno, precisou se virar com dez homens na segunda etapa. Mayco Lucas tentou agredir um adversário e foi expulso. Assim, os alvirrubros tiveram que segurar a pressão, ainda que algumas boas chances de matar o duelo nos contragolpes tenham surgido.

Outra camisa pesada a passar é o Moto Club, mas com um aperto até maior. O Papão empatou com o São Raimundo por 0 a 0 em Roraima e a igualdade se repetiu com o 1 a 1 no Castelão. A decisão foi para os pênaltis, com uma longa disputa até a vitória dos maranhenses por 8 a 7. Não seria dos jogos mais fáceis, com o gramado pesado pela forte chuva em São Luís. O Moto fez o gol aos seis do primeiro tempo, em tento de Jair, mas o São Raimundo empatou pouco antes do intervalo, com Vera Cruz. O segundo tempo teve domínio dos anfitriões, mas nada que evitasse os penais. Então, foram necessárias 18 cobranças, até que Carioca fizesse e Jerinha acertasse a trave, carimbando a passagem do Papão.

Mais uma definição nos pênaltis aconteceu no Acre, com a classificação do Rio Branco. Os alvirrubros tinham ficado no 1 a 1 contra o Pacajus no Ceará e empataram por 0 a 0 no Florestão, com o triunfo por 5 a 4 na marca da cal. O Rio Branco teve o controle do jogo, mas via um adversário recuado e que apostava nos contra-ataques. Assim, os cearenses conseguiram preservar o placar zerado e forçar os pênalti. Porém, durante a disputa, o goleiro Gigante defendeu a batida de Rayro na última série e garantiu a passagem do Estrelão.

O oponente será o ASA de Arapiraca, um dos raros a ganhar os dois jogos. Os alvinegros venceram a ida por 2 a 1 contra o Afogados, em Pernambuco, e comemoraram também os 2 a 0 na volta em Alagoas. Apesar da vantagem do empate, o ASA partiu para cima e ainda viu o Afogados perder Félix, expulso ainda no primeiro tempo. Os gols aconteceram na segunda etapa, com Xandy e Diego Rosa, em duas bolas arrematadas com certa facilidade dentro da pequena área.

A maior confusão da rodada aconteceu no Distrito Federal, com o Brasiliense amargando mais um ano na quarta divisão. O Jacaré vinha com a segunda melhor campanha da fase de classificação, mas perdeu por 3 a 1 diante do Nova Venécia no Espírito Santo e o empate por 1 a 1 na capital decretou a despedida. O time da casa precisava dos gols e partiu para cima, mas tomando sustos nos contra-ataques dos capixabas. O Brasiliense abriu o placar aos 11 do segundo tempo, num pênalti convertido por Hernane Brocador. O Jacaré precisava de só mais um gol e acuou o Leão do Norte. Porém, também de pênalti, o Nova Venécia conseguiu empatar aos 36 com Odilávio. A reta final ainda guardou uma pressão dos anfitriões, com bola na trave e lance salvo em cima da linha. Antes do apito final, porém, a torcida do Brasiliense invadiu o gramado e partiu para cima dos jogadores das duas equipes, com os visitantes se trancando nos vestiários. A polícia precisou intervir e o duelo sequer pôde ser encerrado em campo.

O oponente do Nova Venécia será a Portuguesa da Ilha, única equipe a ganhar o jogo de volta fora de seu estado. Os cariocas tinham perdido para o Aimoré no Luso-Brasileiro por 1 a 0 e deram o troco com o 1 a 0 dentro do Cristo Rei. A Zebra passou nos pênaltis, com o placar de 4 a 3. O Aimoré criou excelentes chances no início da partida, desperdiçando a oportunidade de ampliar a diferença, mas a Portuguesa cresceu no meio da primeira etapa. O gol saiu no primeiro minuto do segundo tempo, num tiro colocado de Emerson Carioca. Os gaúchos ainda ameaçaram o empate, sem sucesso. Já nos pênaltis, a Lusa teve mais precisão, com dois erros dos alviazuis, até Dija Baiano fechar a conta em 4 a 3.

Dentro de casa, o Bahia de Feira levou a melhor contra o Costa Rica. As duas equipes empataram por 0 a 0 em Mato Grosso do Sul, mas o Cangaceiro ganhou por 2 a 1 na Arena Cajueiro. Zé Oliveira resolveu para os baianos em dois ataques abertos durante o primeiro tempo. O primeiro gol teve um desvio no meio do caminho, o que ajudou, e o segundo veio num lance no qual o herói da tarde estava sozinho dentro da área. Os sul-mato-grossenses descontaram apenas aos 48 do segundo tempo, num escanteio que sobrou para Jean arrematar.

