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Flamengo projeta futuro e desafio é fazer a gestão do futebol ser tão competente quanto a do clube

Ano eleitoral costuma ser um fenômeno à parte em qualquer instância política – seja nas prefeituras, nos governos estaduais ou na República. A aproximação do pleito faz com que muitas obras aconteçam em ritmo recorde, enquanto debates essenciais acabam postergados em meio às consequências que podem trazer aos candidatos. Enquanto isso, situação e oposição fazem com que as pautas administrativas, de certa maneira, girem em torno de seus interesses. É preciso conduzir o trabalho, mas às vezes o populismo tem mais valor para a continuidade do que o essencial.

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De certa maneira, os principais clubes do país também vivem o ano atípico. E o Flamengo pode ser tomado como exemplo disso ao longo de 2015. Logicamente, os rubro-negros tomaram os rumos que sua atual presidência achava melhor. Mas a questão do debate eleitoral se tornou inerente na maioria das posições tomadas ao longo dos últimos meses, até pelo rompimento que aconteceu na gestão vigente. Já nas semanas mais próximas da disputa nas urnas, as campanhas se escancararam. E, com o time sem mais chances de conquistar títulos ou vagas na Libertadores, o planejamento de 2016 na Gávea acabou submetido às propostas dos dois principais candidatos. Nome de técnico virou carta na manga, por mais que a tentativa de Wallim Vasconcellos em pedir truco com Jorge Sampaoli tenha se desmentido em blefe.

A partir desta terça, enfim, o Flamengo já pode caminhar tranquilo para o se próximo ciclo diretivo, com nova vitória de Eduardo Bandeira de Mello. E botar ordem na casa pensando como será 2016. O atual trabalho, de tentar fazer uma gestão mais consciente e aproveitando o potencial financeiro do clube, seguirá – por mais que nomes importantes tenham migrado justamente para a oposição. Enquanto isso, o futebol finalmente começa a ter projeto traçado, com o anúncio do nome de Muricy Ramalho como técnico.

Eduardo Bandeira de Mello, presidente reeleito do Flamengo
Eduardo Bandeira de Mello, presidente reeleito do Flamengo

O primeiro mandato de Eduardo Bandeira de Mello agradou a maioria dos eleitores rubro-negros. Obviamente, nem tudo pode ser apontado como perfeito. Os resultados do futebol ficaram muito aquém do desejado, assim como parte das contratações não surtiram o efeito desejado ou foram precipitadas. Mas é o princípio da administração, sobretudo, que prevalece neste momento. Ao invés da política de gastar mais do que tinha, tão absurda quanto comum ao longo da história do clube, o Flamengo passou a usar de maneira mais responsável os seus recursos e a quitar suas dívidas. Os salários em 2015, por exemplo, foram pagos rigorosamente em dia, algo básico para qualquer empregador que raras vezes era respeitado na Gávea. No que concerne à responsabilidade nas finanças, os flamenguistas estão um passo à frente, enquadrados na responsabilidade fiscal que deveria reger todos os clubes e provavelmente será obrigatória dentro de alguns meses. Houve caixa até para certas gastanças, como a contratação de Guerrero, que ainda não se pagou em campo.

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Mesmo assim, esses gastos não significaram o comprometimento da instituição, como tantas outras vezes. E o potencial comercial passou a ser mais bem aproveitado, ainda que nem sempre de maneira unânime, como no preço dos ingressos em determinadas ocasiões, embarcando nos esparsos sucessos da equipe. Da mesma maneira que alguns conflitos internos, tratados de paradoxal maneira amadora pela gestão profissional (como no desfecho do Brasileirão de 2013, por exemplo, diante do risco de rebaixamento), colocaram em xeque o que se fazia em relação às finanças.

Neste momento, a cobrança maior sobre Bandeira de Mello acontece diante da falta de melhores resultados dentro de campo diante do que se faz (ou se promete) fora dele. O Flamengo não foi exemplo de organização em seu departamento de futebol durante os últimos meses, tanto pelas trocas de técnicos quanto pela política de contratações. A presidência não teve culpa quando viu a situação fugir um pouco de seu controle diante da saída de Mano Menezes, o homem escolhido como ideal. Ainda assim, erros foram cometidos depois disso. E a instabilidade nos bastidores também refletiu sobre Rodrigo Caetano, trazido em 2014, que não fez a direção corresponder ao seu passado elogiado no futebol. Diante do montante que o Fla recebe das cotas de TV, não dá para apaziguar o desempenho ruim da equipe de uma maneira geral, em especial em 2015.

No entanto, o horizonte rubro-negro é aberto neste momento. Não há mais as urgências do debate eleitoral. E o presidente reeleito possui ao menos dois anos de calmaria até que as disputas de bastidores voltem a esquentar. Terá tempo para seguir implementando a sua gestão consciente e o fortalecimento comercial, envolvidos ainda em outras frentes, como o Profut – projeto de transparência e responsabilidade financeira das entidades financeiras sobre o qual o Flamengo aparece entre os principais defensores. Além disso, precisará colocar a ordem que ainda não conseguiu no futebol.

Muricy foi anunciado como novo técnico do Flamengo
Muricy foi anunciado como novo técnico do Flamengo

O nome de Muricy Ramalho pode não agradar a todos os rubro-negros, pelo estilo de jogo com o qual se consagrou, ainda mais quando comparado ao momento de Sampaoli – por mais que admirar uma seleção “suicida” como a do Chile seja mais fácil do que torcer por ela. O nome de Muricy, além de vitorioso, indica um planejamento de médio e longo prazo. Não chega na fogueira dos resultados ruins, como todos os comandantes do time desde a queda de Mano Menezes. Da mesma maneira, o treinador vem de um processo de reciclagem que se sugere interessante, incluindo experiências no Barcelona. E, sobretudo na passagem pelo Santos e na mais recente pelo São Paulo, apresentou uma proposta diferente do famoso “Muricybol”. Escorado por Rodrigo Caetano na direção executiva, a tranquilidade para cuidar do time deve ser grande.

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Ainda assim, a montagem do elenco para 2016 não será tão simples. O Flamengo possui bons nomes que não funcionaram em campo, assim como carências evidentes, sobretudo no meio de campo e na defesa. Terá que renovar as suas forças diante do potencial financeiro que não tem se imprimido nos resultados, assim como dentro de uma disputa política que deve envolver o clube no primeiro semestre, com a queda de braço com a federação carioca. Os rubro-negros não podem perder o foco que seu objetivo estará principalmente no segundo semestre, com a Copa do Brasil e o Brasileirão. Por mais que o futebol não seja lógico, e o brasileiro muito menos, o mínimo que se exige diante da força financeira do Flamengo é que o clube brigue por uma vaga na Libertadores. Na maioria, o que aconteceu em 2015 é exemplo para não se repetir.

O trabalho de dirigentes quase sempre depende do momento. No entanto, é preciso ressaltar que, independente sobre a opinião pessoal de cada um sobre a atual gestão do Flamengo, ela seguiu um trabalho coerente diante da maioria das diretrizes que prometeu. Deve continuar assim, até porque antecipa o enquadramento que os clubes precisarão ter com o Profut. Por mais que, em um ambiente como o do futebol, as avaliações acabem submetidas aos resultados. Se a longo prazo o Flamengo parece dar passos firmes, o curto prazo pode atrapalhar isso. A empresa é diferente do clube. E, se o sucesso empresarial da primeira gestão possa ser apontado, o futebol esteve distante disso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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