Lado B de Brasil

A desesperança é compartilhada por Santa Cruz e Paraná, duas camisas de peso rebaixadas à Série D

O final de semana contou com o rebaixamento de ambos os clubes na terceirona, com uma rodada de antecedência

A rodada da Série C no final de semana guardou a desesperança para dois clubes tradicionais e acostumados a figurar na elite do futebol brasileiro. Paraná Clube e Santa Cruz tiveram o descenso para a quarta divisão matematicamente consumado, num desastre que já se anunciava desde o início da competição nacional. Faltando mais uma rodada, o Santa soma apenas 11 pontos no Grupo A, a sete de sair da zona de rebaixamento. O Paraná, por sua vez, tem 13 pontos e ficou a seis da salvação, numa chave que também contou com o Oeste fazendo a pior campanha do certame. Restará a paranistas e corais já iniciarem o planejamento para uma dramática jornada na Série D, que não traz muitas garantias.

Impressiona a derrocada recente de Paraná e Santa Cruz. Os dois clubes viveram acessos marcantes à Série A do Brasileirão não faz muito tempo. Os pernambucanos despencaram a partir de 2016 e os paranaenses degringolaram a partir de 2018. Dívidas cresceram, o cenário da pandemia aumentou as dificuldades e os erros se sucederam. Ainda assim, muitas escolhas ruins acabaram sendo fatais em 2021, para que ambos tivessem aproveitamentos tão fracos na Série C – e também em outras competições paralelas. Abaixo, falamos um pouco sobre o contexto de ambos os clubes até o rebaixamento.

Paraná Clube

Foto: Rodrigo Sanches / Paraná Clube

O Paraná sofreu a queda mais abrupta. Afinal, 2018 se prometia um ano mágico aos paranistas, com o acesso de volta à Série A depois de dez edições consecutivas na segundona. Naquele momento, os tricolores inspiravam confiança pela própria maneira como conseguiram criar boas campanhas de engajamento e contaram com o massivo apoio da torcida na campanha do acesso. O que parecia indicar novos tempos e gerava expectativas de uma volta à bonança dos anos 1990, porém, acabou em frustração e uma derrocada repentina até a quarta divisão do Brasileirão em apenas quatro anos.

Cabe lembrar que, apesar dos dez anos consecutivos na Série B, o Paraná não atravessava uma situação tão estável assim. O clube teve sérios problemas financeiros e escancarava sua estagnação, depois de surgir como uma força dominante no futebol estadual durante seus primórdios. Também passou brevemente pela segundona do Paranaense em 2012. Depois de anos de mudanças na diretoria e pouca segurança sobre o futuro, a partir de 2016 o presidente Leonardo Oliveira chegou ao poder. Encabeçava o grupo “Paranistas de Bem”, compostos por empresários locais, que ganhou forças nos bastidores naquele momento. O time ainda flertou com a Série C nesta transição, mas os investimentos auxiliariam no acesso à Série B em 2017.

O retorno à primeira divisão, no entanto, começou a germinar o desastre que se viu nesta temporada. O Paraná arriscou na Série A. Tentou aplicar um estilo de jogo mais arrojado e trouxe uma barca de reforços, dando passos maiores que as pernas. O departamento de futebol manteve seu respaldo mesmo quando claramente as escolhas não davam resultado em campo. Além disso, uma disputa interna se estabeleceu entre Leonardo Oliveira e Carlos Werner, principal investidor dos tricolores naquela ascensão. As cisões teriam um custo bem mais caro aos paranistas.

Em 2019, o Paraná seguiu convivendo com os rachas internos. Ainda assim, aquela temporada seria um ponto fora da curva em meio à derrocada tricolor. A equipe ainda faria uma campanha digna na Série B e terminaria na sexta colocação, com 56 pontos. Seria um breve alívio antes que o cenário piorasse drasticamente em tão pouco tempo.

O curioso é que o Paraná também chegou a sonhar com o acesso na Série B de 2020. Mesmo com a pandemia, os tricolores faziam um bom primeiro turno e contavam com os acertos do técnico Allan Aal. Talvez o marco mais claro do desabamento tenha ocorrido após o 19° jogo daquela campanha, quando a diretoria decidiu demitir Aal diante de uma sequência com vários tropeços. A partir de então, os paranistas não se encontraram mais na campanha e acabaram rebaixados. Curiosamente, o antigo treinador arrumou as malas para o Cuiabá e comemorou um acesso histórico. Já o presidente Leonardo Oliveira abandonou o barco depois de cinco anos.

