A alma lavada no último nível do futebol paulista: Um relato sobre o dramático título do São José na Bezinha
Tem horas que você, como torcedor, sente que há alguma força oculta por trás do seu time. E isso não significa quase nunca uma coisa boa. São tantos anos desde o último acesso que você duvida da sua própria fé – mas não a abandona. Foram tantas vezes em que você acreditou que dava para tocar de novo o topo (mesmo que esse topo fosse só a primeira divisão do Campeonato Paulista), e a decepção veio no último momento, que sempre fica uma pontinha desconfiando do fracasso – mas que não tira de todo a esperança. Sofrer e torcer pareciam sempre partilhar a mesma frase.
Torcer para o São José, durante quase uma década e meia, foi entender que “algumas coisas só aconteciam com o São José” – tomando o perdão da paráfrase. Porém, o amor nunca se perde, mesmo aturando dois rebaixamentos, mesmo vivendo a sina de bater na trave todas as vezes também no inferno da Bezinha – a última divisão paulista, o nível mais distante até o topo do futebol nacional no Brasil. Mas quando essa conquista vem, meu amigo, você entende que nada daquilo foi em vão, por mais que o São José pudesse ter poupado um pouco mais seu coração. E, de uma vez por todas, você pensa: é por isso que eu te amo, São José. É por isso que a gente ama o futebol.
Neste sábado, o São José recebia o Bandeirante de Birigui na decisão da Segunda Divisão do Campeonato Paulista, o quarto nível do estadual. E, a bem da verdade, a missão principal tinha se cumprido uma semana antes: a Águia do Vale derrotou o Manthiqueira nos dois jogos da semifinal, selando o tão necessário acesso, que tira o clube das limitações da Bezinha e garante mais perspectivas na Série A3 de 2021. Até por isso, o torcedor já estava satisfeito, depois de quatro temporadas consecutivas na quarta divisão – sempre caindo nos mata-matas durante as três anteriores e, em 2018, o ano mais cruel, perdendo o acesso para o Comercial com um gol nos acréscimos do segundo tempo. De lambuja, a equipe ainda havia despachado nas quartas de final o Rio Branco de Americana, uma revanche após a decepção em 2009, com a promoção à primeira divisão perdida na última rodada. Mesmo assim, desta vez, sobrava uma chance para buscar o primeiro título do clube desde 1980 e ninguém em sã consciência ia negar essa oportunidade.
O São José perdeu a primeira partida contra o Bandeirante, em Birigui, por 2 a 1. O gol fora de casa já tinha sido um alívio tremendo, anotado só aos 48 do segundo tempo. Graças a ele, o time precisaria apenas de uma vitória simples em casa para se sagrar campeão neste sábado. Nem parecia uma tarefa tão difícil assim, considerando que a Águia do Vale vinha com a melhor campanha. E dava para confiar, considerando o time talhado ao sucesso que o clube montou para finalmente encerrar a sina em 2020.
O técnico Ricardo Costa vinha de três acessos na Bezinha durante os últimos quatro anos – não subiu justamente naquele 2018 traumático, no comando do próprio São José contra o Comercial. Em campo, o grupo também estava recheado de garotos tarimbados na quarta divisão, dez deles divididos entre as equipes de Paulista e Marília que subiram no ano anterior – vale lembrar que o limite de idade na competição é sub-23. E ainda que essa molecada tenha construído uma história belíssima em São José dos Campos até as semifinais, a decisão no Martins Pereira acabou lavando a alma da torcida. Pareceu expurgar os tantos anos de desengano que o torcedor joseense viveu desde o longínquo 2006, quando o clube havia faturado o último acesso.
Não fosse assim, não seria São José. O primeiro tempo no Martins Pereira seria duro, travado, mas o controle permanecia com o Bandeirante. O Leão da Noroeste pressionou mais e teve a grande chance da etapa inicial, num chute que estalou o travessão do goleiro Matheus Lopes. Como se não bastasse, aos 38, o volante Gustavo Nicola tomou o segundo amarelo e deixou a Águia do Vale com um a menos. Racionalmente, para já aguardar outra decepção, você começava a pensar que o objetivo tinha sido cumprido com o acesso e isso é que acabaria sendo lembrado no apagar das luzes. O torcedor, contudo, não pode ser racional. E o São José compensaria a esperança de quem se manteve fiel durante todos esses anos.
Com um a menos, o São José não se amedrontou. Pelo contrário, o time cresceu durante o segundo tempo em busca da vitória. Não se satisfez, mesmo que o jogo não fosse um primor técnico. O Bandeirante criou lances de perigo, mas a Águia arriscava mais. O goleiro Barbato realizou boas defesas para impedir os joseenses, até que a definição ficasse aos minutos finais. Antes disso, mais testes ao coração da torcida. O goleiro Matheus Lopes precisou fazer mais uma grande defesa do outro lado, já aos 39, no mano a mano. Pouco depois, Matheus Morais, que tinha ajudado o time na segunda etapa, recebeu o vermelho direto por agressão e deixou a Águia com nove homens. O clima tenso era evidente, com os jogadores se estranhando e o joseense Breno (o herói do acesso) também expulso minutos antes, já no banco. No fim das contas, aqueles seriam detalhes para engrandecer o drama.