Num duelo bastante interessante desses 16-avos de final, o São Bernardo prevaleceu contra o Azuriz. O empate por 1 a 1 em Pato Branco deixava a situação indefinida, com o Bernô provando sua força no Estádio 1° de Maio e vencendo por 2 a 0. Os paulistas pressionaram desde os primeiros movimentos e a insistência deu resultado aos 40 minutos, quando Guilherme Queiroz botou o time em vantagem. Os paranaenses precisavam buscar o ataque na segunda etapa, mas Alex Alves provava a ótima fase na meta do São Bernardo. Já aos 14, Hugo Sanches ratificou a classificação numa bola solta na área.

O confronto mais emocionante aconteceu em Goiás. O Real Noroeste parecia em ótima vantagem contra o Anápolis, ao anotar 5 a 2 no Espírito Santo. O Galo da Comarca conseguiu uma reação impressionante e venceu por 3 a 0 o reencontro. Mesmo assim, o esforço foi insuficiente, já que os capixabas ganharam por 3 a 1 nos pênaltis e sobreviveram. Os dois primeiros gols do Anápolis vieram ainda no primeiro tempo. Zizu fez o primeiro de cabeça aos 11 e, também pelo alto, Tibúrcio ampliou. Já no segundo tempo, os goianos sentiram mais o desgaste, mas fizeram o terceiro aos 36, num pênalti convertido por Romarinho. Já nos penais, o goleiro Weide foi milagroso. Pegou três cobranças dos tricolores e contou com a precisão de seus companheiros para garantir a festa do Real Noroeste.

Também nos pênaltis aconteceu a classificação do Caxias. Os grenás empataram por 1 a 1 contra o Oeste na Arena Barueri e o 1 a 1 também se reproduziu dentro do Estádio Centenário na volta. O triunfo nos penais só se consumou nas alternadas, por 6 a 5. O Caxias partiu com tudo no primeiro tempo e acumulou chances, incluindo um pênalti desperdiçado por Diego Sodré, que o goleiro Dheimison defendeu. Ainda assim, aos 40, Batista chutou forte e abriu a contagem para os gaúchos. Os paulistas melhoraram na segunda etapa e arrancaram o empate os acréscimos, com Reifit. Por fim, nos pênaltis, o goleiro André defendeu o arremate de Tite nas alternadas e botou os grenás na etapa seguinte.

O drama também se viveu na Vila Capanema, onde o Paraná deixou o Cascavel pelo caminho. O goleiro Felipe, ex-Corinthians e Flamengo, foi o grande personagem dos paranistas. O veterano já tinha fechado o gol no 0 a 0 da ida, em que os adversários foram melhores, e permitiu a passagem nos pênaltis, com o triunfo por 5 a 4, após novo 0 a 0 em Curitiba. Num primeiro tempo sem tantas chances, o Paraná foi mais perigoso. E o time da casa desperdiçou a deixa para abrir a contagem logo no início do segundo tempo, quando Rafael Silva bateu um pênalti para fora. A Gralha Azul permaneceu mais interessada no resultado, sem eficiência no ataque. A resolução veio nos penais. Cada time errou duas vezes na série normal, com Felipe pegando o quinto tiro do Cascavel, que poderia ter dado a classificação. Na segunda série de alternadas, então, Felipe parou Léo Itaperuna e proporcionou a explosão nas arquibancadas da Vila Capanema. Fora do gramado, a partida terminou em tragédia, com a morte do presidente da organizada do Paraná, pisoteado pelo cavalo de um policial militar.

Por fim, o Pouso Alegre deixou pelo caminho o Operário VG. O empate por 0 a 0 em Mato Grosso auxiliou os mineiros com a vitória por 2 a 0 no Manduzão. O time da casa começou melhor e anotou o primeiro aos 13 minutos, com Gledson em batida de fora da área. O Pousão abafou ainda mais, com bola na trave até o segundo ser anotado por Iago aos 36 minutos. Bastou para que os rubro-negros se contivessem na defesa e administrasse a vantagem durante o segundo tempo.

Abaixo, os confrontos das oitavas de final, ainda regionalizadas. As quartas de final terão seus confrontos direcionados conforme as campanhas nas etapas anteriores. Os vencedores desta fase é que já comemorarão o acesso dentro de um mês.

Amazonas x Lagarto
Tocantinópolis x Santa Cruz
Moto Club x América de Natal
ASA x Rio Branco
Nova Venécia x Portuguesa da Ilha
São Bernardo x Bahia de Feira
Caxias x Real Noroeste
Pouso Alegre x Paraná

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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