Ao longo de 2021, o Paraná Clube conviveu com problemas recorrentes dos últimos anos e viu tudo se potencializar, graças ao calendário atribulado e às finanças prejudicadas pela pandemia. As trocas na direção se tornaram mais constantes, os elencos passaram por renovações sem ganhar um rumo e as dívidas cresceram. A equipe já começou a nova temporada na fogueira, com a eliminação na primeira fase da Copa do Brasil. Não pegaria no tranco durante o Campeonato Paranaense e, ao longo da Série C, o drama se acentuou diante dos evidentes riscos de rebaixamento.

Um dos maiores símbolos da desorientação interna no Paraná aconteceu em seu elenco. O clube realizou 39 contratações ao longo da temporada e utilizou 51 jogadores. Destes, 30 já foram dispensados, sendo 24 dos trazidos ainda neste ano. Neste sentido, até surpreende que os paranistas só tenham contado com três treinadores ao longo do período. O ídolo Maurílio não emplacou e deixou o cargo em julho, para Sílvio Criciúma, que ficou cerca de dois meses no posto. Já nas últimas semanas, Jorge Ferreira assumiu interinamente, deixando o papel de auxiliar fixo na comissão técnica.

Mesmo o imprevisível atrapalhou os planos do Paraná. Sérgio Molletta, que substituiu Leonardo Oliveira na presidência, contraiu COVID-19 e preferiu deixar o cargo após ser internado. Luiz Carlos Casagrande assumiu em seu lugar e alinhou a parceria com a FDA Sports, uma empresa que tomou conta do departamento de futebol e seria uma das responsáveis pelo excesso de contratações, bem como por mudanças contínuas de executivos. A parceria durou dois meses e logo a FDA preferiu deixar o clube. Está sendo processada pelos paranistas, após muitas promessas de investimentos nunca cumpridas.

Com tantos problemas, o clube atrasou salários. Os funcionários tricolores ficaram de três a quatro meses sem receber, com protestos dos próprios jogadores em campo diante da situação. Por mais que gastos fossem cortados e patrocínios chegassem, as trocas constantes no elenco ajudavam a alimentar a bola de neve. Não à toa, a dívida dos paranistas deu um salto e chegou na casa dos R$140 milhões. O patrimônio do clube acaba na mira da justiça e estruturas foram a leilão nestes últimos anos, com o próprio Carlos Werner ganhando a propriedade do CT Ninho da Gralha por conta das pendências.

Às vésperas do descenso, o Paraná passou por uma eleição presidencial e Rubens Ferreira assumiu o posto principal no clube. O novo mandatário promete fazer um planejamento mais consciente do futebol e usar melhor as categorias de base, após a perda de muitas promessas de mão beijada. Rubão ainda vislumbra um pedido de ajuda aos rivais Athletico e Coritiba para montar o elenco rumo à próxima temporada. Tentará mudar a falta de comprometimento com o próprio Paraná, que prevaleceu entre diferentes gestões na última década. Os tricolores pararam no tempo e se perderam exatamente quando imaginavam a reconstrução. Agora, o caminho tende a ser muito mais longo, com todo o drama ao redor.

Santa Cruz

Foto: Rafael Melo / Santa Cruz

O inferno do Santa Cruz não é inédito. Muito pelo contrário, o clube sabe a dor que é disputar a Série D, quando representou a principal história nos primeiros anos da competição. Os tricolores caíram na terceirona em 2008 e passaram a integrar as edições inaugurais da quarta divisão nacional. Foram duas tentativas frustradas, com direito a uma eliminação ainda na fase de grupos em 2009, até que o acesso fosse comemorado em 2011. A partir de então, o Santa emendou uma ascensão meteórica que incluiu novas promoções na Série C em 2013 e na Série B em 2015. Mas não que a grandeza tenha sido recuperada no Arruda de maneira tão duradoura, como os anos seguintes provariam.

O Santa Cruz não teve fôlego na Série A, mesmo depois de liderar durante as primeiras rodadas, e caiu de imediato. Mais doloroso foi o descenso na Série B de 2017, que parecia pôr a perder todas as conquistas dos anos anteriores. Desde então, os tricolores conviveram com o encolhimento na Terceirona. Em 2018 e 2020, o Santa deixou escapar o acesso nas fases decisivas da Série C. Isso até que a hecatombe se consumasse nesta temporada, depois de outras campanhas suficientemente preocupantes nas competições regionais e que já prenunciavam à torcida que o pior poderia vir em breve.

O Santa Cruz protagonizou um campanha vergonhosa na Copa do Nordeste, na qual conquistou míseros três pontos em sua chave e ocupou a lanterna do Grupo A, com sete derrotas em oito jogos. O Campeonato Pernambucano não serviria de alento, com a passagem sofrida até as semifinais, perdendo então para o Náutico. Já a Copa do Brasil ofereceria um dinheiro limitado, com os pernambucanos até passando pelo Ypiranga do Amapá na primeira fase, mas logo despachados pelo Cianorte na etapa seguinte. Restava concentrar suas forças na Série C do Brasileiro.