O São José não sentiu a expulsão. O São José continuou insistindo durante os instantes finais. Corria o risco de um contra-ataque bem encaixado pelo Bandeirante, mas permaneceu em busca da vitória que daria o título. Àquela altura, não havia mais o que se perder. E foi assim que a Águia do Vale conquistou o maior triunfo de sua história recente. Aos 46, numa falta cobrada de longe em direção à área, Dener Santos colocou seu nome nos livros do clube. Desviou na raça, em meio ao bolo de jogadores, e viu a bola entrar mansa, até despretensiosa, para definir o placar. O atacante também havia saído do banco durante o intervalo e, em sua segunda bola nas redes nesta campanha, fez um gol para o torcedor ser eternamente grato.
Foi o gol da vitória por 1 a 0. O gol do título da Bezinha. O gol da maior campanha do São José desde 2006. O gol do primeiro título do clube desde a segundona estadual de 1980. O gol que fez o torcedor entender que aquela impressão de “zica eterna”, que aquela máxima de “tem coisas que só acontecem com o São José”, tornaria tudo mais saboroso quando a descarga de emoções viesse. Muita gente já tinha apoiado o clube do lado de fora do Martins Pereira nas últimas semanas, fazendo barulho no portão do estádio. Mesmo em tempos de pandemia, nos quais é necessário ficar em casa, muita gente resolveu sair às ruas para viver esse momento.
Para muito mais gente ainda, o São José não é apenas o time do coração. O São José é uma questão de identidade. E, neste ponto, peço desculpas e tomo a liberdade para falar em primeira pessoa, como torcedor. Nada supera o sentimento de pertencimento, a vivência nas arquibancadas, o estar junto com quem você ama. Não fui só eu que escolhi o São José, o São José me escolheu. Torcer para o São José é se apegar às próprias raízes, é proclamar o amor pela cidade onde você esteve a maior parte da sua vida, é carregar a bandeira da sua terra por onde quer que você vá. O sofrimento do futebol longe da elite, tão inerente ao São José (apesar do futebol feminino ou de outras modalidades da cidade), acaba fazendo parte desse processo – é uma consequência que se encara. Por isso mesmo, comemorar um título do São José é tão gratificante. É festejar com seus amigos que podem ter “times grandes diferentes”, mas também são os mesmos que você pelas origens. São os mesmos que você pelo São José, e por todas as emoções sentidas no Martins Pereira.
O São José faz parte da construção da minha personalidade. Eu também escolhi o São José quando decidi, lá na minha adolescência, acompanhar o time da minha cidade dentro do estádio. Ao lado de muita gente, celebrei o acesso à Série A-2 em 2006, assim como presenciei os desenganos dos tempos em que se acreditava que a Águia estava próxima de voltar à elite do Paulistão. Foram vários momentos de “agora vai” e muitas alegrias nas arquibancadas, claro – como esse jogo agônico aqui, tão especial à minha memória. Em contrapartida, também havia uma sensação sem fim de que nada dava certo. À medida que me afastava de São José dos Campos, morando em outra cidade, percebi que me aproximava do São José. E não seria o “quase” repetitivo, não seriam os rebaixamentos, não seriam os anos da Bezinha que acabaram com isso que se chama pertencimento. Pelo contrário, tudo se tornou mais forte e parecia uma erupção com esse título épico que, foda-se, é da quarta divisão paulista. Desta forma, sei que muita gente sente igual pelo São José. Sei que muita gente compartilha pelo clube da própria cidade, em outros tantos cantos.
A gente segue sonhando. Tem uma esperança que não sai do pensamento, que é ver de novo o São José de volta na elite do Campeonato Paulista, onde o clube viveu seu ápice – o vice em 1989, chegando a despachar o Corinthians na semifinal. Ainda mais longínquo, também permanece o devaneio de ver a Águia voando à primeira divisão do Brasileirão, o que aconteceu por duas vezes, em 1982 e 1990. É isso que alimenta a razão do torcer, do confiar, do seguir em frente. Este sábado, de qualquer forma, me lembrou outra razão do torcer: é estar com os seus (mesmo à distância), é compartilhar as alegrias, é sonhar junto e poder ver esse sonho se tornando realidade. Você acredita mais na dramática façanha que ocorreu quando não está sozinho, quando tem outros iguais a você no mesmo transe.
A Bezinha, felizmente, é parte do passado ao São José. Infelizmente, aconteceu em tempos nos quais o “estar junto” nunca é completo. Mas o feito ajuda a criar outras expectativas: que esses tempos passem e o Martins Pereira possa estar cheio de novo para seguir caminhando. É assim que o futebol nos ajuda no dia a dia. É assim que eu também espero que seu clube, essa parte da sua identidade, também possa te ajudar.



