Lado B de Brasil

ABC e Atlético Cearense têm histórias bem distintas, mas comemoraram juntos o acesso na Série D neste domingo

ABC contou com a estrela do ídolo Wallyson, enquanto o Atlético Cearense desbancou a favorita Ferroviária nos pênaltis

A Série D terminou de definir neste domingo os seus quatro acessos. Depois de Aparecidense e Campinense, a Série C de 2022 também ganhará as presenças de ABC e Atlético Cearense – dois clubes de trajetórias bastante distintas, mas que reforçam ainda mais a presença do Nordeste na terceira divisão nacional. O ABC era um dos favoritos ao acesso e conquistou a vitória mais elástica das quartas de final, com os 3 a 0 sobre o Caxias no Frasqueirão, depois do empate sem gols no Centenário. Já o Atlético Cearense surpreendeu a favorita Ferroviária, com o 0 a 0 na Fonte Luminosa e a classificação nos pênaltis por 4 a 3. Os cearenses estrearão na Série C, enquanto os potiguares voltam depois da queda em 2019.

Ver o ABC na quarta divisão era até estranho, considerando a tradição dos alvinegros no Campeonato Brasileiro. Os abecedistas acumulam 14 aparições na Série A, 21 na Série B e 11 na Série C. Ao longo da última década, os potiguares se revezaram entre a segunda e a terceira divisão. Porém, depois da breve passagem pela Série B em 2017, a equipe ficou apenas dois anos na Série C e amargou o inédito descenso à quarta divisão nacional para 2020 – encontrando-se com o rival América de Natal, mais calejado na Série D.

A primeira tentativa de acesso do ABC na Série D não foi feliz. Na temporada passada, os alvinegros terminaram na liderança de seu grupo, mas perderam logo nos 16-avos de final, superados pelo conterrâneo Globo. Considerando o tamanho dos abecedistas e sua própria tradição nas divisões nacionais, a cobrança aumentava para esta temporada. E a equipe deu conta do recado, desde a fase de grupos, com uma das melhores campanhas dos octogonais – numa chave cascuda que ainda reunia Campinense e Atlético Cearense, outros dois que subiram, além do América de Natal.

Nos mata-matas, o ABC começou despachando o ascendente Retrô. Depois, superou também o 4 de Julho, outro clube que vem de uma temporada bastante positiva. A força do Frasqueirão ficava clara, com empates fora e vitórias em Natal. O roteiro se repetiria diante do Caxias, o oponente mais tradicional da fase decisiva, que tinha deixado a Portuguesa pelo caminho nesta Série D.

Dentro do Centenário, o ABC se valeu do empate por 0 a 0. Os potiguares adotaram uma estratégia mais cautelosa no Rio Grande do Sul e mantiveram a meta invicta, num duelo equilibrado em que até poderiam ter balançado as redes no segundo tempo. Já neste domingo, os abecedistas valeram-se da força de sua torcida para triunfar no Frasqueirão. O primeiro tempo ainda manteria o placar zerado, com o ABC trabalhando bem a bola, mas o goleiro Wellington também evitando o gol do Caxias. Já no segundo tempo, a porteira se abriu, para delírio da massa alvinegra.

O show começou as quatro minutos, num lance de sorte em que Gustavo Henrique desviou e a bola tocou na trave, além de um defensor, para entrar. Depois, o brilho ficaria por conta do atacante Wallyson. O veterano, completando 32 anos justo neste domingo, anotou o segundo depois de rabiscar pela esquerda e abrir espaço para o chute cruzado. Já nos acréscimos, Wallyson também serviria de garçom e daria o passe para Negueba selar a festa dos alvinegros. Dava até para ter um placar maior, com o goleiro Marcelo Pitol também fez boas intervenções para o Caxias, ainda que Wellington tenha segurado uma reação do outro lado.

O acesso consagra ainda mais Wallyson como uma figura histórica do ABC. O prata da casa teve seu primeiro grande momento em 2007, quando estrelou o acesso para a Série B. O atacante foi vendido para o Athletico Paranaense em 2008 e fez sucesso especialmente no Cruzeiro, antes de rodar o país. Já o primeiro retorno ao ABC aconteceu em 2018, conquistando o Campeonato Potiguar. O veterano ainda passou brevemente por Vitória e CRB, até o retorno definitivo ao Frasqueirão em 2019. Levou mais um estadual, antes de celebrar o acesso nesta Série D. De seus oito gols na campanha, quatro vieram nos mata-matas. Outro nome notável do ataque foi Gustavo Henrique, que também chegou a oito gols. Já o treinador é Moacir Júnior, nome rodado nas divisões de acesso, em sua segunda passagem pelo banco alvinegro.

