Lado B de Brasil

Devastado, Criciúma vive pior vexame da história quatro meses após fim de contrato de terceirização

Tigre precisou se reestruturar “quase do zero” em janeiro, quando deixou de ser administrado por gestão de ativos

*João Pedro Alves

Principal representante do futebol de Santa Catarina no cenário nacional durante os anos 1990 e de assídua presença nas principais divisões nacionais nas últimas décadas, a camisa aurinegra do Criciúma conheceu na noite desta quarta-feira (21) o pior momento dos seus 74 anos. Diante da arquibancada vazia do Estádio Heriberto Hülse, o Tigre pela primeira vez terminou o Campeonato Estadual entre os dois rebaixados, ao perder para o Avaí por 1 a 0.

A derrota para o rival da capital sacramentou o fim de uma jornada de agonia para o torcedor carvoeiro na competição. O Tigre fechou as 11 rodadas com apenas uma vitória e cinco empates. Os oito pontos só superaram a soma do Metropolitano (6 pontos), que retorna à Segundona. Para dar um requinte a mais de crueldade, o ex-zagueiro Wilson ficará na triste página da história como o técnico que terminou a fatídica campanha. O maior colecionador de títulos da história do clube, entre eles a Copa do Brasil de 1991, não conseguiu dar jeito ao mambembe time deixado pelo antecessor Hemerson Maria nas últimas quatro rodadas.

Torcer pelo Criciúma, no entanto, já é sinônimo de aflição há bem mais tempo. O último troféu levantado pelo Tigre foi no Catarinense de 2013, ano de permanência conquistada com muito sofrimento na elite do futebol nacional. Depois dessa temporada, nenhuma final de estadual e dois rebaixamentos (2014 para a Série B e 2019 para a Série C). Na última edição do Campeonato Brasileiro, escapou por dois pontos da queda para a D. Para completar o trágico retrospecto recente: a equipe acumulou o maior jejum de vitórias da história ( 18 partidas seguidas, entre 11 de outubro de 2020 e 12 de abril de 2021).

Clube “arrendado”

Antes da vertiginosa derrocada, o Criciúma teve um período de ascensão no início da década passada. Ambos estão intimamente ligados à entrada da gestão de ativos (GA), em 2010, com a volta de Antenor Angeloni, dono de uma das maiores redes de supermercados do Sul do Brasil à presidência do clube. O empresário foi convencido a assumir o comando do Tigre e literalmente salvá-lo da crise financeira, técnica e estrutural enfrentada na época. Como contrapartida, amarrou uma solução para que a GA fundada por ele passasse a controlar o clube, ficando com todos os direitos econômicos de atletas e todas as receitas normais do clube, como patrocínios, mensalidades de sócios, comercialização dos espaços do estádio, ingressos e a exploração da marca. Ao fim do vínculo, a princípio previsto para 10 anos, a obrigação da administração terceirizada era entregar o clube sem dívidas.

Depois de ser conduzido à presidência, Angeloni deu início a uma verdadeira revolução no clube, avançando no processo de profissionalização de toda a estrutura, sobretudo os departamentos de futebol profissional e categorias de base, revitalização completa no estádio, construção do centro de treinamento, entre outras melhorias. Em menos de três anos, o Tigre saiu da terceira divisão para a Série A e passava a dispor de infraestrutura comparável às dos gigantes do país.

A lua de mel durou pouco tempo. Problemas dentro e fora de campo começaram a crescer em 2014, segundo ano consecutivo de Série A e última temporada da equipe na elite. Foi a falta de planejamento clássica que se vê aos montes pelo Brasil: trocas excessivas de técnicos (somente em 2014 foram sete treinadores), contratações em excesso e por aí vai. O rebaixamento, a campanha mediana na Série B seguinte e a enxurrada de críticas da torcida sobre as decisões no departamento de futebol fizeram o “salvador da pátria” se cansar e resolver vender a GA para o empresário Jaime Dal Farra, que passou a comandar o time carvoeiro em outubro de 2015.

Nas mãos de Dal Farra, empresário do setor químico da região, torcedor e patrocinador do clube, o modelo de gestão continuou o mesmo, mas os investimentos diminuíram drasticamente e alguns dos erros do antecessor se repetiam com ainda mais força: constantes mudanças de gestão executiva de futebol, técnicos e contratações de jogadores em excesso, com poucos acertos. O mandatário promoveu ainda cortes de gastos e o esvaziamento dos departamentos de futebol profissional e categorias de base. Os resultados em campo não poderiam ser diferentes: pela Série B, o Tigre chegou a sonhar com o acesso pela última vez em 2016, quando terminou em oitavo. Nos dois anos seguintes passou apuros para não cair, mas na temporada 2019 não teve jeito e o passaporte para a terceirona foi carimbado com a vice-lanterna.

O casamento de Criciúma e GA teve o término abreviado para dezembro do ano passado. Jaime Dal Farra entregou a presidência para Anselmo Freitas, eleito pelo Conselho Deliberativo. No retorno ao modelo tradicional de estrutura administrativa, a atual diretoria herdou um clube sem dívidas, porém com receitas em queda e tendo que recomeçar praticamente do zero no âmbito pessoal – sem comissões técnicas no time profissional e nas categorias de base, além de uma sobra de 10 jogadores do elenco principal com contrato, sete deles sub-20.

A estruturação iniciada em janeiro tinha as figuras do vice-presidente de futebol Valdeci Rampinelli (de passado vitorioso no clube, como campeão brasileiro da Série B em 2002 e presente na campanha de mais um acesso à Série A em 2012), do gerente de futebol Giuliano Bittencourt e do técnico Hemerson Maria, de passagens marcantes pelos rivais catarinenses, sobretudo Joinville e Avaí.

A montagem do elenco para o início da atual temporada se sustentou em jogadores indicados por Maria. Foram 18 contratações. O treinador tarimbado no futebol catarinense não conseguiu fazer o time engrenar e saiu sem vencer nenhuma. O estopim foi o revés diante do Próspera, outro time da cidade de Criciúma, recém-promovido para a primeira divisão do Estado e comandado pelo ídolo tricolor Paulo Baier. O único e efêmero momento de alegria dado pelo Tigre ao seu torcedor no ano foi um empate, na Copa do Brasil, contra a Ponte Preta. A Macaca acabou eliminada nos pênaltis.

Futuro: difícil ter esperança

Ao seu torcedor o Criciúma ainda não dá motivos para esperança em um futuro breve. O adversário da terceira fase da Copa do Brasil será o América Mineiro e no segundo semestre vem uma Série C casca grossa. A manutenção na terceira divisão nacional deixaria qualquer carvoeiro aliviado. Já em 2022 vem a conta cara do rebaixamento. Tudo indica que não haverá calendário para o time no primeiro semestre. A Série B do Catarinense está programada para começar só em junho.

A atual gestão entrou com a missão de reconectar o Tigre à torcida, afastada gradualmente nos 10 anos de administração terceirizada, pelos maus resultados dentro de campo. Agora, no aniversário de 30 anos da conquista do maior título nacional do futebol catarinense, o desafio se torna ainda maior, o de resgatar o “peso da camisa” ou, como diz Bruno Bonsanti, a “memória institucional” do outrora gigante catarinense.

João Pedro Alves é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela Unisul/Tubarão (SC). Entrou na faculdade pensando em fazer rádio esportivo, enveredou para a assessoria de imprensa e hoje abraça a paixão pelo áudio nos podcasts, como ouvinte ou apresentando o Toque de Mídia. Frequentador do estádio Heriberto Hülse desde 1995.

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