Lado B de Brasil

Depois de longas caminhadas na Série D, Campinense e Aparecidense finalmente celebraram o acesso à terceirona

Campinense e Aparecidense figuravam na quarta divisão desde 2012, com o ápice de suas jornadas neste sábado

A Série D confirmou seus dois primeiros acessos neste sábado. E a vitória é da persistência, tanto para Aparecidense quanto para Campinense, duas equipes que militam faz tempo na quarta divisão. Depois de longas caminhadas no alicerce do futebol nacional, os dois clubes comemoraram a subida para a terceirona de 2022. A festa do Campinense é a frustração do América de Natal, com a vitória da Raposa nos pênaltis em Campina Grande, após dois empates por 0 a 0. Já a Aparecidense tinha derrotado o Uberlândia por 1 a 0 na ida em Minas e se contentou com o empate por 1 a 1 no Aníbal Toledo, suficiente à promoção. Será a primeira vez dos goianos na Série C, enquanto os paraibanos estão fora da terceira divisão desde o rebaixamento em 2011.

O Campinense possui uma história consistente no Campeonato Brasileiro, incluindo 11 aparições na primeira divisão e sete na segunda. Em 2009, a Raposa foi rebaixada na Série B e amargou a queda na Série C apenas dois anos depois. Na época, a primeira fase da terceirona era dividida em quatro grupos de cinco equipes, nos quais o lanterna acabava rebaixado. A chave, curiosamente, tinha a presença do América de Natal – que seria promovido naquele ano. O Campinense terminou com os mesmos nove pontos de Guarany de Sobral e Fortaleza, mas levou a pior no número de gols marcados. A Raposa até fez sua parte na rodada final, ao ganhar do Guarany por 1 a 0. O problema foram os 4 a 0 do Fortaleza sobre o CRB, resultado exato para evitar o descenso dos cearenses, num jogo com duas expulsões entre os alagoanos e suspeitas sobre a arbitragem.

Carlinhos Bala, então no Fortaleza, chegou a ser flagrado pedindo para os adversários “facilitarem”. Entretanto, o Leão do Pici não recebeu nada além de multa e o Campinense acabou rebaixado. Desde então, são dez anos da Raposa na Série D, com nove participações no período. O acesso já poderia ter saído em 2012, mas os paraibanos perderam no jogo decisivo para o Baraúnas. Sem divisão nacional em 2013, o Campinense disputou todas as edições da quarta divisão desde então. Disputaria os mata-matas em quatro ocasiões, mas de novo sucumbiu nas quartas de final em 2018, com a derrota para o Ferroviário nos pênaltis.

Na edição passada da Série D, o Campinense não avançou aos 16-avos de final. Desta vez, passou em segundo no Grupo A3, uma chave duríssima que tem seus quatro representantes nestas quartas de final. O mais saboroso, de qualquer forma, foi ver o rival Treze ficando pelo caminho. A Raposa passou nos 16-avos de final pelo Sergipe, só nos pênaltis, depois de dois empates. Já as oitavas foram mais folgadas para os paraibanos, com dois triunfos para cima do Guarany de Sobral. Por fim, o duelo das quartas guardou outro reencontro com um adversário daquela Série C de 2011, o América de Natal.

O jogo de ida aconteceu na Arena das Dunas, sob certa tensão após pedradas da torcida potiguar no ônibus paraibano. E as duas equipes não conseguiram sair do 0 a 0. Seria um jogo de muita marcação, em que o Campinense se defendeu bem e se contentou em deixar o tempo passar. Sabia que teria mais força dentro do Amigão, com a volta do público. Todavia, o reencontro em Campina Grande também ficou devendo em gols. Num primeiro tempo cauteloso, os goleiros mantiveram a segurança. Já na segunda etapa, o duelo se abriu um pouco mais e o América de Natal pressionou. Esquerdinha acertou a trave, antes que o goleiro Mauro Iguatu também salvasse a Raposa. Isso até que a definição ocorresse nos pênaltis sob chuva torrencial, com o novo 0 a 0.

O Campinense chegou a perder o primeiro pênalti da disputa, com Reynaldo pegando o tiro de Dione. No entanto, depois que todo mundo na sequência marcou, o América tomou a virada a partir da terceira série. Esquerdinha acertou o travessão e Roni isolou para os potiguares. Assim, a Raposa tomou a dianteira e pôde fechar a contagem em 4 a 2. O goleiro Mauro Iguatu, um dos heróis da campanha, assumiu a última cobrança e botou a bola na gaveta para decretar o acesso. O fim dos dez anos de amargor na Série D.