Se por um lado o ABC honra seu passado, o Atlético Cearense escreve uma nova história. Fundado em 1997, o clube atravessou grande parte de sua trajetória chamado de Uniclinic, em referência aos seus proprietários. A Águia da Precabura se acostumou a disputar a elite do Campeonato Cearense a partir da virada do século, com algumas campanhas de relevo. Porém, foram oito anos na segundona estadual até o retorno em 2016, com o vice-campeonato na elite. Neste momento, os cearenses também passariam a frequentar as divisões nacionais, com a vaga inédita para a Série D.

O Uniclinic fez uma campanha positiva na Série D de 2016, chegando aos 16-avos de final. Porém, no ano seguinte, o clube abriu mão da vaga na quarta divisão, após seu proprietário desistir de investir no futebol – algo que já tinha acontecido na década anterior. O caminho à Águia, então, foi encontrar novos proprietários. A solução viria através do atacante Ari, de longa história no futebol europeu. Nascido em Fortaleza, o veterano teve passagens significativas por AZ, Spartak Moscou e Krasnodar. Após uma parceira com a base do Horizonte, ele arrendou o Uniclinic em 2017 e passou a cuidar da gestão. Foi então que a agremiação acabou rebatizada como Atlético Cearense, trazendo referências no escudo ao Lokomotiv Moscou, onde atuava o jogador na época.

O Atlético Cearense se manteve sempre entre os cinco primeiros do estadual nos últimos anos e jogou a Série D em 2019, de novo caindo na primeira etapa dos mata-matas. Já em 2021, a Águia selou mais uma classificação para a quarta divisão nacional. Agarrou a oportunidade. Na fase de classificação, o time passou na quarta colocação de seu duro grupo – o que não significava necessariamente falta de competitividade, levando em conta o peso da concorrência. Prova disso veio com a classificação sobre a Juazeirense, de ótima temporada, nos pênaltis durante os 16-avos de final. Já nas oitavas, também decidindo fora, os cearenses venceram o Paragominas por 2 a 0 em Fortaleza e passaram com a derrota por 2 a 1 no Pará.

Nas oitavas, o Atlético Cearense entrava como principal azarão. Por ter a pior campanha, precisou encarar a Ferroviária, melhor time das fases anteriores da Série D. A equipe do técnico Elano chegou aos confrontos do acesso sustentando uma invencibilidade de 17 partidas na competição. E a surpresa aconteceu, mesmo que a série invicta dos paulistas não fosse quebrada. Os dois times empataram por 1 a 1 no Domingão, em Horizonte. Ewerton Potiguar marcou um gol logo cedo para a Águia, mas a Ferrinha empatou com Gleyson. O resultado não parecia tão ruim aos grenás, considerando a força na Fonte Luminosa. Mas o favoritismo não se cumpriu, com o empate por 0 a 0 levando a decisão aos pênaltis em Araraquara.

Durante os 90 minutos, o Atlético Cearense conseguiu amarrar o jogo. Contou com o goleiro Carlão num primeiro tempo duro e também anulou os adversários na etapa complementar. Os pênaltis eram a loteria que a Águia queria. E, com uma pitada de drama, a festa foi cearense. Os goleiros Saulo e Carlão estavam inspirados. Foram duas defesas de cada na série inicial. O detalhe é que o próprio Carlão poderia ter dado a vitória para o Atlético na quinta cobrança de sua equipe, mas parou em Saulo. Já nas alternadas, os dois seguiram fazendo milagres. Pegaram os dois tiros das primeiras alternadas. Já na sétima batida de cada time, a segunda das alternadas, Carlão foi mesmo herói. Depois de Claudivan vencer Saulo, o goleiro da Águia defendeu seu quarto chute na noite e finalmente possibilitou o triunfo por 4 a 3.

No banco de reservas, a Águia foi premiada pela continuidade. O técnico Raimundinho está no clube desde agosto de 2019, depois de conduzir um trabalho relevante principalmente no Floresta. Pelo Verdão, já tinha chegado às quartas de final da Série D, quando perdeu o acesso para a Jacuipense. O feito deste domingo teve gosto de redenção. Já na presidência, o Atlético Cearense tem uma das raras mulheres no posto máximo dentro do futebol brasileiro. Maria Vieira escreveu a biografia de Ari, trabalhou nas categorias de base do Horizonte e foi convidada pelo atacante para comandar o então Uniclinic em 2017. Depois de superar as dificuldades da pandemia, a pedagoga consegue um feito tremendo com esta promoção.

Os resultados deste domingo garantem três clubes cearenses na próxima Série C, com Ferroviário e Floresta permanecendo na terceirona. Além disso, o acesso do ABC foi a chave para que o rival América garanta divisão nacional em 2022, tentando sair do calvário na Série D. As semifinais da quarta divisão ocorrem a partir do próximo final de semana, com os duelos entre Campinense x Atlético Cearense e ABC x Aparecidense. Já a decisão tem datas marcadas para os dias 7 e 14 de novembro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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