Dizer que as arquibancadas vazias do Arruda tiveram um preço ao Santa Cruz é um fato, considerando a maneira como a torcida impulsionou a ascensão na última década e o próprio dinheiro que consegue gerar através da bilheteria. Porém, tal ponto acaba por mascarar o excesso de erros dos tricolores nos últimos anos e, em especial, nos últimos meses. Também por lá o cenário delicado da pandemia e de dívidas anteriores foi agravado por uma série de decisões ruins, que não se corrigiram mesmo com a clara falta de desempenho desde as primeiras competições da nova temporada.

O presidente Joaquim Bezerra conduziu o Santa durante os últimos sete meses e o departamento de futebol não ganhou novos rumos. Pelo contrário, a instabilidade gerou seus efeitos no campo. Desde a saída do técnico Marcelo Martelotte, que não chegou a um acordo pelo novo contrato às vésperas do início da pré-temporada, o elenco que passou perto do acesso na terceirona passada sentiu a quebra de confiança. A dispensa de lideranças gerou ainda mais repercussões negativas. Com isso, a incerteza não permitiu que os tricolores ganhassem sequência.

O Santa realizou ao longo do período 41 contratações, em partes pela renovação do grupo que estava na temporada passada e não foi mantido. Nem mesmo as remontagens do elenco pelos fracos rendimentos do primeiro semestre auxiliaram. Como resultado, a troca no comando também foi constante, depois do adeus a Martelotte. Roberto Fernandes foi o último a tentar salvar a lavoura, após João Brigatti, Bolívar e Alexandre Gallo assumirem o cargo – este, durando três jogos na função. Em sua saída, Gallo declarou que tomou a decisão pela falta de perspectivas com os problemas estruturais e fez uma série de críticas pesadas, inclusive sobre outros funcionários.

Tal entrave se percebia também com a dança das cadeiras na direção do clube e em cargos importantes na gestão. Que a situação do Santa Cruz não fosse tão caótica do ponto de vista financeiro no curto prazo, com o clube conseguindo cumprir suas obrigações mesmo na crise geral provocada pela pandemia, a nova gestão não aparentava contar com um bom diálogo interno. E nem mesmo o apelo a uma lenda do Arruda como Givanildo Oliveira, que assumiu o cargo de diretor técnico em junho, evitaria o desencontro nos bastidores. O próprio ídolo admitiria o incômodo com a falta de comprometimento de alguns jogadores.

Mas não que a direção deva sair ilesa, como aponta essa reportagem do Globo Esporte, após conversar com diversos jogadores. A maneira como o Santa Cruz dispensou diversos atletas repentinamente e não cumpriu acordos depois do desligamento influenciou os vestiários. Existiam rachaduras em diferentes âmbitos no Arruda e a falta de resultado em campo agravou tais atritos. O resultado foi o descenso antecipado mesmo num grupo no qual diversos adversários possuem condições financeiras mais limitadas que os pernambucanos.

Nesta falta de definição que permeou o Santa Cruz ao longo da temporada, uma reclamação sobre a diretoria é que ela não possui tino para o trato com o futebol. O novo estatuto do clube atendeu grande parte da torcida, com o aumento da participação popular nas decisões e uma profissionalização interna, sobretudo pelos aspectos administrativos. Todavia, não foi isso que garantiu também sensibilidade no contato com os jogadores e na própria condução das crises dentro de campo, resultando em mudanças excessivas no elenco e nas contratações sem tanto sentido até para o comando.

Como escreveu Grafite, antigo ídolo coral e atual comentarista na TV, em suas redes sociais: “Eu acredito na gestão a respeito de recuperar o clube, mas tenho que dizer que esta mesma gestão não estava preparada para gerir o futebol do clube e agora estamos nesta situação delicada, prestes a cair para Série D do futebol nacional. Realmente, essa gestão não é ‘da bola’, como dizem no linguajar futebolístico. Não conseguiram gerir o futebol do clube e a montagem da direção e elenco da temporada, o que foi crucial para o resultado horrível dentro de campo. […] Como eu disse, essa gestão não é da bola, mas vem trabalhando para recuperar o clube institucionalmente. Mas, infelizmente, falhou no futebol e tenho de reconhecer”.

O temor maior se concentra naquilo que a Série D pode representar em termos de receitas e perspectivas de reconstrução. O Santa Cruz possui uma dívida na casa dos R$240 milhões, com 500 processos trabalhistas tramitando na justiça – algo confirmado pelo próprio presidente. A quarta divisão sequer oferece um calendário completo e as perspectivas de público também são limitadas por conta da pandemia. E a camisa nem sempre consegue pesar na Série D, como os tricolores experimentaram em outras ocasiões. A missão é bem mais dura que aprender com os erros recentes e encontrar novos rumos na atual gestão.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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