Brasil

Briga de Marcos Braz é apenas mais um episódio de um Flamengo sem direção

Perdido dentro e fora de campo, Flamengo dá sinais claros de falta de planejamento e desorganização geral

Show de horrores e pesadelo sem fim. Assim podemos definir a temporada 2023 do Flamengo. Ainda que consiga uma improvável virada sobre o São Paulo e conquiste a Copa do Brasil no domingo (24), o clube da Gávea, capitaneado por uma diretoria ‘viciada’ em tomar atitudes equivocadas, já perdeu aquilo que a torcida rubro-negra mais preza: seu espírito de luta. Não no sentido literal, claro, já que, nesta terça-feira (18), o clube viu mais um episódio de agressão.

Desta vez, Marcos Braz, vice-presidente de futebol do Flamengo, se envolveu em confusão e trocou agressões físicas com um torcedor dentro de um shopping localizado na zona oeste do Rio de Janeiro. O dirigente estava com sua filha em uma loja quando foi abordado por três flamenguistas, que se identificaram como integrantes de uma organizada. Eles criticaram o cartola e pediram a saída do técnico Jorge Sampaoli e de Gabigol. Segundo Braz, ele foi xingado. Na sequência, o vice-presidente e seu segurança saíram atrás dos rubro-negros e deram início à confusão.

Como diz o título do texto, a briga protagonizada por Marcos Braz é apenas mais um dentre os muitos absurdos que o torcedor rubro-negro teve de ‘digerir’ ao longo de 2023. O péssimo desempenho do time em campo e o acúmulo de fiascos tem explicação. E engana-se quem acha que ela se resume apenas em trabalho de treinador ou a chegadas e saídas de jogadores. O buraco é bem mais embaixo e o diagnóstico aponta para um Flamengo doente, incapaz de acertar dentro e fora das quatro linhas.

Atritos internos ‘escancaram’ falta de comando no Flamengo

Dois casos que ilustram bem o quanto o Flamengo é mal gerido ocorreram recentemente. Primeiro, o soco na boca de Pedro, desferido pelo preparador físico de Jorge Sampaoli. Depois, a briga entre Gerson e Varela durante treinamento que antecedia a semifinal da Copa do Brasil. Em ambos os episódios, a diretoria rubro-negra escancarou falta de critério e, com isso, viu atritos internos se formarem.

A partir do momento que dois jogadores do mesmo clube se desentendem e partem para agressão física, algo está errado. E a inércia do departamento de futebol do Flamengo certamente é fator determinante para que casos como esse ocorram. Coleguismo é uma palavra que exemplifica bem a relação de certos cartolas rubro-negros com o elenco. Pulso firme, ou melhor, a ausência dele, acaba fazendo com que atletas se sintam no ‘direito’ de fazerem o que bem entendem, pois sabem que não sofrerão consequências severas.

Gerson se lamenta: um gesto protagonizado diversas vezes pelo Flamengo de 2023 (Foto: Icon Sport)

Desde a saída de Jorge Jesus, a desorganização interna passou a ser ‘mantra’ na gestão Landim. Isso porque, durante a passagem do Mister pelo Flamengo, o próprio português fazia questão de ter o controle de tudo. Horários regrados, disciplina do elenco, reuniões semanais… Jesus aceitou treinar o Rubro-Negro sob tal condição e os dirigentes compraram a ideia do treinador. Deu certo, muito certo. Em campo, o clube enfileirou vitórias e conquistou os principais títulos. Fora dele, elenco unido e comprometido com a instituição. Entretanto, após a saída do ídolo, as coisas começaram a desandar.

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Excesso de técnicos e ausência de planejamento

Ainda que o Flamengo tenha levantado troféus importantes depois de Jorge Jesus, o clima de paz no clube passou a ser cada vez mais raro desde então. Além de Sampaoli e Jesus, passaram pelo Ninho do Urubu na gestão Landim: Abel Braga, Domènec Torrent, Rogério Ceni, Renato Gaúcho, Paulo Souza, Dorival Júnior e Vítor Pereira. Com exceção do Mister e de Dorival, nenhum treinador teve paz para trabalhar. O resto acabou ‘fritado’, ou pela torcida, ou pelo próprio elenco.

Nove técnicos em cinco anos. Isso explica muita coisa e ajuda a entender o porquê o Rubro-Negro chegou ao atual estágio, afundado na crise e totalmente sem rumo. Com faturamento anual superior a 1 bilhão de reais, o Flamengo dá aula de como não saber aproveitar o gigantesco poderio financeiro que possui. A maior prova disso é o valor exorbitante que o clube já teve de arcar em virtude das multas rescisórias dos treinadores demitidos antes do término de contrato.

Em campo, as constantes mudanças no estilo de jogo também minam e influenciam diretamente na queda de desempenho da equipe. Campeão da Libertadores e da Copa do Brasil em 2022, Dorival Júnior não teve seu contrato renovado pela diretoria e, para surpresa e fúria de muitos rubro-negros, deixou o comando do time. Vítor Pereira foi o escolhido para 2023 e às pressas teve de treinar o elenco visando as disputas de quatro competições: Mundial de Clubes, Supercopa do Brasil, Recopa Sul-Americana e Campeonato Carioca. Resultado? Derrotas acachapantes, três vice-campeonatos e nenhuma taça.

Sampaoli chegou e o roteiro segue sendo o mesmo. Atuações aquém do esperado, acúmulo de vexames e problemas de relacionamento interno. O treinador argentino não é bem quisto por boa parcela do elenco e tal distanciamento entre as partes é refletido dentro de campo. Como citado no início do texto, o Flamengo pode até virar o confronto e ser campeão da Copa do Brasil dentro do Morumbi. Porém, o ciclo vicioso, que reúne ações equivocadas, falta de profissionalismo e incapacidade de fazer uma autocrítica parecem longe de ter um fim no clube da Gávea.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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