Governo obriga clubes a serem responsáveis, mas o principal fiscal tem que ser você, torcedor
Foi uma vitória do bom senso. Do grupo de jogadores que se organizaram há cerca de dois anos para colocar amarras nos gastos irresponsáveis dos dirigentes e no calendário que ficava cada vez mais apertado. Também do conceito baseado em razoabilidade e sensatez que todo ser humano deveria ter, mas cronicamente esteve em falta no futebol brasileiro. A presidenta Dilma Rousseff (PT) assinou, nesta quinta-feira, a Medida Provisória que renegocia as dívidas dos clubes com rígidas contrapartidas que, se forem de fato implementadas, obrigam-nos a serem responsáveis, sob pena de perda de pontos e rebaixamentos.
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A ponderação cabe porque, uma vez oficializada, a MP será entregue ao Congresso para apreciação. Os deputados e senadores terão quatro meses para analisá-la e apresentar, caso queiram, modificações e emendas. É quando a chamada Bancada da Bola, grupo de parlamentares, digamos, amigos da CBF, pode exercer a sua influência e tentar amenizar as exigências. No começo do ano, o deputado Jovair Arantes (PTB-GO), membro desse grupo, tentou incluir o parcelamento das dívidas sem contrapartidas em uma lei que desonerava equipamentos de agropecuária. Dilma vetou.
A intenção da MP é acabar com hábitos tão tradicionais no Brasil quanto beber caipirinha e pular carnaval. Os clubes não poderão mais atrasar salários (precisam publicar documentos que comprovem o pagamento mensalmente), nem adiantar receitas de contratos futuros de televisão. Mas nada deixará tanta saudade quanto a liberdade de gastar mais do que arrecadam. Apenas 70% da receita bruta pode ser destinada ao departamento de futebol, e o resto tem que ser reservado para parcelas da dívida, outros esportes ou guardado no banco. É obrigatório investir em futebol feminino e nas categorias de base.
As novas regras valem a partir da publicação do texto no Diário Oficial da União, o que deve acontecer nessa sexta-feira. Os clubes têm entre dez e 20 anos para pagar todas as suas dívidas fiscais. Quem escolheu o primeiro prazo tem 70% de desconto em multas e 30% em juros; os que optaram pelo segundo, 60% e 25%. Precisam apresentar Certidão Negativa de Débito antes do torneio começar (documento que atesta o cumprimento das obrigações com os impostos) ou serão rebaixados. Punições com perda de pontos serão aplicadas no campeonato seguinte para não bagunçar muito as coisas, provavelmente pelo STJD, apesar de isso ainda não estar definido. Um órgão do Ministério do Esporte vai fiscalizar tudo.
O principal fiscal, porém, tem que ser o torcedor. Quando uma empresa de fast food, por exemplo, está muito atrás da principal concorrente e decide cortar gastos, demitir funcionários e reduzir o investimento para se reorganizar, não há protestos na porta da matriz. Ela também não tem a obrigação, exceto pelo orgulho de seus executivos, de faturar mais que a outra. Se o mercado de lanches de qualidade duvidosa explodir, todos podem lucrar bastante ao mesmo tempo. O cenário do futebol é completamente diferente. Por isso, os clubes nunca podem ser geridos exatamente como empresas, mas também não podem ser completamente amadores.
A austeridade muitas vezes significa perder jogadores importantes para o rival ou brigar contra o rebaixamento. Isso fere o orgulho do apaixonado pelo clube, deixa-o sem esperanças e mexe com os sentimentos de milhões de pessoas. Foi o que aconteceu com o Palmeiras ano passado, e os torcedores não perdoaram o presidente Paulo Nobre por deixado Alan Kardec ir para o São Paulo e pelo horrível time que ficou a um gol do Vitória de cair para a segunda divisão pela terceira vez. Esse é um caso extremo, e os torcedores tinham boas doses de razão porque houve um certo exagero por parte da diretoria alviverde, mas mesmo o Flamengo encontrou resistência na tentativa de equacionar as dívidas. O título da Copa do Brasil e o fato de os rivais estarem mais enfraquecidos ajudaram, e grande parte da torcida rubro-negra já comprou essa ideia.
Com as exigências da Medida Provisória, os clubes brasileiros vão passar por anos difíceis pela frente até conseguirem se adequar, e o torcedor precisa entender o quanto isso é necessário. Remunerar a força de trabalho dos jogadores, cidadãos com contas e responsabilidades como os outros, é obrigação. Contribuir para a Receita Federal, também. Não gastar mais dinheiro do que arrecada parece tão básico que nem precisa ser reforçado. Mas conquistar títulos é uma exceção. Em um campeonato com 20 clubes, apenas um deles levantará o troféu, e por isso aquele momento é tão especial.
O torcedor tem o direito inalienável de sonhar com as grandes conquistas e pressionar o seu time a alcançá-las. Não se cobra que ele abra mão disso, mas perceba que a vitória não pode vir a qualquer custo. A boa gestão não é apenas a fórmula mais apropriada para montar bons times, nem parte da cartilha do “futebol moderno”. É simplesmente a coisa certa a se fazer. “Todos os clubes têm dívidas” era o que se ouvia. Agora, todos precisarão deixar de ter, e quem for mais competente terá mais sucesso, como quase sempre funciona, mas a partir de um ambiente muito mais saudável e sensato. A irresponsabilidade quase secular do futebol brasileiro não pode mais servir de desculpa. O momento para revertê-la chegou.



