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O Flamengo se prepara para dominar o futebol brasileiro, se a bancada da bola deixar

Foi um fato sintomático. Presidentes das equipes da Série A se reuniram na CBF e acertaram um boicote à Medida Provisória 671, que sistematiza o refinanciamento das dívidas dos clubes com o governo. Todos os times aderiram ao movimento, exceto um, o Flamengo. Não poderia haver sinal maior de que o Rubro-Negro está se preparando para dar um salto. Uma subida de patamar que pode criar um domínio de alguns anos da Gávea no futebol nacional.

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É uma questão de entender o momento. As regras propostas pelo governo – que precisam ainda serem aprovadas pelo Congresso, onde deverão sofrer rejeição da bancada da bola – obrigam os clubes a terem gestão empresarial. É preciso gastar dentro do que se arrecada, não é possível acumular dívidas como se não houvesse consequências. É o que o Flamengo tem tentado fazer com Eduardo Bandeira de Mello.

Parece algo simples, mas não tem sido tão comum. Mesmo clubes que, nos últimos tempos, viveram bons momentos em sua gestão acabaram patinando no controle de gastos. É o caso de Corinthians, São Paulo, Internacional, Atlético Mineiro e Cruzeiro. Todos montaram equipes competitivas, chamaram a atenção como exemplo em alguma área, mas tiveram de atrasar salários ou vender jogadores.

Isso ocorre porque não há um fator limitador de gastos, o que incentivando os clubes a sempre tentarem dar um passo a mais para superar o adversário em campo. O Flamengo também pode passar por isso e cair em tentação para o Brasileirão. Mas há dois elementos muito positivos na Gávea: a aprovação de da Lei de Responsabilidade Fiscal Rubro-Negra, uma emenda no estatuto que antecipa a adequação à MP 671, e, principalmente, o entendimento da maior parte da torcida de que esse é o caminho a seguir. Com isso, a pressão por investimentos impulsivos diminui drasticamente.

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Se a MP do refinanciamento realmente entrar em vigor, o Flamengo já estará vivendo nesse sistema. Com isso, se adaptará mais rápido às novas regras e, enquanto as outras equipes ainda estiverem se redimensionando e mudando suas políticas internas, o Rubro-Negro estará operando normalmente.

Isso não significa que o Flamengo se tornará um Bayern de Munique ou Real Madrid brasileiro. A diferença de tamanho e potencial econômico entre os clubes brasileiros é mais graduada do que em Alemanha ou Espanha. Ainda assim, o time de maior torcida do País teria essa vantagem momentânea, que poderia lhe garantir alguns anos de domínio (mesmo que tenha um ou outro concorrente a cada temporada).

Não seria algo inédito. Pelo contrário, houve um exemplo razoavelmente recente no Brasil. No começo da década de 2000, a Lei Pelé acabou com o passe e mudou radicalmente a forma de se contratar jogadores. O São Paulo foi o clube que entendeu isso com mais facilidade e conseguiu atrair vários jogadores, montando uma base que foi tricampeã brasileira, campeã da Libertadores e campeã mundial. No final da década, as outras equipes já haviam entendido como viver nesse novo contexto e a superioridade tricolor se dissolveu. Mas deu para aproveitar bastante enquanto isso não acontecia.

Por isso, as campanhas discretas do Flamengo nos últimos Brasileirões podem até indicar um momento ruim, mas o clube está preparando um salto. Precisa resolver a questão de sócio-torcedor e ter públicos constantemente bons no Maracanã, precisa voltar a revelar jogadores, precisa muita coisa. Mas, se o futebol brasileiro for obrigado a racionalizar sua gestão financeira, o Rubro-Negro estará à frente de todos. E pode dar a sua torcida alguns anos de muitas alegrias.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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