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Seleção: O que pode explicar safra diminuta de volantes no futebol brasileiro?

Qualidade para gerenciar o jogo à frente da própria área também faz parte da essência do jogo no país

Alguns assuntos valem uma consideração mais ampla que um corte de um live — e, por esse motivo, vou voltar, sempre lembrando da insignificância da minha própria opinião, para o debate sobre a evolução do meio do campo no futebol brasileiro.

Friso desde o início que estou me referindo à área do campo na faixa central, na frente da zaga — o que podemos chamar de zona de construção. Portanto, jogadores como Kaká, Ronaldinho e tal não estão incluídos. E justamente onde o Brasil já desfrutava de Danilo Alvim, Didi, Gérson — e não desfruta mais.

Mais uma coisa. Declaro a minha admiração pela seleção que ganhou a Copa de 1994 — muito equilibrada entre ataque e defesa, um time de posse da bola, bem pensada para as condições de calor extremo. O problema que vejo é com as consequências daquele time. 

Foi a consolidação definitiva de um 4-2-2-2, em que, com laterais ofensivos, uma divisão forte reinava no meio campo. Dois atacam, dialogando com os laterais e os atacantes. E dois defendem. O time fez com Mauro Silva e um Dunga muito melhorado desde a Copa anterior — dois excelentes jogadores que além de proteger, iniciavam as jogadas com qualidade, dando fluência para o time.

Mas depois, o modelo era imitado com jogadores bem mais limitados, efetivamente zagueiros na frente dos zagueiros. O modelo deu certo durante um período, mas as suas alegrias nunca foram tão profundas quanto aqueles da época de Didi e Gérson, e também o caminho para frustrações futuras estava sendo pavimentado.

O grande problema é que duas tendências já estavam agindo para ter um efeito negativo na qualidade do jogo.

Destruir ou criar? O dilema do cabeça de área

A primeira era a falta de segurança no emprego dos técnicos. Aqui cito como testemunha o grande Zizinho. Craque da Copa de 50, o mestre Ziza foi um daqueles talentos extraordinários que — um pouco parecido com Cruyff — tinham uma obsessão com tática. Jogava numa época de muita curiosidade e desenvolvimento — de quando WM era novo, passando pelo diagonal e indo para 4-2-2 e 4-3-3. Entendeu que essas experiências eram possíveis porque o técnico era forte. 

Tirar a sua força, coloca ele sob pressão, e a consequência é cautela. Daí, quando escreveu o seu próprio livro em 1985, terminou o texto com uma grande advertência. “Deram ao cabeça-de-área, um homem que tem em seu poder 70% da posse da bola da sua equipe, a função específica de destruir, quando devia ser a de criar as jogadas.”

A zona de construção, então, se transformou na parte do campo onde procurava-se interromper o jogo em vez de dar fluência. Lembra daquele corrente, forte nos anos 90, onde reinava a ideia que a falta era um recurso do jogo, e que o time fazendo mais faltas tinha mais chances de ganhar?

Mas não era somente a situação precária dos treinadores. Houve justificação intelectual.

Uma ala tecnocrata sempre foi importante dentro do futebol brasileiro — o país esteve anos na frente com preparação física, por exemplo. A Inglaterra foi para a Copa do Chile em 1962 sem um médico. O Brasil já teve uma comissão técnica que, incrivelmente e com certeza prematuramente, incluiu um psicólogo em 1958.

Tudo isso tem grande valor. O título de 1970 — visto mundialmente como o triunfo dos triunfos — foi muito ajudado pelos treinamentos específicos para as condições do México. Mais bem preparada, a equipe ganhou os jogos no segundo tempo.

Jorginho em ação pela seleção italiana
Jorginho em ação pela seleção italiana (Foto: Imago)

Os tecnocratas existem num mundo de números. O que eles podem contar, podem gerenciar. E eles ficaram obcecados com o desenvolvimento físico do futebol. Para a maioria, a seleção da Holanda de 1974 era um símbolo de uma ideia de futebol bem jogado. Dentro da tecnocracia a lição era outra.

O adversário agora estava capaz de colocar uma pressão enorme em cima da bola. Portanto, não ia ter mais o tempo e espaço para elaborar o jogo desde a faixa central. Agora o objetivo passa a ser de ganhar os duelos físicos naquele espaço, e usar os lados para contra-ataques rápidos, sempre lembrando que as estatísticas parecem mostrar que a maioria dos gols vem depois de um máximo de três passes.

Explica muita coisa, porque no futebol a ideia sempre vem em primeiro lugar. Explica a confusão no futebol brasileiro com o surgimento do Barcelona de Guardiola. Explica a briga com o futebol local de Casemiro.

Explica porque o Jorginho tinha que ir para o exterior para ser valorizado. Explica a dificuldade de produzir, por exemplo, um Vitinha do PSG. Explica o amor de Pedrinho por Fernando Diniz — o tipo de técnico que ele adoraria ter tido.

Se fala bastante sobre a essência do futebol brasileiro — um termo fadado ao fracasso num país tão grande e tão diverso. Tem muitas coisas e influências construindo a realidade brasileira — que é justamente o seu ponto forte. Mas no futebol, sempre se fala do drible. De fato, fundamental — acho que, contra defesas organizadas e fisicamente bem preparadas, os dribladores até estão ganhando em importância. Mas para mim, dentro de tal essência, não poderia faltar um Didi ou Gérson, com a inteligência e qualidade de gerenciar o jogo desde a faixa central do campo, transformando o espaço na frente da zaga na zona de construção.

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira (Crédito: Marlon Costa/Agif/Gazeta Press)
Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira (Crédito: Marlon Costa/Agif/Gazeta Press)

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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