O treinador do Campinense é Ranielle Ribeiro, que trabalhou em diferentes clubes do Nordeste como preparador físico, até assumir o posto de treinador no ABC. Chegou a conquistar o Campeonato Potiguar e, contratado pelo Campinense neste ano, também faturou o Campeonato Paraibano. Curiosamente, chegou a atuar no futsal do América de Natal durante a juventude. Em campo, Mauro Iguatu enfrentou de início certa resistência da torcida pelo passado no Treze, mas se provou repetidamente como herói. Vale mencionar ainda o veteraníssimo centroavante Anselmo Tadeu, que brilhou em especial contra o Guarany de Sobral.

Fundada em 1985, a Aparecidense tem uma ascensão mais recente. O Camaleão começou a figurar na elite do Campeonato Goiano a partir dos anos 1990, mas foi mesmo na última década que o clube ganhou força, com apoio político e investimento em medalhões. O time de Aparecida de Goiânia se acostumou a ocupar as primeiras posições no estadual, com direito a dois vices. Consequentemente, a equipe também passou a bater cartão na Série D. Desde 2012, a agremiação disputou nove edições da quarta divisão, ausente apenas em 2014.

Depois da estreia na Série D em 2012, eliminada na fase de grupos, a Aparecidense chegou aos mata-matas pela primeira vez em 2013. Ganhou notoriedade, mas não por bons motivos. No duelo com o Tupi pelas oitavas de final, o massagista Esquerdinha salvou um gol dos mineiros em cima da linha e garantiu o empate que dava a classificação aos goianos. Porém, no STJD, a justa vaga nas quartas de final ficou com o clube de Juiz de Fora. A caminhada do Camaleão acabaria sendo bem mais longa.

Desde 2015, a Aparecidense disputou a Série D todos os anos. Contudo, eram campanhas de pouco impacto, com eliminações na fase de grupos ou então nos 16-avos de final. O sonho do acesso se tornou mais vivo em 2020, quando o time só ganhou a vaga porque o CRAC desistiu, em decorrência da pandemia. O Camaleão fez valer a chance, com a primeira colocação em seu grupo, além de classificações contra Tupynambas e São Luiz de Ijuí. A frustração aconteceu justo no duelo do acesso, contra o Mirassol, nas quartas de final. Num jogo emocionante no Aníbal Toledo, os paulistas acabaram vencendo e selando a promoção.

Com a terceira colocação no estadual de 2020, a Aparecidense mais uma vez conseguiu vaga na Série D. Fez uma campanha consistente do início ao fim. A equipe terminou na primeira colocação de seu grupo, com apenas duas derrotas. Eliminou a Caldense nos 16-avos de final, depois de perder o primeiro jogo por 1 a 0, vencendo o reencontro por 3 a 1, de virada. Já nas oitavas, o Camaleão se impôs contra o Cianorte, segurando o empate no Paraná e prevalecendo em Aparecida de Goiânia. Isso até os dois encontros com o Uberlândia na fase decisiva, com a vantagem de jogar a volta em Goiás.

Dentro do Parque do Sabiá, a Aparecidense já conseguiu um excelente resultado com o triunfo por 1 a 0. O duelo era equilibrado, mas Alex Henrique foi bastante feliz para anotar um golaço em sem-pulo durante o segundo tempo. Desta maneira, o empate no Aníbal Toledo bastaria neste sábado. Foi o que aconteceu, com o 1 a 1 no placar. O primeiro tempo seria difícil aos goianos, com o Uberlândia chegando a acertar a trave com Mateus Mendes. Já na segunda etapa, depois de um gol anulado de Alex Henrique, o Camaleão foi melhor e perdia chances até abrir o placar aos 42 minutos, com Lucas Negueba. Já nos acréscimos, de pênalti, Daniel Ribeiro igualou para os mineiros. Apesar dos riscos, a Aparecidense segurou a igualdade e comemorou o feito inédito.

Técnico da Aparecidense, Thiago Carvalho comandou também o time na Série D passada e se valeu da experiência adquirida. O ex-zagueiro tem apenas 33 anos e encerrou a carreira nos gramados no próprio Camaleão, antes de virar auxiliar. Consegue o grande feito da precoce carreira. Já em campo, o comandante dirigiu um elenco com diversos veteranos, alguns até mais velhos que ele. Aos 36 anos, o atacante Alex Henrique anotou gols essenciais na reta final da quarta divisão. Também foi importante a tarimba do goleiro Pedro Henrique, desde 2013 no clube.

A definição dos outros acessos da Série D acontecem neste domingo. Às 15h, a Ferroviária recebe o Atlético Cearense na Fonte Luminosa, depois do empate por 1 a 1 no Domingão. Já às 17h30, o ABC encara o Caxias no Frasqueirão, após empatarem por 0 a 0 no Centenário.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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